Romance de estreia de Bruna Dantas Lobato parte da sua própria experiência para contar a história de uma jovem brasileira que aos 18 anos se muda para os Estados Unidos para estudar literatura,
Uma jovem brasileira emigrante nos Estados Unidos mantém ligação com a mãe pelo computador e é dessas conversas que nasce “Horas azuis”, uma narrativa que vive num intervalo suspenso de luz azul, onde mãe e filha ludibriam a solidão.
Autobiográfico, contido e fragmentado, o romance de estreia de Bruna Dantas Lobato parte da sua própria experiência para contar a história de uma jovem brasileira que aos 18 anos se muda para os Estados Unidos para estudar literatura, e que mantém ligação com a mãe, que ficou no Rio Grande do Norte, através de conversas por computador.
“Eu escrevi uma cena pequenininha. Era a cena em que a mãe e a filha estão numa chamada de vídeo e a filha mostra para mãe que está nevando lá fora, mas quando ela vira a tela é meio que inundada pela luz e não dá para ver direito. E eu escrevi essa cena pequenininha e meio que abandonei. Pensei que não ia para canto nenhum, mas ao mesmo tempo eu estava procurando por esse livro ideal que eu queria ler”, contou a autora, em entrevista à agência Lusa, durante uma passagem por Lisboa, para lançar “Horas azuis”, editado em Portugal pela Companhia das Letras.
Bruna Lobato percebeu que faltava um romance que refletisse a experiência contemporânea do migrante, mediada pelos monitores e banhada pela luz azul, capazes de desvanecer fronteiras e unir pessoas separadas por países diferentes, permitindo-lhes a sensação de estarem em dois sítios ao mesmo tempo.
Então, de vez em quando, voltava a esse documento que tinha abandonado e escrevia mais um bocadinho, até que ao fim de dois anos percebeu que podia ser um romance.
“Horas azuis” transporta o leitor para o interior de um campus universitário, onde uma jovem reservada e introspetiva se vai adaptando a uma rotina de leitura de livros e longas sessões de estudo, com pequenos intervalos preenchidos pelas poucas amizades que faz e pelas longas conversas com mãe, nas quais procuram saber uma da outra, escondendo a solidão que sentem.
E azul é a cor que fica dessa leitura, não só por estar expressa na capa do livro e no título, mas também porque é essa a tonalidade do espaço que mãe e filha ocupam - início da noite e madrugada -, quando se encontram para conversar no computador, permeadas pela também luz azulada do monitor e do ‘abajour’ do candeeiro no quarto da jovem narradora.
“Para mim tem esse momento de silêncio à noite antes do dia amanhecer, antes de todo mundo acordar, que é talvez um momento em que a solidão também é bem positiva (…). Ela está feliz com os livros dela, está feliz estudando. Faz sentido a vida dela ali. Mas é também aquele momento de maior escuridão antes da luz surgir”, em que “você está sozinho no mundo e está tentando desbravar o seu próprio caminho”, explicou.
O azul dos computadores “é o que aproxima as duas e mantém o elo entre elas conectado, mas é também a evidência da distância enorme” que as separa.
“Elas estão conversando através de um aparelho eletrónico, a voz travada, um vidro entre elas, aquela coisa fria, então, até o azul do brilho da tela tem esse sentido duplo”.
Essa relação entre mãe e filha, que é o eixo central da história, nasceu da vontade de explorar laços familiares “com ternura, com paciência, sem os ressentimentos que", para a autora, "já são o clichê de sempre, e também de ver a imigração no contexto contemporâneo, através da internet”.
De um lado o sol e o calor, do outro a luz minguante e o frio crescente, dois países e duas solidões encontram-se assim naquele território neutro, através de conversas corriqueiras sobre o dia-a-dia, que procuram fazer parecer as vidas mais interessantes do que realmente são, mas em que os silêncios são quem mais fala, sobre ausência, saudade, preocupação, afeto e principalmente sobre o que é calado porque não pode ser dito.
A estrutura fragmentária do romance, que espelha a dificuldade de comunicação, foi surgindo gradualmente à medida que Bruna Dantas Lobato procurava traduzir “a solidão opressiva”, que para ela é a “realidade de migrante”, distante de narrativas heroicas ou acontecimentos grandiosos, quando “muitas vezes são só dias muito longos, muito solitários”.
A autora quis construir um livro sustentado pelo quotidiano e pelas conversas entre mãe e filha, integrando esses diálogos na própria estrutura da obra e testando se seria possível erguer um romance a partir desse “vocabulário compartilhado” e dessa “intimidade, mesmo que seja intimidade digital”.
Foi nesse processo que percebeu tratar-se de “um romance de formação duplo, que não era só sobre a filha e a solidão da filha, não era só sobre quem vai, mas era também sobre quem fica”, e que a mãe precisava desse espaço central inesperado para se descobrir “como uma mulher adulta que está se vendo sozinha pela primeira vez”.
O silêncio está presente intencionalmente na obra, como “linguagem” e “parte do cenário”, porque “faz parte da vida, da textura do dia-a-dia dessa personagem. Mas silêncio, ausência, essas coisas são muito difíceis de escrever”.
Se o romance “é sobre a ausência dela, isso tem como existir na página? O silêncio era um pouco assim, as pausas entre as frases delas nos diálogos, os momentos em que não têm nada mais para dizer, os momentos em que elas se delongam, um momento que dura mais do que deveria durar, isso tudo acho que faz parte das nuances da comunicação” e também demonstra como o “relacionamento está mudando à medida que esses silêncios vão mudando”.
“Às vezes é um silêncio divertido e confortável, às vezes é um silêncio mais tenso. E é nesses momentos de aproximação e também de afastamento entre as duas, que elas sentem que a intimidade está se esvaindo um pouco”.
Apesar de a raiz do livro ser autobiográfica, Bruna Lobato inspirou-se também em experiências de amigos que viveram situações semelhantes, mas recorreu à ficção para alcançar uma “verdade emocional mais profunda”, por exemplo, tornou a protagonista filha única para reforçar a ideia de que mãe e filha só têm uma à outra, embora na vida real tenha uma irmã.
Essas escolhas narrativas serviram para intensificar o efeito pretendido e dar coerência à verdade que queria captar.
Há também uma relação entre tempo e memória que é central na narrativa, porque à autora interessou explorar tanto a fidelidade quanto a distorção que resultam dessa relação.
“A personagem quer a memória pura, perfeita. Mas aí (…) você tem um dia que não foi muito bom, daí de repente está mais distorcido, e ela quer trazer de volta aquela fidelidade (…) É como se elas estivessem deslocadas, estão mais distante do lugar onde deveriam estar, e tentam resgatar” essa memória intacta.
“A memória não é estável, a memória não é fixa e fica sempre mudando, mas eu acho que para quem mora longe tem um pouco de urgência para deixar a memória intacta, e eu acho que é natural, bem humano, querer isso”, disse.
“Horas azuis” foi originalmente escrito em inglês e publicado nos Estados Unidos e só depois traduzido, pela própria para português e publicado no Brasil.
A viver nos Estados Unidos há 15 anos, Bruna Dantas Lobato é professora universitária e tradutora, tendo traduzido já diversas obras de português para inglês, uma delas o romance “A palavra que resta”, de Stênio Gardel, que lhe valeu o National Book Award, tornando-se assim a primeira tradutora de língua portuguesa a ser distinguida com este galardão.
“O inglês meio que tinha me tomado. E de tal modo que eu escrevi o romance em inglês, que o inglês era o meu idioma dominante”, afirmou, recordando que traduzi-lo para português foi uma oportunidade de “voltar para casa”, ao mesmo tempo que exigiu uma reinvenção da própria voz literária, para no fim descobrir que o seu português esteve sempre lá e que “só precisava de ter um pouco de espaço para vir à tona”.
Para a escritora, viver entre línguas é pensar nas duas línguas igualmente, conforme o contexto em que se encontra, é sentir que pertence ao país onde vive e ao país em que nasceu, mas é simultaneamente sentir que já não tem lugar, porque em ambos a olham como estrangeira: num, como aquilo que ela sempre foi, brasileira, no outro como aquilo em que se tornou, americana.
Política migratória americana "é sobre discriminar"
A sensação de viver permanentemente como estrangeira marca a experiência da escritora brasileira Bruna Dantas Lobato nos Estados Unidos, onde diz que a atual política anti-imigração reforça a vulnerabilidade, por ter mais a ver com “discriminação do que legalidade”.
A viver há 15 anos nos Estados Unidos, a escritora afirma que o ambiente político recente tornou mais visível uma tensão que já fazia parte da condição migrante, mas que se intensificou com medidas e discursos centrados na restrição e no controlo da imigração.
“Ser imigrante altera a existência de forma completa”, porque não há nada que possa ser feito que mude essa condição, disse a autora em entrevista à agência Lusa, durante uma passagem por Lisboa para lançar o seu romance “Horas azuis”.
Bruna Lobato conta que por vezes até se esquece que é imigrante, faz a sua vida normal, vai “tomar café, comprar um pão na padaria”, mas abre a boca e as pessoas já não a “veem só como uma pessoa normal”.
“Eu estou sempre sendo relembrada que estou na condição de estrangeira”, afirmou, contando que embora no seu trabalho como professora universitária isso não esteja presente, até pelo caráter das suas aulas, frequentadas por alunos de diversas nacionalidades, na vida social é mais evidente.
“Um colega meu, um amigo, perguntou: ‘Você tem muitos amigos americanos?’. Eu falei: ‘Ah, tenho vários’. Aí eu comecei a listar vários amigos americanos. Ele disse: ‘Todos são filhos de imigrante’. Eu disse: ‘É verdade, são’”, contou.
Este episódio foi recordado pela escritora para sublinhar que apesar de vários dos seus amigos serem americanos, “são americanos que talvez tenham uma sensibilidade” parecida e entendam um pouco da sua vida.
“Talvez eu seja uma pessoa que sempre está por dentro, mas também sempre está por fora. Então, talvez eu me sinta ainda um pouco estrangeira. E esses dias em que tem tanta tensão política, eu sou lembrada do meu estrangeirismo, até com frequência”, afirmou, numa alusão às políticas anti-imigração levadas a cabo pelo atual presidente norte-americano, Donald Trump.
Para a autora, a discussão pública sobre estatuto legal nem sempre corresponde ao que observa no quotidiano, que tem muito mais a ver com atos discriminatórios, em que a retórica política tende a generalizar-se e a criar um clima de suspeição que ultrapassa a questão documental.
Tudo isto contribui para um ambiente de insegurança e aumento de vulnerabilidade, que leva a que cada um desconfie do próximo: “Eu vou na rua e converso com alguém, e fico: ‘Será pessoa de confiança? Eu posso conversar com ela normalmente?’”, confessou.
Segundo Bruna Dantas Lobato, o impacto não se limita a quem está em situação irregular, a sensação de exposição atinge também quem tem residência estável, carreira consolidada e integração profissional.
“Eu estou mais avançada na minha jornada de imigrante legal, então eu deveria ter mais segurança, mas é como se me importasse cada vez menos qual é o ‘status’, porque não é sobre isso. A preocupação não é de verdade sobre leis, é sobre discriminar as pessoas de certos lugares”, afirmou.
Admitindo que se encontra numa “situação privilegiada” por ser professora universitária, ter respaldo da instituição, bem como residência permanente e estatuto de imigrante legal, reconhece que hoje isso não é garantia de nada.
“A gente sabe que ser imigrante legal não protege mais as pessoas do jeito que protegia em outra hora, em que isso iria lhe garantir que você não vai ser preso ou sequestrado um dia. Hoje em dia, tudo é possível, você pode ser sequestrado", disse, contando um episódio que ilustra a situação que se vive.
“Recebi uma mensagem do trabalho com um protocolo de ‘o que fazer se eles tentarem te sequestrar ou sequestrar um dos seus alunos durante a aula’”, contou a escritora, acrescentando: “É um absurdo que isso precisa ser dito, o que eu tenho de fazer se alguém tentar entrar na minha classe, enquanto eu estou falando, para levar um adolescente, que é meu aluno e eu tenho o papel de proteger”.
Viver entre dois países – acrescenta - é simultaneamente um privilégio e um exercício constante de deslocamento, porque se, por um lado, sente que pertence ao país onde vive, por outro reconhece que a pertença nunca é absoluta.
Em ambos os países é vista como estrangeira, no Brasil, como alguém que partiu; nos Estados Unidos, como alguém que chegou, considerou.
O facto de viver entre línguas também acentua essa posição intermédia, em que pensar em duas línguas, alternar códigos e referências e sentir-se ligada a dois contextos distintos faz parte da sua rotina.
Mas, ao mesmo tempo, essa duplicidade reforça a consciência de que não ocupa totalmente nenhum dos lugares.
Talvez seja essa condição que a inspira a continuar a escrever sobre imigração, um tema que pensou que esgotaria neste seu primeiro romance autobiográfico, “Horas azuis”, sobre uma jovem brasileira emigrante nos Estados Unidos, que mantém ligação à distância com a mãe através do computador.
“Acho que não vou perder interesse no tema tão cedo. Não existe nada 100% familiar e nada 100% estrangeiro. As coisas têm essa duplicidade, isso me interessa muito, então eu quero seguir os próximos passos da vida de um imigrante, na literatura”.
Além dos seus planos enquanto escritora, Bruna Dantas Lobato continuará a fazer trabalhos de tradutora, a dar aulas de escrita de ficção na universidade, e a viver nos Estados Unidos.
“Acho que é esse o meu caminho pessoal. E quem sabe ficar cada vez mais confortável em um papel de imigrante também. Acho que à medida que os anos vão passando, eu estou mais e mais acostumada com ele”, disse, confessando no final: “Mas, assim, eu tenho essa fantasia de, quem sabe, voltar ao Brasil”.