Os 11 minutos em que Cláudio Valente diz que foi quem "sofreu mais" mas não explica por que motivo matou Nuno Loureiro

CNN , Danya Gainor
7 jan, 09:30
Cláudio Valente (DR)

Suspeito português do tiroteio na Universidade de Brown e do homicídio do compatriota do MIT assume em vários vídeos agora divulgados pelas autoridades que planeou ataque durante muito tempo, que não se importa com o que pensam dele e que nunca pensou que a polícia demorasse tanto tempo a encontrá-lo

O suspeito do tiroteio do mês passado na Universidade de Brown e do posterior homicídio do físico português do MIT admitiu os ataques numa série de vídeos curtos recuperados pelas autoridades a partir de um dispositivo eletrónico, anunciou na terça-feira o Gabinete do Procurador dos Estados Unidos para o Distrito de Massachusetts.

O gabinete divulgou transcrições dos quatro vídeos gravados após os tiroteios mortais de dezembro pelo suspeito Cláudio Neves Valente, traduzidos de português para inglês. Nos vídeos, Valente não apresentou qualquer motivo - nem pediu desculpa - pelos ataques.

Dois estudantes - Ella Cook e MukhammadAziz Umurzokov - morreram no ataque na Brown, enquanto Nuno Loureiro, professor do MIT, foi mortalmente baleado em sua casa, perto de Boston.

O dispositivo eletrónico com os vídeos foi encontrado numa unidade de armazenamento em New Hampshire, onde as autoridades localizaram o corpo de Valente depois de este se ter suicidado, pondo fim a vários dias de terror que se seguiram à violência.

Durante os mais de 11 minutos em que Valente falou nos vídeos, apresentou queixas vagas sobre pessoas não identificadas, comentou a forma como foi retratado nos meios de comunicação social nos dias após o tiroteio e descreveu o que viu no auditório da Brown que atacou.

Motivo continua por esclarecer

Num dos vídeos, Valente disse que não se importava de se tornar famoso ou de deixar um legado após o tiroteio e que, “apesar de ter muito para dizer e escrever”, não tinha paciência para um manifesto.

Valente afirmou de forma ambígua que o “objetivo” era sair nos seus “próprios termos”, mas não “ser aquele que acabou por sofrer mais com tudo isto”. Não é claro na transcrição de onde queria sair ou de que estava a sofrer.

Embora os vídeos não revelem um motivo, a investigação federal às motivações de Valente vai continuar, indicou o gabinete do procurador dos EUA.

Visitantes param junto a um memorial improvisado para as vítimas do tiroteio na Universidade Brown, a 15 de dezembro. Robert F. Bukaty/AP

Valente disse que esteve a planear o ataque durante mais de seis semestres e que teve “muitas oportunidades” para realizar o tiroteio mais cedo, mas que se “acobardou sempre”.

Valente afirmou não ter arrependimento pelos ataques, apenas pelo facto de estes terem resultado numa grave lesão ocular depois de ter sido atingido por um cartucho.

“Não quero saber como me julgam ou o que pensam de mim”, afirmou num dos vídeos.

Suspeito pensou que a sala de aula estava vazia enquanto os estudantes se escondiam

Valente disse que “nunca” quis realizar o tiroteio na Universidade de Brown num auditório.

“Queria fazê-lo numa sala normal”, afirmou. “Por isso, correu tudo mal.”

Quando entrou no auditório, Valente disse que apenas viu um homem na sala e pensou que os outros tinham saído pela saída de emergência depois de o tiroteio ter começado.

Não se apercebeu de que vários alunos estavam escondidos na sala de aula quando pensou que esta estava vazia e saiu, contou Valente.

O suspeito afirmou que as pessoas que se esconderam “foram um bocado estúpidas” por não utilizarem a saída de emergência.

Valente falou sobre a investigação e a fuga

Ao longo de vários vídeos, Valente referiu ter sido confrontado após o tiroteio e mostrou surpresa com o tempo que as autoridades estavam a demorar a encontrá-lo.

Um homem encontrou Valente no edifício onde ocorreu o tiroteio, observando que a roupa do suspeito era inadequada para o tempo frio, noticiou anteriormente a CNN. Seguiu Valente até ao carro, perguntando-lhe porque continuava a dar voltas ao quarteirão.

Valente falou desse encontro nos vídeos, dizendo que o homem que o confrontou conhecia o número da sua matrícula e que ele “nunca pensou que demorassem tanto tempo” a encontrá-lo.

Valente afirmou que esperava ter algumas horas isolado na unidade de armazenamento antes de as autoridades o encontrarem.

Um investigador trabalha no local numa unidade de armazenamento em Salem, New Hampshire, onde Claudio Neves Valente tirou a própria vida, a 18 de dezembro. CJ Gunther/Reuters

“Mesmo com o carro estúpido cá fora, e obviamente havendo um registo da minha entrada, e havendo câmaras e outras merdas”, afirmou. “Quanto mais tempo eu ficar aqui, melhor.”

Valente abordou rumores de que teria gritado “Allahu Akbar” durante o tiroteio. Disse que não se lembrava de ter gritado nada e que, se o fez, “deve ter sido algum tipo de exclamação”.

Disse ainda que leu que o presidente Donald Trump o chamou de “animal” enquanto os investigadores procuravam Valente.

“Eu sou um animal e ele também”, afirmou.

Relacionados

E.U.A.

Mais E.U.A.