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Dez anos depois do Brexit, em Portugal Street, no coração de Londres, "imigrante" é uma palavra cada vez mais difícil de carregar

29 jun, 11:08
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Em Londres, onde quatro em cada dez pessoas vieram de fora, o mundo encontra-se numa cidade que durante séculos recebeu imigrantes de braços abertos. Mas políticas de imigração mais apertadas e o crescimento de movimentos hostis a imigrantes estão a tornar a vida aqui cada vez mais difícil

Quem veio antes

É no coração da cidade, ao pé de uma rua chamada Portugal, que trabalha António Luís Fernandes. Ainda não tinha 19 anos quando tomou a decisão de vir para Londres à procura de emprego, nos anos 90. “Primeiro achei um bocado estranho, estava sozinho, mas depois fui-me acostumando.”

Passou por vários restaurantes e cafés, onde a maioria dos empregados eram imigrantes, até parar num pequeno café ao lado da Portugal Street. “Achei que estava em Portugal outra vez”, diz, enquanto caminhamos pela rua repleta de estudantes. Estamos a atravessar a LSE, uma das universidades mais internacionais do Reino Unido, onde a maioria dos alunos vem de fora.

O café, conta-me, está no mesmo sítio há 100 anos “mais ou menos” (ninguém sabe a idade exata) ao serviço da universidade. António Luís está lá há 35, primeiro a trabalhar ao serviço de um italiano. Os dois deram-se bem, talvez por serem os dois do sul da Europa, e mais tarde ficou com as chaves.

Quem olha de fora não imagina que no “Wright’s Bar” quase só trabalham portugueses. É tudo tipicamente britânico, do nome, que António Luís preferiu manter, à ementa. “Os clientes são de todo o mundo, assim faço o favor a todos eles.” Admite que já pensou pôr uma francesinha no menu, mas desistiu. “O problema é que não sei o sistema de molho.”

Quase nenhuma das pessoas que vão entrando enquanto conversamos são britânicas. Ouve-se uma sinfonia de sotaques — um mundo inteiro que enche o café à hora de almoço. “É um ambiente bom, pequeno, familiar”, diz Patrícia, uma portuguesa que trabalha aqui há seis anos.

O ambiente é bom, mas há apenas algumas semanas passaram por aqui os protestos do Restore Britain — um partido ainda mais à direita do que o Reform que defende deportações em massa. Entre bandeiras britânicas, latas de cerveja e lixo, as ruas foram inundadas por milhares de pessoas vindas de todo o país para protestar contra os imigrantes. E alguns manifestantes vieram ao café. “Comeram, beberam, foram educados”, diz António Luís. Um deles fez questão de dizer que era inglês. António preferiu não dizer nada.

“Eu não gosto dos protestos contra os imigrantes”, diz Gian Piero Abronzino, o único atrás do balcão do “Wright’s” que não é português. Veio da Sardenha para ficar um ano e, como tantos, foi ficando. “Esqueci-me de voltar para casa.” Vem de uma família de imigrantes e faz questão de separar as coisas. “Eu acho que os ingleses pensam, se és um imigrante que vem para cá trabalhar, para pagar as contas normalmente, está tudo bem. Os ingleses ficam felizes porque os imigrantes trazem valor ao Reino Unido. Mas se um imigrante vem pelas casas de borla, pelos benefícios, para não trabalhar, para vender drogas…”, diz, a erguer as sobrancelhas.

António Luís acha o mesmo. “Entram de barco, vêm nos camiões… deve ser por causa desses aí, não sei.” Mas de uma coisa tem a certeza: é cada vez mais difícil encontrar pessoas para trabalhar. “Portugueses este ano há menos, a vida é mais cara.”

Tudo subiu de preço desde o Brexit — a libra caiu, tanto os produtos europeus como trazer pessoas de fora ficou mais caro, e viver no país já não é o que era, diz António. E apesar de dizer que faria tudo de novo, quando lhe perguntamos o que diria aos jovens portugueses que pensam vir neste momento, não hesita. “Se fosse agora não vinha. Estudar cá é bom, mas para estar a pagar as despesas mais vale estar na nossa terra.”

É para lá que planeia ir quando se reformar. E da “Grande-Britânia”, como lhe chama, numa mistura de inglês e português, vai ter saudades é das pessoas.

Quem veio depois

Enquanto caminhamos pela Portugal Street, é difícil não ver o mundo. É nesta rua que se ergue um globo de quatro metros, uma escultura que um olhar menos atento pode não notar que está virada do avesso. “Familiar, estranho e sujeito a mudança”, foi assim que o artista Mark Wallinger, descreveu a obra — palavras que também podiam descrever o Reino Unido de hoje, um país que, para muitos, está virado do avesso desde o referendo.

Quem passa por ele todos os dias é António Valentim, professor na universidade. Veio tirar o mestrado à LSE em 2016 — o ano do referendo — e mais tarde voltou, depois de passar pela Alemanha e pelos Estados Unidos, desta vez para ensinar no Instituto Europeu, onde estuda comportamento político. O referendo, explica, mudou tudo.

“O que vemos na prática é que o Brexit e as regras da imigração mudaram radicalmente a composição dos imigrantes que entram no Reino Unido. Até há uns anos eram principalmente europeus, agora são principalmente pessoas de fora da União Europeia.”

Nas últimas semanas, o país tem visto cada vez mais protestos violentos, não só contra os imigrantes mas contra qualquer pessoa que não pareça imediatamente britânica; por outras palavras, que não seja branca. O Restore Britain e o Reform — este último liderado por Nigel Farage, um dos principais defensores do Brexit — têm sido os principais incendiários.

“Mesmo não sendo o principal partido da oposição no parlamento, o Reform tem definido de forma muito clara a agenda”, explica António. “E como consequência vemos não só o partido conservador mas também o partido trabalhista no governo a tomar posições muito mais restritivas em termos de imigração.”

É um assunto que continua no centro do debate político dez anos depois do referendo, enquanto a Grã-Bretanha se prepara para o seu sétimo primeiro-ministro numa década e o governo trabalhista tenta lidar com os imigrantes, sem saber para onde se virar. Por um lado, tem tornado a residência permanente mais difícil ao duplicar o tempo de espera até se poder viver no país; por outro, tenta reaproximar-se de Bruxelas, com uma cimeira entre o Reino Unido e a União Europeia planeada para o próximo mês — uma das últimas de Keir Starmer.

Mas António acha que o país não vai voltar atrás. “Não é uma reversão do Brexit, é tentar responder à opinião pública, e aumentar a cooperação com a UE em questões estratégicas.” E apesar de o futuro da relação Reino Unido-UE continuar em aberto, o de António não — planeia ficar no Reino Unido a viver por enquanto, e ver de perto onde o país vai parar. “Eu gosto muito da minha vida cá… muita coisa boa vem de arriscar. Ter vindo para cá estudar deu-me acesso a muitos mundos que me fizeram um profissional mais realizado, mas também uma pessoa mais realizada.”

Mas para os seus alunos europeus, já não é assim. Quando veio da primeira vez, veio “como uma pessoa vai de Portugal para Espanha”, mas da segunda vez teve de ser patrocinado pela universidade. “Antes do Brexit era muito mais fácil, agora precisam de um empregador que lhes patrocine o visto, e isso tem muitos mais custos, é bastante mais complicado.” E esses custos são cada vez maiores — patrocinar um trabalhador estrangeiro num visto de cinco anos pode custar a um empregador britânico mais de 10 mil libras (à volta de 15 mil euros) só em taxas obrigatórias.

Quem volta

É por causa disso que Catarina, que chegou há menos de um ano para tirar um mestrado em política e economia internacional, já decidiu que vai voltar para Portugal. O plano inicial era ficar mais tempo, talvez arranjar emprego em Londres, a cidade onde sempre sonhou viver — mas apesar de a universidade lhe ter aberto os braços e superado as expectativas, o país e as suas políticas de imigração mudaram-lhe os planos. “Não sei se me considero imigrante”, admite. “Considero-me mais uma visitante.”

“Aqui tudo acontece, podes ser o que tu quiseres, e eu adoro isso. É uma cidade cheia de vida”, diz, com o entusiasmo a escapar-lhe na voz. “Mas é muito difícil ficar.”

Mesmo com um mestrado feito na King’s College, do outro lado da Portugal Street, em frente à LSE, precisa de um visto de trabalho para ficar mais tempo e de ser patrocinada por quem a contrate, o que é ainda mais difícil só por ser de fora. “Entre uma pessoa que custa milhares de euros em cima de um salário e uma pessoa que custa zero, eles vão sempre escolher a que custa zero.”

É a única portuguesa do seu mestrado, e a decisão de vir não foi fácil, sobretudo por razões financeiras. “Foi muito difícil porque é pensar que se eu tivesse estudado há quatro ou cinco anos as normas ainda não estavam em vigor e eu teria pago metade das propinas.” Em universidades como a LSE e a King’s College, as propinas para estudantes internacionais — alunos europeus incluídos desde o Brexit — podem ir de cerca de 30 mil a perto de 50 mil euros por ano letivo, mediante o programa. Catarina teve de fazer um empréstimo. “É muito frustrante… estás a pagar uma taxa extra só por não seres daqui.”

E preocupa-a também a maneira como o país se está a fechar. “Se o Reform conseguir chegar ao governo, que é o que muita gente aqui prevê, a situação vai piorar bastante. Faz tudo parte da mesma trajetória, desde que o Nigel Farage começou a fazer campanha pelo Brexit há dez anos até ao país muito mais fechado a que chegámos hoje.” Quem perde, diz, é o Reino Unido.

O voo de regresso já está comprado, e despedir-se de Londres é difícil, mas não se arrepende de ter vindo. “É um capítulo que se fecha sem qualquer ressentimento, e levo muitas ideias que gostava de ver implementadas em Portugal.” Quando lhe perguntamos se diria a um jovem português para vir agora, sorri. “Estou a ter essa conversa neste momento com um jovem português, e eu diria para vir se estiver confortável com o investimento que é. Se houver esse apoio, sim. Senão, infelizmente, é impossível sobreviver aqui.”

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