Os BTS catapultaram o K-pop para o estrelato global. Quase quatro anos depois, estão de volta

CNN , Jessie Yeung, Yoonjung Seo e Gawon Bae
17 jan, 19:00
K-pop: os BTS nos Grammy Awards em Las Vegas, Nevada, em 3 de abril de 2022. Jeff Kravitz/FilmMagic/Getty Images

Eles estão de volta. E em força

Quando o maior grupo de K-pop [abreviatura de Korean Pop, ou música pop sul-coreana] do mundo anunciou uma pausa no final de 2022, eles estavam no auge da fama: lideravam com regularidade os tops musicais, ganhavam prémios de prestígio e, não havia dúvida, tinham já transformado o género musical num fenómeno cultural global.

Agora, os BTS estão de volta — e podem chegar um dia destes a uma cidade mais ou menos perto de si. À meia-noite da última quarta-feira em Seul, o grupo anunciou as datas e locais de uma digressão mundial muito aguardada, com o lançamento do seu novo álbum previsto para março — o primeiro da banda em quase quatro anos.

Naquela que será a sua maior tournée até agora, os BTS estarão em 34 regiões, começando em abril com vários concertos em Goyang, Coreia do Sul, e Tóquio, Japão, antes de viajar para outras cidades na Ásia, América do Norte, Europa, América do Sul e Austrália. A digressão está atualmente programada para terminar em Manila, nas Filipinas, em março de 2027, embora uma mensagem no site da banda tenha dito que serão anunciadas mais datas no Japão, no Médio Oriente "e mais".

Os fãs dos BTS, conhecidos como ARMY*, aguardavam ansiosamente o regresso dos seus ídolos desde que o último dos seus membros completou o serviço militar obrigatório no ano passado – embora a rapidez do anúncio tenha sido uma surpresa bem-vinda para alguns.

"É como se os deuses estivessem a descer do Monte Olimpo", disse Carla Nicholson, uma fã de San Diego, EUA, que atualmente estuda em Seul e visitou uma instalação promocional do BTS na capital sul-coreana na semana passada. Quando o álbum for lançado, garante, ela planeia alugar um cinema inteiro para assistir aos videoclipes com os seus amigos.

Outra fã, Jing Lee, de Taiwan, disse que quando soube do retorno iminente do grupo, não conseguiu dormir durante duas noites, "porque estava muito agitada, mas também com medo de não conseguir um bilhete”.

“Eu dediquei os meus três desejos de aniversário aos BTS, na esperança de conseguir pelo menos uma entrada para o espetáculo”, afirmou – acrescentando que está pronta para viajar para os EUA se o grupo se apresentar lá. "Vou segui-los para onde quer que eles vão."

Os fãs também analisaram minuciosamente uma imagem enigmática divulgada pela banda, que mostra três círculos vermelhos — com teorias sobre o seu significado que vão desde "olá" até aos símbolos da bandeira sul-coreana.

 

 

Mas o grupo está a regressar a um cenário muito diferente daquele que deixou. O K-pop já não é uma novidade, com a “onda coreana”, também conhecida como Hallyu, a levar as exportações culturais do país a todos os cantos do mundo. Além disso, no último ano, a indústria foi abalada por uma batalha judicial de grande visibilidade envolvendo a Hybe, empresa-mãe do BTS.

"O desafio não é apenas a exposição, é sobre como se destacar realmente e também ganhar a confiança dos fãs globais", diz Ray Seol, professor associado da Berklee College of Music em Boston, que investiga o K-pop. "Agora, é um jogo bem diferente."

Ascensão ao estrelato global

Quando os BTS se estrearam, em 2013, o K-pop já era popular em toda a Ásia, mas tinha feito apenas progressos limitados na conquista dos mercados ocidentais.

Isso começou a mudar com o grande sucesso de Psy em 2012, "Gangnam Style", cuja popularidade viral foi precursora do que estava por vir.

Nos anos seguintes, os BTS alcançaram reconhecimento global, com a sua chegada à cultura pop americana a ser aclamada como um grande avanço para o género. Eles foram o primeiro grupo de K-pop a ganhar um Billboard Music Award em 2017, a apresentarem-se no “Saturday Night Live” em 2018 e a receberem uma indicação ao Grammy em 2020.

Os membros dos BTS num evento na Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque, em 20 de setembro de 2021. John Angelillo/Getty Images

Especialistas dizem que vários fatores contribuíram para o seu sucesso estrondoso. É claro que há a música cativante e a coreografia detalhada, mas também a composição inovadora que abordou questões sociais e uma presença ativa nas redes sociais que os diferenciou de outros grupos de K-pop e atraiu uma base de fãs internacional.

Mas essa jornada foi interrompida quando os membros — conhecidos pelos seus nomes artísticos V, Jin, Jimin, RM, J-Hope, Suga e Jung Kook — começaram o serviço militar.

Na Coreia do Sul, todos os homens fisicamente aptos entre 18 e 28 anos são obrigados por lei a cumprir 18 a 21 meses de serviço militar sob um sistema de recrutamento obrigatório.

O grupo já havia conseguido adiar o serviço militar uma vez, graças à aprovação pelo parlamento sul-coreano de um projeto de lei que permite que grandes estrelas pop adiem o serviço até os 30 anos. Mas esse prazo chegou em 2022 para o membro mais velho, Jin, e os outros logo seguiram o mesmo caminho.

Todos os sete terminaram o serviço militar em 2025 e começaram a compor novas músicas logo em seguida, embora cada membro também tenha lançado trabalhos solo durante os anos de hiato.

“Acho que não houve um único mês em que os membros não tivessem alguma atividade”, explica Grace Kao, professora de sociologia da IBM na Universidade de Yale, que estuda K-pop e Hallyu. A académica destaca o facto de alguns membros terem feito digressões a solo antes ou depois do alistamento, ou trabalhado em programas de TV sobre as suas jornadas individuais.

Indústria em evolução

No entanto, muita coisa mudou de 2022 até agora.

Por um lado, a Coreia do Sul consolidou-se como uma potência cultural – a fonte da K-beauty, K-pop, K-dramas e muito mais. O que antes era novo e estranho para o público ocidental agora é amplamente apreciado – pense no filme “Guerreiras do K-Pop/KPop Demon Hunters”, do ano passado, que se tornou o filme mais visto de todos os tempos na Netflix.

Ray Seol, que leciona um curso sobre K-pop na Universidade de Berklee, diz que a cada semestre as suas salas de aula ficam "cheias de alunos não coreanos" curiosos sobre a indústria. Ao caminhar pelo seu bairro nos subúrbios de Boston, ele ouve crianças a cantarem músicas de "Guerreiras do K-Pop" — a banda sonora dominou os tops da Billboard durante semanas, com uma música a ganhar um Critics' Choice Award e um Globo de Ouro de Melhor Canção Original.

"Em 2022, quando os BTS interromperam as suas atividades como grupo, o K-pop ainda estava em fase de expansão global", explica Seol. "Agora, a situação é diferente. Mega-sucessos como 'KPop Demon Hunters' mostraram de facto o quanto a cultura K-pop se tornou parte do mainstream global."

Isso também é evidente no facto de outros grupos terem batido alguns dos recordes anteriormente detidos pelo BTS, considera Kao — casos de SEVENTEEEN e Stray Kids.

 

O género em si também se tornou global – na linguagem, nacionalidade e estilo.

Veja-se o caso dos Katseye, um grupo sediado em Los Angeles que se autodenomina "o primeiro grupo feminino global formado usando metodologias de desenvolvimento de artistas de K-pop". Criado através de uma série de competição de reality show parcialmente produzida pela Hybe, os seus membros são provenientes de quatro países diferentes e frequentemente incorporam as suas respectivas línguas nas suas canções – uma abordagem multicultural que pode sugerir o futuro do K-pop.

Também é cada vez mais comum que estrelas coreanas colaborem com artistas fora do seu género. Por exemplo, a canção de sucesso de 2024 "APT" foi uma colaboração entre Bruno Mars e Rosé, do popular grupo feminino Blackpink.

Ao mesmo tempo, a indústria do K-pop enfrentou os seus próprios desafios — refletidos na batalha judicial entre o grupo feminino NewJeans e a sua editora Ador, uma subsidiária da Hybe, que abalou o mundo do entretenimento no ano passado. A controvérsia levantou questões sobre o grau de autonomia limitada dos artistas sob as grandes editoras.

Muitos fãs, assim como investidores assustados, estão "ansiosos para ver como os BTS podem realmente redefinir a indústria. Tem sido bastante barulhento, especialmente o que a Hybe tem enfrentado", afirma Seol. Para o bem da sua estabilidade financeira, "a Hybe tem que fazer algo, e os BTS podem ser a resposta", acrescenta.

 

COREIA DO SUL - 22 DE NOVEMBRO: (APENAS PARA USO EDITORIAL; NÃO PERMITE CAPAS DE LIVROS.) Nesta imagem divulgada em 22 de novembro, J-Hope, Suga, V, Jimin, Jin, Jungkook e RM do BTS apresentam-se no palco do American Music Awards 2020 em 22 de novembro de 2020 na Coreia do Sul. (Foto de Big Hit Entertainment/AMA2020/Getty Images via Getty Images) AMA2020/Getty Images/Arquivo

Além das mudanças na indústria, os membros do grupo também mudaram. Eles estão agora na casa dos 30 anos e são vistos como "homens atraentes", em vez de ídolos adolescentes. E, acrescenta Kao, os seus fãs também estão agora mais velhos – "mas isso também significa que eles têm mais dinheiro para gastar".

Os novos fãs de K-pop podem estar menos familiarizados com eles, mas "nenhum grupo de K-pop consegue superar as suas vendas em termos de concertos", declara. "Muitos dos maiores grupos de K-pop às vezes não conseguem esgotar todos os seus espectáculos nos EUA, mas os BTS não terão problemas em fazer isso".

Seol concorda, dizendo que os BTS têm a vantagem distinta de terem sido os primeiros a transformar a indústria — um impacto que elevou o seu estatuto, longevidade e influência, apesar da sua longa pausa.

"Acho que eles estão a voltar mais fortes e mais relevantes", diz Seol. "Os BTS não são apenas um grupo normal de K-pop. Eles são realmente o motor da própria indústria."

 

N.T.: A comunidade de fãs dos BTS chama-se ARMY, palavra que em inglês significa "exército" e que neste caso é um acrónimo para "Adorable Representative M.C. for Youth“, ou "Adorável Representante M.C. para a Juventude", sendo que M.C. remete para rappers e artistas de hip-hop. Já BTS, a banda, tem como nome completo "Bangtan Sonyeondan" (que significa "Escoteiros à Prova de Bala").

Música

Mais Música