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Diretor de Tecnologia da Media Capital Digital

O segredo de jornalistas e apresentadores de TV que o poderia deixar milionário - podia, mas não pode, porque é uma burla! 

23 ago 2025, 11:00
Opinião Nuno Fonseca

A fórmula da burla não é nova, mas tem-se multiplicado. Imagens de figuras públicas, como jornalistas ou apresentadores, são usadas pelos burlões nas redes sociais, tirando partido da sua notoriedade e credibilidade, para enganar os mais distraídos ou menos precavidos.  

Caras da TVI e da CNN Portugal, como o Pedro Santos Guerreiro, a Sandra Felgueiras, o Cláudio Ramos ou o Manuel Luis Goucha são apenas alguns dos nomes usados mais recentemente de forma criminosa pelos burlões. Além de caras conhecidas do público, para credibilizar a armadilha, copiam ainda a imagem de sites de notícias fazendo parecer ao utilizador que está num dos sites que conhece.  

Até é verdade que estes esquemas geram milionários, mas serão apenas os burlões a enriquecer com o dinheiro de muitas vítimas. O dinheiro de quem caiu na burla só tem bilhete de ida.

A falsa entrevista de Goucha a Cláudio Ramos

Entre os casos mais recentes que detetámos, um exemplo, começa com um anúncio no feed de notícias do Google Discover. Uma foto de Cláudio Ramos com o logótipo do jornal Público apela ao clique. Abrindo a suposta “notícia”, tudo nos faz crer estar no site do Público. Só que não, olhando ao endereço url, estamos num site falso que se faz passar pelo conhecido site de notícias.

O falso artigo, ilustrado com fotos de uma suposta entrevista de Manuel Luis Goucha a Cláudio Ramos, começa com um título sensacionalista “Mentiram-nos durante anos! – Cláudio Ramos revela em direto o sistema que a elite tentou esconder.”  Abaixo, um longo texto monta a burla sobre o suposto segredo: “Em plena emissão em direto, quebrou o guião e falou abertamente: existe um sistema automático que gera rendimentos, utilizado há anos por políticos e banqueiros. Foi criado durante a pandemia com tecnologia de inteligência artificial”, acrescenta ainda que “qualquer português pode usá-lo…mas eles preferem que não saibas disso”. Na falsa entrevista, os burlões reforçam ainda com exemplos dos supostos rendimentos provenientes do “secreto” segredo, com Manuel Luis Goucha a perguntar a Cláudio Ramos: “Este ano comprou três carros e uma segunda casa no Algarve, e mesmo assim… não apresentou mais programas do que o habitual. Então, de onde vem esse dinheiro?”. 

E pronto, está montada a armadilha a quem lê. No texto, Cláudio pede 250 euros a Goucha para mostrar do que “esta tecnologia é capaz”. Passados 30 minutos, o saldo do suposto investimento de Goucha já era de 294 euros. Conclui ainda o texto falsamente atribuído a Cláudio Ramos: “Esses 250 euros podem transformar-se em 7.000… até 8.000 euros”.  

Agora, quando os burlões já deixaram quem lê com vontade de ganhar dinheiro fácil, explicam como fazer: “Tudo o que tem de fazer é registar-se através do link oficial, atender a chamada de um consultor” e “ativar a conta com o depósito inicial”. O depósito mínimo inicial, indicam, será de 250 euros. 

Como sempre, os burlões apelam ao sentido de urgência de quem lê, o truque é não deixar o utilizador pensar duas vezes e escrevem: “Tal como a gravação original do programa, este conteúdo pode desaparecer a qualquer momento devido a pressões externas”. 

Depois de conseguir os dados da vítima, o padrão dos cibercriminosos é entrar em contato telefónico ou por Whatsapp. Recorrendo a manipulação psicológica, convencem o seu alvo a “investir” mais do que o depósito mínimo que publicitam. Apresentam gráficos com o investimento a subir e supostos saldos com os falsos ganhos. O objetivo é deixar a vítima com a ideia de que o seu investimento está a crescer e a gerar ganhos. Tudo corre bem até ao dia em que a vítima vai pretender levantar o saldo do seu “investimento”.

Um esquema internacional

Este esquema não acontece apenas em Portugal. Há anos que os cibercriminosos apuram e desenvolvem este tipo de burlas. A armadilha passa por utilizar figuras públicas e prestigiadas, de forma indevida e criminosa, e copiar a imagem de sites de jornais, televisões ou outras reputadas publicações.  

Elon Musk, o futebolista francês Kylian Mbappé, o ator Ryan Reynolds, o apresentador britânico Jeremy Clarkson ou o espanhol Fernando Alonso, são apenas algumas das caras utilizadas pelos burlões a nível internacional. 

Usando caras conhecidas e meios de comunicação social reputados, para criar uma base de confiança e credibilidade junto de quem lê, aparece um suposto segredo que a figura pública divulgou “sem querer” e que permite ficar rico muito depressa! Depois, com o pretexto de investir com retornos milionários, seja em criptomoedas ou outros ativos financeiros, pedem às vítimas um depósito inicial, que, frequentemente, é de 250 euros. Com toda esta falsa capa de credibilidade, as vítimas entram na narrativa dos burlões. 

A receita da burla parece copiada a papel químico (ou um copiar e colar dos tempos digitais) onde apenas se mudam as caras e os sites. Num exemplo praticamente idêntico ao revelado acima com o Cláudio Ramos e o Manuel Luis Goucha, os burlões criaram um site falso igual ao da CTV News network do Canadá, mas com uma entrevista onde a atriz Sandra Oh revelava os detalhes de um segredo para ganhar muito dinheiro ao entrevistador Stephen Colbert.  

Além das vítimas que perdem o seu dinheiro, tratando-se mutas vezes de pessoas vulneráveis e existindo quem tenha perdido as poupanças de uma vida, também as figuras públicas e os meios de comunicação social copiados são vítimas dos criminosos. Para as figuras públicas, além de sentirem o seu nome e imagem usados para fins criminosos, é igualmente frustrante saber que pouco ou nada conseguem fazer, além de denunciar publicamente estes esquemas para alertar o público.

A dimensão impressionante das organizações criminosas

Uma investigação do SVT, o canal de TV público da Suécia, mais tarde partilhado com a organização internacional de jornalistas OCCRP - Organized Crime and Corruption Reporting Project, conseguiu aceder a uma gigantesca fuga de dados dos grupos criminosos e, em março deste ano, expôs a operação e a impressionante dimensão de duas organizações que praticavam estas burlas.  

Uma das organizações criminosas expostas operava a partir da Geórgia, o estado que integrou a União Soviética, fazendo milhares de vítimas na União Europeia, Reino Unido e Canadá. A receita total da burla terá superado os 30 milhões de euros, com o mesmo esquema onde usavam a imagem de figuras públicas de cada país e recorrendo a publicidade falsa no Google e Facebook (fake celebrity adverts). Mais de 85 agentes de call centre eram os elementos ativos na burla, persuadindo as vítimas a enviar mais e mais dinheiro para estes “investimentos” falsos. Os dados expostos revelam que esta organização criminosa, desde maio de 2022, conseguiu fazer mais de 6.000 vítimas. 

A segunda organização criminosa exposta estava baseada em Israel e na Europa. Registava uma operação ainda maior do que a georgiana, com números impressionantes de mais de 26 mil vítimas e valores superiores a 200 milhões de euros obtidos entre janeiro de 2021 e dezembro de 2024. 

Os dados a que os jornalistas conseguiram aceder revelam as chamadas dos agentes dos call centre com as vítimas. Numa das chamadas reveladas, uma médica reformada do Reino Unido - que no total terá passado mais de 55 horas ao telefone com os burlões – revelava ter usado todos os cêntimos das suas poupanças e já não ter nada. Esta vítima, que afirmava numa das chamadas já não poder sobreviver desta forma, terá perdido mais de 50.000 euros.  

Estes criminosos não revelam qualquer compaixão pelas suas vítimas, nem qualquer pudor em arruinar a vida de pessoas vulneráveis e idosas. Mensagens trocadas entre os criminosos comprovam a sua atitude fria e calculista.  

Os dados e os números que o OCCRP - Organized Crime and Corruption Reporting Project conseguiu obter nos dados destas duas organizações criminosas são impressionantes:  

  • mais de 20 mil horas de chamadas telefónicas entre os burlões e as vítimas; 
  • vítimas em 33 países; 
  • idade média das vítimas: 60 anos;  
  • cerca de 33 mil pessoas afetadas pelos burlões; 
  • maior valor obtido de uma única vítima superior a 3,5 milhões de euros; 
  • mais de 235 milhões de euros obtidos pelas duas organizações criminosas.  

Igualmente impressionante é a aparente impunidade com que estes grupos criminosos atuam. Estas organizações estão baseadas em países onde as autoridades não cooperam internacionalmente com outras autoridades judiciárias e policiais estrangeiras e, a partir daí, atacam os seus alvos em outros países. As dificuldades em chegar aos criminosos, que se refugiam atrás das fronteiras de países judicialmente inacessíveis, permitem a estes criminosos atuar, praticamente, de forma livre e impune. As elevadas capacidades tecnológicas também contribuem para que se mantenham anónimos. 

O sucesso e a impunidade destas burlas levantam muitas questões relativamente à capacidade dos governos, do setor financeiro e das empresas tecnológicas em combater estas fraudes.  

As redes sociais e publicidade

A publicidade nas redes sociais parece ter-se transformado num antro de burlas e burlões que as maiores tecnológicas do mundo parecem não estar a conseguir controlar e impedir. Os cibercriminosos parecem saber ardilosamente tirar partido das tendências do mundo digital e, mesmo onde menos se espera, atacam com os seus esquemas causando muitas vítimas e elevados prejuízos. 

O papel das big Tech nestes esquemas não pode ser ignorado. É através da publicidade que os criminosos chegam às suas vítimas e distribuem as suas “armadilhas”. A publicidade acaba por ser o oxigénio que alimenta estas burlas. Existem, portanto, ganhos financeiros por parte destas gigantes tecnológicas, como a Google, a Meta (proprietária do Facebook e do Instagram), o TikTok, o X, entre outros, com esta publicidade. 

Uma das ferramentas que as redes sociais colocam à disposição dos utilizadores é a possibilidade de denúncia de um anúncio. O problema é a resposta, muitas vezes surpreendente, com que um utilizador se depara, e que evidencia a falta de eficácia.  

A título de exemplo, ao denunciarmos à Google como falso o anúncio que utilizava a imagem do Cláudio Ramos, no caso descrito acima, recebemos a seguinte resposta: “não conseguimos rever o anúncio que denunciou. Isto pode acontecer porque o anúncio já foi removido, o link para o anúncio na sua denúncia não funciona ou ocorreram outros problemas técnicos”. 

A resposta é inaceitável. Como é que a plataforma que publicou um anúncio pode responder que não o conseguiu rever após uma denúncia? 

Uma gigante feira da ladra digital 

Fazendo uma analogia com a televisão, uma resposta com esta fundamentação por parte da TVI ou da CNN Portugal à ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, relativa a uma publicidade emitida, seria impensável. Os canais de televisão devem assegurar que a publicidade transmitida nos seus canais cumpre as disposições legais e regulamentares, nomeadamente as do Código da Publicidade e da Lei da Televisão. Durante alguns meses, os canais de televisão são ainda obrigados a manter a gravação de tudo o que emitiram, programas e publicidade. Em situações de infração, podem ser aplicadas coimas e outras sanções a anunciantes e canais de televisão 

Parecem coexistir dois mundos. Um altamente regulado e escrutinado e um outro que aparenta replicar uma gigante feira da ladra no mundo digital, onde não se encontram responsabilidades e parece imperar a lei da selva.  

Não deixa de ser surpreendente que gigantes tecnológicos, das empresas com maior valor de mercado a nível global e na linha da frente da evolução tecnológica, tenham dificuldade em lidar de forma mais eficaz com estas fraudes. Por um lado, as caras de que falamos são mais do que publicamente conhecidas e, portanto, não seria difícil a um algoritmo de reconhecimento facial emitir um alerta sobre uma publicidade que a elas recorra. Além disso, voltando ao exemplo da publicidade à burla com o Cláudio Ramos e o Manuel Luís Goucha, ao analisar os detalhes do anunciante, encontramos uma empresa com origem na Índia. Seria, no mínimo, prudente, aumentar o controlo e exigir garantias adicionais a empresas fora da União Europeia (UE) ou de jurisdições cooperantes, que pretendam anunciar num ou mais países da UE. 

Em alguns países, figuras públicas vítimas destes esquemas, em nome pessoal ou através de organizações ou reguladores, tentaram processos contra as redes sociais onde a sua imagem foi utilizada de forma fraudulenta. Este caminho, apesar de encontrar enquadramentos jurídicos distintos, parece ser uma das formas de chamar a atenção destas gigantes para a necessidade de agir.  

Para as próprias redes sociais e plataformas tecnológicas, esta situação começa a minar a confiança dos utilizadores na publicidade que lhes é servida nestes meios. O mesmo desconforto será expectável para anunciantes, de produtos e marcas, que não querem ver-se rodeados de anunciantes fraudulentos.  

Na frente regulatória, segundo o Financial Times, a Comissão Europeia tem recebido pressões de vários estados membros para obrigar as plataformas de social media a controlar a publicidade fraudulenta. A iniciativa, liderada pela Irlanda, tem por objetivo obrigar as plataformas a verificar a legitimidade dos anunciantes antes de publicarem anúncios. Esta iniciativa chega numa altura em que o presidente dos EUA, Donald Trump, pressiona Bruxelas a recuar na regulação sobre as gigantes tecnológicas americanas. 

Defenda-se dos burlões 

Agora que conhece os detalhes do esquema, defenda-se dos burlões. Ficam algumas dicas que podem ajudar a evitar ser vítima destas burlas: 

  • Não partilhe dados pessoais ou aceite conselhos de investimento que lhe chegam de redes sociais e afins. Não acredite em esquemas fáceis e muito rápidos de ganhar dinheiro. 
  • Não se sinta pressionado a investir. Já sabe que os cibercriminosos vão apelar à urgência da oportunidade.  
  • Questione-se. Use o seu sentido crítico para avaliar se sabe realmente em que está a investir. 
  • Procure mais informações sobre a entidade que promove o investimento junto das autoridades, como a CMVM ou o Banco de Portugal. 
  • Lembre-se que os burlões podem criar notícias que parecem verdadeiras, em sites que parecem credíveis e usando caras conhecidas. 
  • Pesquise se existe alguma referência da figura pública a esse investimento. 
  • Se sentir que foi enganado e partilhou informações financeiras ou mesmo se enviou dinheiro, contate imediatamente o seu banco. Lembre-se que os burlões farão tudo para o manipular, podendo mesmo mostrar-lhe ganhos e saldos fictícios. Em alguns casos, poderão mesmo transferir-lhe pequenas quantias para ganhar a sua confiança. 

 

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