Com uma carreira de 45 filmes e mais de 70 canções em 21 anos, Brigitte Bardot é considerada um dos maiores símbolos do cinema francês
Brigitte Bardot é sinónimo de ícone de beleza. A modelo, atriz e cantora francesa, conhecida pelo seu trabalho com Godard e Roger Vadim, com quem fez (entre outros) "E Deus criou a mulher", fez dramas e comédias, filmes bons e menos bons, mais ou menos escandalosos, mas será sempre recordada como uma das mulheres mais bonitas do mundo. Com rosto de menina tímida, mas com a liberdade que poucas mulheres tinham na década de 1950, BB, como ficou conhecida, tornou-se também um ícone da moda. Com a sua silhueta definida, popularizou o biquíni, as sabrinas, as blusas com decote largo (conhecido como o "decote Bardot"), o rabo de cavalo e o penteado em forma de "couve" no topo da nuca.
Morreu aos 91 anos.
Bardot nasceu em Paris numa família burguesa abastada a 28 de setembro de 1934. O seu pai, Louis Bardot, era um industrial, mas também um poeta e um cineasta amador; a sua mãe, Anne-Marie, gostava de moda e de ballet. A irmã, Marie-Jeanne, nasceu em 1938. As raparigas tiveram uma educação rigorosa, mas a família tinha uma vida desafogada, viajavam e faziam filmes caseiros. Em criança, Brigitte estudou ballet e chegou a ponderar a hipótese de seguir uma carreira na dança.
Mas, entretanto, começou a trabalhar como modelo. Em 1948, a mãe convenceu o seu amigo Jean Barthet, um famoso designer de chapéus, a contratar Brigitte, de 14 anos, para mostrar os seus chapéus enquanto dançava ao som da música de Tchaikovsky para o Lago dos Cisnes. O desfile de Barthet levou a trabalhos fotográficos para revistas femininas, como Les Cahiers du Jardin des Modes, Les Veillées des Chaumières e Modes et Tricots, e depois para a Elle, a mais influente revista feminina francesa, que tinha começado a ser publicada em 1945.
Brigitte tinha 15 anos quando em maio de 1949 apareceu na capa da Elle pela primeira vez. Muitas mais capas se seguiram. A sua beleza foi imediatamente notada. Com olhos grandes, nariz curto, lábios sensuais e cabelo longo, media 1,68 e tinha uma figura esguia e delicada. A formação em ballet ajudava-a a ter uma postura perfeita.
Das passerelles para o cinema foi um passo pequeno. Quando tinha 16 anos, o realizador Marc Allégret convidou-a para fazer uma audição para um filme. Brigitte não conseguiu o papel mas conheceu Roger Vadim, que tinha 22 anos. Foi amor à primeira vista. Os pais opuseram-se ao namoro e ainda quiseram enviá-la para Londres, para estudar, mas Brigitte ameaçou suicidar-se. Os pais cederam mas disseram-lhe que teria de esperar até aos 18 anos para casar. Brigitte assim fez. Esperou e aos 18 anos casou com Roger Vadim.
O casamento teve lugar a 21 de dezembro de 1952 na igreja católica Notre-Dame de Grâce de Passy, em Paris. A cerimónia tradicional, para agradar à família, foi também o momento da libertação. A partir de então poderia fazer o que quisesse.
A 29 de dezembro de 1952, uma publicação de duas páginas na Elle mostrava-a recém-casada, fotografada no seu apartamento, com sapatilhas de ballet rasas e o seu longo cabelo castanho-claro preso num rabo de cavalo, com uma franja ondulada. É uma rapariga ainda, mas explora a a sua sensualidade, com a sua cintura fina e a figura curvilínea realçadas, os lábios num beicinho que haveria de tornar-se famoso.
Nesta altura já tinha começado a fazer os primeiros papéis no cinema e a sua presença no grande ecrã era cada vez mais frequente. Mas foi em 1956, com "E Deus criou a Mulher", que se tornou realmente conhecida. Foi a estreia de Roger Vadim como realizador, com Bardot a contracenar com Jean-Louis Trintignant e Curt Jurgens. O filme, sobre uma adolescente imoral numa cidade pequena e respeitável, foi um enorme sucesso, não só em França, mas em todo o mundo, figurando entre os dez filmes mais populares na Grã-Bretanha em 1957. Nos Estados Unidos, foi o filme estrangeiro com a maior receita de bilheteira de sempre até ao momento: quatro milhões de dólares. E claro que escandalizou a conservadora sociedade americana, sendo censurado por algumas salas.
Durante as filmagens, Brigitte envolveu-se com Trintignant, que também era casado nessa altura. A atriz acabaria por se divorciar de Roger Vadim e viveu durante dois anos com Jean-Louis Trintignant. Apesar da separação, Bardot e Vadim continuaram a trabalhar juntos.
A partir daí a carreira prosseguiu de vento em popa. Bonita e sensual, com "E Deus criou a mulher" e "Vagabundos ao Luar", em 1958, também de Vadim, BB transformou-se num símbolo sexual. Nesse mesmo ano, com "Um caso perdido", Brigitte Bardot tornou-se também a atriz mais bem paga de França.
Idolatrada pelos esquerdistas franceses, para quem ela simbolizava o desprezo pela moralidade convencional, BB passou a ser o símbolo de uma feminilidade moderna e livre. Fotografada em biquíni nas praias de Saint-Tropez, Brigitte Bardott era também um ícone da moda. Todas as raparigas queriam usar sabrinas como as suas ou copiar o seu penteado. A "pose Bardot" - sentada com as pernas cruzadas a tapar-lhe o peito, como foi fotograda em 1960 - foi imitada por muitas modelos nas décadas que se seguiram.
Em 1960 a pensadora Simone de Beauvoir escreveu "Brigitte Bardot e o síndrome de Lollita", no qual descreveu Brigitte Bardot como uma força da natureza, naturalmente transgressora, uma "locomotiva das histórias femininas", que não se sujeitava às convenções da época. No entanto, lamentava que a atriz se limitasse a ser um objeto de consumo masculino, fazendo filmes onde a sua "rebeldia" era reenquadrada pelo olhar dos homens, com personagens que procuravam sempre a aprovação masculina. Esta não era a libertação da mulher que as feministas advogavam.
"A Verdade" (1960), de Henri-Georges Clouzot, o filme com maior sucesso comercial de Bardot em França e o terceiro maior êxito do ano, foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e acabou por ganhar um Globo de Ouro nessa categoria. Bardot foi galardoada em Itália com um Prémio David di Donatello para Melhor Atriz Estrangeira pelo seu papel.
Mas, mais uma vez, a rodagem tinha sido atribulada. Bardot tinha tido o seu único filho, Nicolas, há pouco tempo, depois de uma gravidez não desejada, e estava a passar por uma depressão pós-parto. No entanto, aceitou trabalhar com Clouzot, que era um realizador respeitado e premiado em Cannes, mas conhecido pelos métodos pouco ortodoxos na preparação dos atores, muito obsessivo e até agressivo. Durante a filmagem, houve episódios muito intensos. Mais tarde, a atriz diria que Clouzot era um realizador "demoníaco". Ao mesmo tempo, Brigitte teve um caso com o coprotagonista Sami Frey, que levou a uma rutura no seu segundo casamento, com o ator Jacques Charrie, e culminou numa tentativa de suicídio muito publicitada pouco antes da estreia do filme. No divórcio, perdeu a custódia do filho, nunca conseguindo, desde então, aprofundar a relação com Nicolas.
Entre os seus muitos filmes, destacam-se "Vida privada", realizado por Louis Malle (1962); "O Desprezo)", de Jean-Luc Godard (1963); "Viva Maria!", de Malle (1965), com o qual foi nomeada para um BAFTA de melhor atriz estrangeira; "Querida Brigitte", de Henry Koster, (1965), ao lado de James Stewart; e "Masculino-Feminino", realizado por Godard (1966). Contracenou com James Dean e Sean Connery e teve também sucesso como cantora, nomeadamente ao lado de Serge Gainsbourg. De 1969 a 1972, foi o rosto oficial de Marianne, o símbolo da liberdade em França.
Com a carreira em declínio, Bardot fez os seus últimos filmes em 1973 e, depois, retirou-se. Ativista dos direitos dos animais, fundou em 1987 uma organização de bem-estar animal, a Fundação Brigitte Bardot.
Em 1992, casou com Bernard d'Ormale, um antigo conselheiro de Jean-Marie Le Pen. A atriz manifestou o seu apoio a Marine Le Pen em várias eleições e, nos últimos anos, chamou a atenção por uma série de declarações controversas. Em 2004, foi processada por comentários feitos sobre muçulmanos no seu livro "Um grito no silêncio" e condenada a pagar uma multa de cinco mil euros por incentivar ao ódio racial. Voltaria a ser condenada mais vezes por motivos semelhantes. Também foi notícia por fazer comentários pouco felizes em relação ao movimento #metoo.
Com uma carreira de 45 filmes e mais de 70 canções em 21 anos, Brigitte Bardot é considerada um dos maiores símbolos do cinema francês. Mas quando há pouco mais de dois anos Danièle Thompson quis fazer uma série baseada na sua vida, Brigitte, que vivia há vários anos retirada da vida pública na sua propriedade em Saint-Tropez, escreveu-lhe uma longa carta explicando que se surpreendia sempre com o interesse que as pessoas tinham por ela e não entendia muito bem por que é que, tantos anos depois de ter deixado a sua carreira de atriz, não a deixavam em paz de uma vez por todas.