Por agora, os diplomatas europeus não parecem preocupados com a eleição de Rumen Radev, que em janeiro abdicou da presidência da Bulgária para se candidatar ao cargo de primeiro-ministro. Mas com a vitória do seu partido no domingo, uma semana depois de os húngaros terem expulsado Viktor Orbán do poder, passa a haver outro Estado-membro com um governo que é visto como mais pró-Putin do que pró-Bruxelas
Foram oito eleições legislativas em cinco anos e, com a contagem de votos praticamente concluída, está confirmada a eleição de Rumen Radev, de 62 anos, como o próximo primeiro-ministro da Bulgária, com uma vitória a que o país não assistia há quase 30 anos.
“Esta é uma vitória da esperança sobre a desconfiança, uma vitória da liberdade sobre o medo e, finalmente, se quiserem, uma vitória da moralidade”, declarou o ex-piloto da Força Aérea tornado político, ainda na noite de domingo, quando sondagens à boca das urnas já apontavam para a vitória do seu partido Bulgária Progressiva (BP).
Os resultados são estrondosos: na segunda-feira, com 97% dos votos contabilizados, o BP de Radev surgia com 44,7% dos votos – o correspondente a cerca de 130 dos 240 assentos parlamentares – bem distante do segundo partido mais votado, o GERB, que domina a política búlgara há anos, liderado pelo primeiro-ministro de saída, Boyko Borissov, com 13,4%, e da coligação pró-UE Continuamos a Mudança - Bulgária Democrática (PP-DB), com 12,8%.
Num país de cerca de 6,6 milhões de habitantes, com um sistema político em tudo semelhante ao de Portugal, Radev tinha renunciado à presidência em janeiro para poder candidatar-se às legislativas, depois de protestos em massa terem forçado a saída do anterior governo em dezembro, na altura em que a Bulgária se preparava para adotar o euro como moeda oficial.
Alguns dizem que essa foi a gota que fez transbordar o copo do europeísmo no país, levando uma maioria qualificada dos eleitores, fartos da corrupção e dos ditos partidos tradicionais, a votar no candidato eurocético que se opõe a mais integração e aos esforços de apoio militar e financeiro da União Europeia (UE) à Ucrânia.
“Existe agora uma oportunidade para que as mudanças que as pessoas esperavam ver se tornem realmente visíveis”, dizia, domingo, à Reuters, Evelina Koleva, gestora de uma empresa de marketing digital em Sófia, a capital da Bulgária, que votou em Radev. É a primeira vez desde 1997 que um só partido alcança uma maioria desta magnitude no país.
No seu discurso de vitória, o primeiro-ministro eleito prometeu envidar “todos os esforços para [a Bulgária] seguir o seu caminho europeu”, antes de contrapor: “Uma Bulgária forte e uma Europa forte precisam de pensamento crítico e pragmatismo. A Europa foi vítima da sua própria ambição de ser um líder moral num mundo com novas regras.”
Foi um eco de discursos e posições passadas, depois de, durante a campanha, e até enquanto presidente da Bulgária, no cargo entre 2017 e o início deste ano, Rumen Radev ter pautado os elogios aos benefícios da adesão da Bulgária à UE, há quase 20 anos, com duras críticas a várias políticas do bloco.
Ainda antes de renunciar à presidência, chegou a apelar a que a adesão à Zona Euro em janeiro deste ano fosse levada a referendo – mas sem sucesso. Como referiu no final de 2025 uma jornalista sediada em Sófia, após a representação da Comissão Europeia na capital ter sido vandalizada por “pessoas pró-Kremlin” que eram contra a adesão ao euro: “O lev [antiga moeda búlgara] está a ser feito refém por estas pessoas.”
"Relações práticas com a Rússia"
Não escapou aos mais atentos o facto de a vitória de Radev ter acontecido exatamente uma semana depois de Viktor Orbán ter sido destronado nas urnas depois de 16 anos consecutivos no poder na Hungria. Há quem destaque, contudo, o facto de o primeiro-ministro eleito na Bulgária se ter comprometido a não utilizar o veto do país para bloquear futuras decisões da UE, algo que nunca aconteceu com a Hungria de Orbán.
Radev negou sempre e de forma consistente que esteja alinhado com a Rússia de Vladimir Putin, tendo apoiado a adesão da Bulgária à UE em 2007 e mantendo-se deliberadamente vago no que toca à política externa. Ainda assim, durante a campanha, o chefe de governo eleito fez questão de prometer o restabelecimento do livre fluxo de petróleo e gás russos para a Europa e a melhoria das “relações práticas com a Rússia, com base no respeito mútuo e na igualdade de tratamento”, uma postura que lhe valeu uma reação positiva de Moscovo.
“Ficamos naturalmente encorajados pelas palavras do sr. Radev, bem como pelas de alguns outros líderes europeus, relativamente à sua disponibilidade para resolver questões através do diálogo”, disse Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, esta segunda-feira.
Numa mensagem que alguns encararam como sendo destinada a acalmar as preocupações quanto a uma possível aproximação da Bulgária à Rússia caso Radev fosse eleito, um dos seus colaboradores mais próximos, Slavi Vassilev, tinha dito na semana passada que os búlgaros “não querem laços mais estreitos com a Rússia, mas sim [...] a continuação da participação ativa na NATO e na UE”.
Essa “ambiguidade estratégica” em relação quer a Moscovo quer a Bruxelas pode ter contribuído para o melhor resultado de sempre de um partido búlgaro desde 1997, com o BP de Radev a roubar votos quer ao Revival, o partido de extrema-direita, que conquistou apenas 4% dos votos, quer ao GERB, que alcançou o seu pior resultado de sempre.
Ouvidos pelo Guardian, diplomatas europeus dizem que é improvável que Radev procure substituir Orbán enquanto líder de um governo europeu pró-Moscovo e anti-Bruxelas – algo que o analista Cas Mudde, um cientista política neerlandês que estuda a extrema-direita, nacionalismo e populismo há várias décadas, já tinha ressaltado após a derrota de Orbán, ao referir que não existem, neste momento, líderes europeus com o mesmo peso e relevância que possam tomar o seu lugar.
Ainda assim, Rumen Radev não esconde a sua intenção de transformar a Bulgária numa ponte entre a Europa e a Rússia, com quem “mais cedo ou mais tarde” Bruxelas e as capitais europeias terão de retomar relações, apesar da invasão em larga escala da Ucrânia e da não disponibilidade de Moscovo para abdicar de uma parte do território.
“A Bulgária encontra-se numa posição única, porque somos o único Estado-membro que é simultaneamente eslavo e ortodoxo de leste”, disse Radev recentemente. “Isso deve ser aproveitado e podemos realmente ser um elo muito importante em todo este processo, que estou certo que, mais cedo ou mais tarde, terá início, para restabelecer as relações com a Rússia.”
“Um líder pró-Kremlin a governar um Estado-membro da NATO e da UE no Mar Negro, poucos dias depois de a Hungria ter rejeitado Orbán, é uma má notícia para a UE e para a Ucrânia”, sublinhava ontem Dimitar Keranov, búlgaro que investiga questões de resiliência europeia no German Marshall Fund. E apesar de todas as promessas, sem uma supermaioria, Radev terá dificuldades em encetar reformas para responder às preocupações do eleitorado com a corrupção – para isso, precisaria de pelo menos 160 assentos parlamentares. “O sistema corrupto permanece”, adianta Keranov – e embora “a mera perspetiva de estabilidade seja significativa, não é sinónimo de reforma”.