Marta sofreu em silêncio durante sete anos: “O bullying não me definiu e ao mesmo tempo é uma peça do meu puzzle”

20 out, 08:00
Marta Curto

Trinta anos depois, a escritora Marta Curto coloca agora o seu ofício, a escrita, ao serviço da prevenção e da sensibilização contra o bullying. No Dia Mundial de Combate ao Bullying, em entrevista à CNN Portugal, alerta que “o bullying é contagioso para os dois lados”. E mostra como impedir que a agressão defina a vítima e como a cura pode, de facto, estar na escrita

Marta tinha sete anos e frequentava uma escola privada, “cara e renomada”. Tinha tudo para ser uma criança feliz e, no entanto, passava os recreios sozinha, habituou-se a essa solidão e arranjou subterfúgios para lhe sobreviver. A solidão era, ao mesmo tempo, uma estratégia para escapar ao bullying de que foi alvo até aos 14 anos.

“Eu era uma criança tímida, envergonhada e introvertida. Era facilmente um elo mais fraco que não respondia. Na minha altura, o bullying era visto como algo 'normal' entre os miúdos, algo que fazia parte da sua dinâmica de crescimento. Eu não me queixei, nunca denunciei. Os meus pais não souberam, nem os professores”, conta, em entrevista à CNN Portugal.

As agressões só terminaram quando se rodeou de amigos. Quando criou “muralhas”, “o bully deixou de ter espaço" até si.

Marta licenciou-se em Comunicação, tornou-se jornalista. Ganhou prémios. Construiu uma carreira como freelancer, até se dedicar à escrita criativa. A mesma escrita que sempre usou como terapia e que agora mostra como pode ser terapia também para outras vítimas. Em parceria com a No Bully Portugal, escreveu o livro “O Bullying Termina Aqui! O Teu Diário de Superação”.

Livro de Marta Curto deixa espaço para que os jovens escrevam as suas reflexões sobre os temas propostos

A obra não é para uma simples leitura: convida à reflexão, à terapia, à empatia. O livro só termina com o contributo escrito de quem o lê. Afinal, cada um tem o poder de escrever o fim da sua própria história. Para que, no futuro, todas as vítimas e bullies possam, como Marta Curto, dizer: “O bullying não me definiu. Eu é que me defini.”

CNN Portugal - Em que circunstâncias surge este livro e o que pretende com a sua publicação?

Marta Curto - O grande objetivo deste livro é resgatar, através da escrita, jovens alvo de bullying. E quando eu digo resgatar é porque, muitas vezes, são jovens que não falam, não denunciam a situação, não se queixam. Vivem aquilo tudo encarcerados dentro deles próprios, com vergonha de falar no assunto. Este livro permite-lhes terem voz e, com essa voz, conseguirem ver a situação à distância, do lado de fora. É sempre mais fácil e o discernimento é outro.

É um livro escrito a várias mãos. Não só porque o faz em parceria com a associação No Bully Portugal, mas porque é um livro incompleto, para ser escrito por cada um dos leitores. Quer explicar-nos como funciona e os objetivos desta particularidade do livro?

Este livro foi criado com base na escrita terapêutica. Ou seja, eu pedi à No Bully Portugal e em particular aos seus profissionais a nível da psicologia e da educação que traçassem um processo terapêutico sobre o qual criei exercícios de escrita.

É um diário, com exercícios quase todos os dias, que prevê acompanhar os jovens a partir dos 12 anos, durante 19 semanas. E durante este tempo, o grande objetivo é o jovem começar a perceber que tem valor, uma rede de apoio (não está sozinho/a), que o bully é uma pessoa real e a vida é mais do que a escola.

Para mim, o grande objetivo é mostrar aqueles miúdos que o bullying não os define. Não é porque alguém diz que são feios, gordos, burros, que cheiram mal ou bem, que isso é real ou sequer que vai influenciar o seu futuro. 

Viveu o bullying na pele. Quer contar-nos um pouco da sua história?

Eu era uma criança tímida, envergonhada e introvertida. Era facilmente um elo mais fraco que não respondia. Na minha altura, o bullying era visto como algo “normal” entre os miúdos, algo que fazia parte da sua dinâmica de crescimento. Eu não me queixei, nunca denunciei. Os meus pais não souberam, nem os professores. Sofri bullying dos sete aos 14 e terminou quando comecei a ter uma comunidade de amigos e o bully deixou de ter espaço até mim.

Foi vítima de um colega de escola. Já falaram depois dessa idade e desses anos em que sofreu em silêncio?

Há uns meses ele veio falar comigo, pedir-me desculpa. Contou-me que também ele estava a passar um mau bocado, de negligência em casa. Acho que ele precisava de me pedir desculpa para se desculpar a ele próprio. Eu não tinha nada a desculpar. Sabia que ele era gente, sabia que ele não era uma máquina, que também ele devia ter tido os seus desafios. Sempre soube disso, pelo menos a partir do momento em que cheguei à idade adulta. Eu não precisava do pedido de desculpas dele. Suponho que talvez ele precisasse do meu.

Marta usou a escrita como uma espécie de terapia, para lidar com o bullying e com a solidão. 

O que eu sinto é que estivemos os dois na mesma ilha solitária, mas cada um do seu lado.

Diz no livro que o bullying é uma doença e que ninguém se quer aproximar de nós por medo de contágio. É-se duplamente vítima de bullying (pelos bullies e pela solidão e ostracização que ele acarreta)?

O bullying é contagioso para os dois lados. Se temos amigos que não sofrem de bullying, também aí somos contagiados, e o bully deixa de chegar a nós. Ele só o faz porque pode. Se temos “muralhas” de proteção, ele afasta-se.

Tem tudo a ver com comunidade. E por isso é que eu me identifiquei tanto com a forma de trabalhar da No Bully, porque eles fazem um trabalho integral, sensibilizam várias frentes.

No meu caso pessoal, a exclusão foi algo que me custou bastante. O não fazer parte de nenhum grupo, não ter amigos. É uma idade importante em que a validação do outro também nos permite entender melhor o nosso papel no mundo, aquele que nos dão e o que nós queremos ter.

No meu caso, eu passei, durante bastante tempo, todos os recreios sozinha. Era duro, confesso, mas o ser humano habitua-se a tudo e arranja subterfúgios para tudo. No meu caso, foi a escrita e a imaginação. Eu desenvolvi todo um mundo interior e uma grande capacidade de observação do outro.

É um ciclo vicioso… Os bullies também se aproveitam dessa solidão das vítimas para as maltratar?

Sim, claro. O bully não é uma pessoa propriamente corajosa ou empática. Ele faz aquilo para parecer forte e divertido aos olhos dos outros. Para se validar.

Ora se os outros não o acharem nem forte nem divertido – por estar a fazer bullying a uma pessoa da comunidade – o bullying deixa de fazer sentido. E até funciona no sentido inverso. O bully que quer parecer forte e divertido parece parvo e bruto.

Aliás, o bullying acontece mais em grupo. E isso era algo que eu observava muito.

Que efeitos teve o bullying que sofreu na infância e na adolescência na formação da pessoa que é hoje?

Eu acho que todos temos dores na vida. E isso é normal. Porque somos gente e estamos rodeados de gente. E as pessoas não se comportam sempre como nós gostaríamos e isso causa-nos desilusões, tristezas e dores. A questão é o que fazer com estas dores?

O bullying trouxe-me empatia, um maior conhecimento do outro. Colocou a escrita e a imaginação num pedestal. Tornou-me determinada e focada no que quero. O bullying não me definiu e ao mesmo tempo é uma peça do meu puzzle. Não é a única, mas é uma delas que eu honro e respeito e agradeço por ter existido. Eu não era quem sou hoje se não tivesse passado por aqueles anos. Poderiam ter sido menos solitários? Poderiam ter formado uma pessoa mais feliz? Bom, nunca saberemos, não é verdade? Aqueles anos foram solitários, mas esta pessoa é feliz. Concretizei os meus sonhos todos, na verdade. Escrevo livros, sou casada, tenho um filho, já vivi em três países. O bullying não me definiu. Eu é que me defini.

Há mitos em torno do bullying que é preciso desconstruir?

Sim, que a culpa é da escola que não policia comportamentos. Que os jovens alvo de bullying são filhos de pais negligentes. Que isto é normal e sempre existiu. Que os bullies são más pessoas.

A escola não pode estar em todo o lado e o bullying acontece em todo o lado. Deve, claro, passar princípios de respeito pelo outro e conduta cívica, mas não pode ser a única responsabilizada por episódios de bullying que aconteçam dentro do recinto.

Os pais devem dar bases de diálogo e autoconfiança aos seus filhos, mostrar-lhes que devem denunciar as situações, que não têm culpa e que não são nada daquilo. Protegê-los demais também não é solução, senão os jovens sentem que não conseguem defender-se sozinhos.

O bully é um jovem que precisa de ser ouvido, que precisa de perceber que a sua validação e aceitação pelos outros não depende da sua capacidade de domínio. O bully tem de perceber que ele é muito mais do que isso.

Que papel tem então a escola no combate e na prevenção do bullying?

A escola não tem o papel de educar crianças. Claro que deve estar atenta, deve encaminhar as crianças que achar que precisam desse apoio para uma consulta de psicologia, deve disseminar regulamente valores de respeito pelo outro, empatia e civismo. Mas não pode ser a única responsável. Pode centralizar os esforços porque tem a possibilidade de ver e controlar o que se passa, mas não pode resolver tudo o que está na origem destes problemas.

Responsabilizar a escola é o mesmo que lavar as mãos. Não pode ser. Todos devem ser responsabilizados e sensibilizados. A criança alvo, o bully, os respetivos pais, a escola, os professores, os pares…

Há falta de segurança e de controlo nos estabelecimentos escolares e isso potencia o bullying?

Não tenho conhecimentos para falar nisso. Eu estudei numa escola privada há 30 anos. Era uma escola cara e renomada. E aconteceu na mesma.

Como olha para o bullying agora, com a proliferação das redes sociais e com a rapidez com que uma informação se dissemina?

Isso sim, mete-me medo. A vergonha da humilhação deixou de passar por um corredor, por uma sala de aulas, por um campo de futebol. De repente, o potencial deste episódio deixa de ser pontual e circunstancial, e passa a ser público, para o mundo inteiro ver. Se o vídeo for viral pode ser visto por milhares de pessoas. Deve ser muito difícil lidar com isso.

Que mensagem deixa agora para crianças e jovens que possam estar a ser vítimas de bullying?

Que não merecem aquilo. Que não estão sozinhas. Que o bullying não lhes diz quem são e como será a sua vida. Que devem erguer a cabeça. E podem começar a fazer isso sozinhos no seu quarto, à frente de um espelho. Que o nosso livro vai ajudar. E, pouco a pouco, vão tomar decisões. E isso vai ser o início.

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