Extrema-direita queria uniforme escolar obrigatório em França. Brigitte Macron mostrou-se a favor antes da votação e está a ser muito falada por isso

13 jan, 14:58
Brigitte e Emmanuel Macron  (AP)

A União Nacional, o partido de Marine Le Pen, levou esta quinta-feita ao parlamento francês a imposição de uniforme escolar nas escolas públicas. Apesar de ser normalmente discreta nas tomadas de posição, Brigitte Macron manifestou-se a favor: diz que também usou uniforme e lidou bem com isso

Brigitte Macron, a primeira-dama francesa, revelou em entrevista ao jornal Le Parisien que é a favor da imposição de uniformes escolares nas escolas públicas, na mesma altura em que essa proposta foi levada ao parlamento pelo partido de extrema-direita de Marine Le Pen - e que acabou rejeitada pela maioria, esta quinta-feira. 

Habitualmente discreta, Brigitte Macron tem dado recentemente várias entrevistas com o objetivo de promover uma campanha de solidariedade de uma fundação à qual preside, que procura angariar dinheiro para crianças e adolescentes hospitalizados. Quando se inicia a campanha Pièces Jaunes (moedas amarelas), no mês de janeiro, a mulher de Emmanuel Macron faz normalmente um périplo mediático e, desta vez, não teve medo de tomar posição: professora reformada de Latim e Literatura, disse que também usou uniforme e lidou bem com isso. 

"Usei o uniforme como aluna: quinze anos de saia azul marinho, camisola azul marinho. E lidei bem com isso. Isto apaga as diferenças, ganha-se tempo - é demorado escolher a roupa de manhã - e dinheiro - em relação às marcas", disse Brigitte Macron, interrogada pelos leitores do Parisien.

"Portanto, sou a favor do uniforme na escola, mas uma roupa simples e não tristonha", declarou a primeira-dama, numa conversa em que falou sobre vários outros temas de educação, nomeadamente sobre a utilização de telemóveis no liceu. Os temas do bullying e cyberbulling têm sido dos poucos a motivar intervenções de Brigitte Macron, de 69 anos: em 2021, abriu mesmo uma reunião da UNESCO pedindo ação urgente nesta matéria.

O tema do uniforme é controverso: a proposta de lei da extrema-direita já tinha sido rejeitada em comissão no parlamento e foi esta quinta-feira discutida por todos os deputados no hemiciclo, que também aproveitaram para comentar a "intervenção" de Brigitte Macron sobre o tema.

O ministro da Educação em funções, Pap Ndiaye, já tinha dito à BFM-TV que não queria legislar sobre o assunto nem abrir o debate nacional, manifestando-se contra esta obrigatoriedade. "Impor uniforme a todos os alunos, para mim é não", declarou, admitindo que cada estabelecimento escolar possa definir as suas próprias regras . Em França, os uniformes são comuns no ensino privado, mas deixaram de ser obrigatórios no público em 1968, ainda que o tema tenha regressado pontualmente à agenda política. Desta vez, voltou à discussão por ação da União Nacional, o partido de extrema-direita de Marine Le Pen, que agora tem 88 deputados no parlamento, com 577 assentos no total.

O Renascença, partido de Emmanuel Macron, criou um grupo de trabalho para analisar o tema, mas a obrigatoriedade do uniforme é mal vista pela esquerda, mesmo que alguns deputados do partido do presidente a encarem como positiva. Ao lançar a proposta, uma das sete que a União Nacional levou ontem ao parlamento, Le Pen justificou-a com a necessidade de "evitar a pressão" dos "islamistas" e de colocar um ponto final no "concurso" entre os alunos de quem tem as roupas mais caras, mais luxuosas ou mais na moda. A medida  da União Nacional teve o apoio dos deputados do partido Os Republicanos, fundado por Nicolas Sarkozy em 2015, que já propuseram projetos de lei semelhantes; mas, mesmo com este voto favorável, a extrema-direita não conseguiu ver a proposta aprovada no hemiciclo. 

Uma mensagem enviada aos franceses

Sobre a tomada de posição inédita de Brigitte Macron, um conselheiro do executivo francês disse à rádio francesa RTL que "não imagina" que a primeira-dama tenha falado sobre uniformes escolares sem os debater primeiro com o marido. "Isto permite enviar mensagens aos franceses, à maioria presidencial, sem que o presidente tenha necessidade de se expor", analisou outro conselheiro. 

Fonte do gabinete de imprensa do governo disse também à RTL que a tomada de posições contrárias às da maioria, da parte da primeira-dama, podem ter um efeito negativo. "Não é o papel dela", considerou. Ainda assim, um deputado da maioria admitiu que Brigitte costuma ser "humilde" na forma como se posiciona e que nunca procurou interferir nas matérias políticas do presidente. "Ela é apreciada justamente porque é discreta", referiu. Mesmo que, desta vez, a primeira-dama tenha saído da sombra para comentar um tema polémico da atualidade. 

Roger Chudeau, o deputado da União Nacional responsável pela proposta de lei, agradeceu mesmo à primeira-dama o apoio num tweet: "Esperemos que os deputados votem a favor desta medida aprovada por dois terços do povo francês", escreveu, antes da votação.

Porém, além do apoio dos 62 deputados conservadores dos Les Républicains, a extrema-direita contou com a oposição fervorosa de toda a esquerda, nesta e nas outras propostas que levou esta quinta-feira à Assembleia Nacional francesa. 

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