Médico anestesista viola paciente durante o parto. Autoridades brasileiras temem que não tenha sido caso isolado

12 jul, 16:44
Giovanni Quintella Bezerra

O médico brasileiro administrou anestesia geral à mulher e violou-a enquanto a restante equipa médica se ocupava da cesariana. O crime foi filmado e denunciado por um grupo de colegas

Giovanni Quintella Bezerra trabalhava como médico anestesista num hospital no Rio de Janeiro há cerca de dois meses, mas vários elementos da equipa médica rapidamente se aperceberam de alguns comportamentos suspeitos.

Insistia em administrar anestesia geral a todas as pacientes, apesar de partos por cesariana requererem apenas anestesia local. Parecia posicionar-se de forma estratégica durante o procedimento, perto da cabeça das pacientes e parcialmente oculto pelos campos cirúrgicos, enquanto executava movimentos rítmicos.

Um grupo de enfermeiras tomou a iniciativa de filmar o médico durante o terceiro parto realizado em conjunto no passado domingo, dia 10 de julho. As filmagens recolhidas - e posteriormente difundidas pelos meios de comunicação - estão a chocar o Brasil e o mundo: em pleno local de trabalho, acompanhado pelos colegas, Giovanni abusou sexualmente da parturiente sedada. 

Crime cometido no mesmo dia da detenção

Uma das funcionárias que ajudou a denunciar o crime, não identificada, revela ter colaborado com o anestesista em três partos no dia da detenção. Nas primeiras duas cesarianas, estranhou a quantidade excessiva de substância anestésica aplicada às grávidas e a insistência em fazê-las adormecer durante o procedimento. "As pacientes nem sequer conseguiam segurar os seus bebés" durante o recobro, explica, num depoimento partilhado com o portal de notícias G1

A mesma fonte descreve o comportamento invulgar do anestesista ao longo dos três partos, realizados no mesmo dia em que viria a ser preso. Logo na primeira cesariana, a testemunha relata que Giovanni aguardou a "saída do acompanhante da paciente da sala de cirurgia" para montar "uma cabana que impedia que qualquer pessoa pudesse visualizar a paciente do pescoço para cima". Na segunda intervenção, recorreu uma vez mais ao "capote aberto nele próprio" para limitar o ângulo de visão dos colegas. 

"Giovanni, ainda posicionado na direção do pescoço e da cabeça da paciente, iniciou, com o braço esquerdo curvado, movimentos lentos para frente e para trás", acrescenta, no mesmo documento. "Pelo movimento e pela curvatura do braço, pareceu que estava a segurar a cabeça da paciente em direção à sua região pélvica". 

Na terceira cesariana realizada nesse domingo, por volta das 16:00, um grupo de enfermeiras e funcionárias do hospital decidiu investigar a conduta do médico. Para o efeito, solicitaram a alteração da sala de partos para outra que dispunha de um armário de vidro perto da cabeça da parturiente, onde sabiam que Giovanni se posicionaria. Sem o conhecimento do anestesista, as enfermeiras apoiaram o telemóvel no suporte de vidro e gravaram toda a operação. 

Como acontecera nas duas cesarianas anteriores, o campo cirúrgico cuidadosamente montado pelo médico não permitiu que a restante equipa visualizasse o rosto da paciente (ou a parte inferior do corpo do homem). O crime só viria a ser descoberto após o parto, aquando da recolha do telemóvel. As provas eram tão chocantes quanto irrefutáveis: enquanto a equipa conduzia o parto, era possível ver o homem a acariciar o rosto da parturiente com o órgão sexual e, a certo momento, a introduzi-lo na sua boca. Minutos mais tarde, serviu-se de um papel para limpar os indícios do crime.

A atuação imediata do grupo de funcionárias do Hospital da Mulher Heloneida Stuard permitiu que o crime fosse descoberto e o agressor detido no próprio dia, ainda nas instalações hospitalares. 

"As imagens falam por si", comenta a delegada Bárbara Lomba, responsável pela investigação, assumindo que bastou ter acesso às filmagens para proceder à detenção em flagrante do suspeito. "Todos viram o que aconteceu. Aquilo ali é um relato do crime. O próprio autor, vítima, todos presentes. Toda a dinâmica do crime está ali". 

"É desnecessário [descrever as filmagens] porque é uma coisa hedionda, estarrecedora, indescritível, inimaginável", remata. 

O momento da detenção foi também filmado e posteriormente divulgado pela comunicação social. No vídeo, Giovanni Bezerra mostra-se atónito com a acusação da delegada Bárbara Lomba e procura defender-se, embora de forma hesitante. "Estupro [violação]?", questiona, aparentemente incrédulo.

Ao tomar conhecimento de que tinha sido filmado, o médico remete-se ao silêncio e é levado pelas autoridades com algemas, ainda envergando a bata do hospital, de olhos fixos no chão para evitar as objetivas dos repórteres no exterior.

Uma vítima conhecida. Quantas, no total? 

Giovanni Bezerra, de 32 anos, exercia a profissão há três anos. Ao longo deste período, e de acordo com informações partilhadas pelo próprio nas redes sociais, terá trabalhado em pelo menos dez hospitais públicos e privados. Nas suas contas pessoais, publicava regularmente fotografias no estabelecimento médico, de bata, com mensagens alusivas à profissão. "Vocês ainda vão ouvir falar de mim", escreveu, numa das publicações. 

Um dia após a detenção, as vítimas começam a reconhecer nos ecrãs de televisão o anestesista que as atendeu - e, também, a repensar as suas próprias experiências como possíveis violações. 

Em entrevista à TV Globo, a mãe de uma parturiente sedada por Giovanni alega que a filha regressou do bloco operatório ainda adormecida e "suja" no rosto e no pescoço. 

"Eu não sabia o que era. Achava que era algum medicamento que tinha entornado", explica a mãe da alegada vítima, mantendo o rosto e a voz distorcidos durante a entrevista para garantir o anonimato. Relembra, ainda, que o médico terá respondido "fica calma, relaxa, dorme, fica tranquila" quando a filha expressou preocupação com a sonolência excessiva, antes de ceder ao efeito da anestesia. 

O médico - imediatamente afastado da profissão e "repudiado" pela Secretaria Estadual de Saúde e a Fundação Saúde do Estado do Rio - enfrenta agora um procedimento cautelar, um processo ético-profissional e uma acusação de violação em situação particularmente vulnerável, com pena desde 8 a 15 anos de prisão. Apesar do vídeo incriminatório, a defesa de Giovanni Bezerra anunciou aguardar o "acesso na íntegra aos depoimentos e elementos de provas" para se manifestar "sobre a acusação realizada em desfavor do anestesista". 

A detenção ocorreu há apenas dois dias, mas já gerou uma discussão internacional sobre a violência sexual e obstétrica. Este caso, destacam várias vozes ativistas e feministas, assume contornos particularmente preocupantes: o médico exerce a profissão há anos, sem outras acusações de conduta imprópria, e as vítimas veem-se extirpadas da capacidade de reconhecer e denunciar a própria agressão. 

"O que levaria um médico a estuprar uma mulher na sala de parto se não a certeza de impunidade?", questiona Tainá de Paula, vereadora pelo Partido dos Trabalhadores. 

O caso do estuprador anestesista é o retrato da violência contra a mulher: não tem hora nem lugar.
 

O que levaria um médico a estuprar uma mulher na sala de parto se não a certeza de impunidade e de diminuição da mulher.

 

Desumanização completa de nossos corpos!

 

— Tainá de Paula👓 (@tainadepaularj) July 11, 2022

A irmã de Marielle Franco, Anielle, lamenta que os corpos das mulheres sejam "invadidos" até durante o parto. "Mais um péssimo dia para ser mulher nesse país", culmina. 

Um anestesista ESTUPROU uma mulher DURANTE O PARTO DELA.
A gente não pode tá em universidades, andar a noite sozinhas, não PODEMOS SEQUER PARIR sem ter nossas vidas e nossos corpos sendo invadidos.

Mais um péssimo dia pra ser mulher nesse país!

— Anielle Franco (@aniellefranco) July 11, 2022

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