ONU critica Brasil pelos assassinatos na Amazónia e Bolsonaro deixa "sentimentos" às famílias via Twitter

17 jun, 09:07

As autoridades brasileiras dizem que uma terceira pessoa deverá ser detida no quadro da investigação pelas mortes do jornalista britânico Dom Phillips e do ativista pelos direitos indígenas Bruno Araújo Pereira. Ambos estiveram desaparecidos durante mais de uma semana no estado do Amazonas. Entretanto, deverá ser feita uma terceira detenção, depois das confissões dos primeiros detidos

Os restos mortais que as autoridades brasileiras julgam ser do jornalista britânico Dom Phillips e do ativista pelos direitos das comunidades indígenas, Bruno Araújo Pereira, já chegaram a Brasília.

Os corpos vão ser analisados para confirmação de identidade, num trabalho de perícia que pode demorar mais de uma semana. 

Dom Phillips, que colaborava com o diário The Guardian, e o ativista Bruno Araújo Pereira, viajaram até à região de Vale do Javari, no oeste do estado do Amazonas. Levavam a cabo um trabalho de pesquisa para um livro com o título "Como Salvar a Amazónia?" no qual o correspondente trabalhava. 

Queriam fazer entrevistas com membros de comunidades indígenas locais. O desaparecimento de ambos terá acontecido dia 5 de junho, dois dias depois de se terem encontrado. 

Em comunicado, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava), disse que Phillips e Araújo Pereira viajavam numa embarcação entre a comunidade de São Rafael e a cidade de Atalaia do norte, quando foram seguidos por um barco no qual se encontravam pelo menos duas pessoas. 

Testemunhas disseram às autoridades que uma delas era Amarildo da Costa Oliveira, um pescador que já teria ameaçado Bruno de Araújo Pereira anteriormente. O pescador surge em imagens difundidas há alguns meses num documentário produzido para o canal de informação catari al-Jazeera, num momento de tensão com o ativista, que argumentava que o pescador estava em águas interditadas, por pertencerem aos indígenas.  

Esta quinta-feira, as autoridades confirmaram que os restos mortais foram encontrados com a ajuda do mesmo homem, Amarildo da Costa Oliveira, suspeito do desaparecimento de Phillips e Araújo Pereira. 

Conhecido como "Pelado", foi detido no quadro da investigação e confessou ter participado no crime com o irmão, Osseney da Costa Oliveira. Terá também indicado onde os corpos do jornalista e do ativista brasileiro foram enterrados. 

Zona de conflito permanente

No Vale do Javari vive a maior concentração de povos indígenas isolados de todo o Planeta. Partilham cerca de 8,5 milhões de hectares de terra demarcados, numa região com fronteira com o Peru e com a Colômbia. 

A história dos conflitos entre pescadores, garimpeiros, madeireiros ou narcotraficantes com as comunidades indígenas e aqueles que lutam pelos seus direitos na região é tão antiga quanto o Brasil.  

Hoje em dia, é a realidade dos que colaboram com organizações como a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), criada no final dos anos 60 pelo Governo brasileiro, atualmente ligada ao Ministério da Justiça, ou com plataformas como a Unijava. 

Os trabalhadores de organizações não-governamentais externas referem também que trabalhar com povos indígenas no Brasil significa expor-se a um grau de assédio e de violência que pode ser fatal.             

Vítimas alvejadas e atiradas a uma vala

A imprensa brasileira relata que os irmãos pescadores dispararam sobre as vítimas, tendo depois esquartejado os corpos, que queimaram e acabaram por enterrar.  

Entretanto, a jornalista Carol Queiróz disse à CNN Portugal a partir de Manaus (capital do estado do Amazonas), esta quinta-feira, que Amarildo da Costa Oliveira contou à polícia que ajudou com o desaparecimento dos corpos, mas que foi outra pessoa quem disparou sobre Phillips e Araújo Pereira. 

A correspondente contou ainda que há pelo menos mais cinco suspeitos de participação no crime e que mais uma detenção deve ser feita em breve.

Brasil alvo de críticas das Nações Unidas

Os detalhes da violência do assassinato do jornalista e do ativista pelos direitos dos indígenas não passaram despercebidos na imprensa internacional. O relato do desaparecimento de Dom Phillips e de Bruno Araújo Pereira valeu ao Brasil duras críticas da parte da Organização das Nações Unidas (ONU).

O Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU diz que o sucedido é "um ato brutal de violência". O ACNUDH apelou ao Estado brasileiro que assegure uma investigação "imparcial, transparente e exaustiva". E recordou também que deveriam ser dadas compensações às famílias. 

Os "sentimentos" de Bolsonaro

O que também não passou despercebido foi a reação do Presidente brasileiro. Ao saber do desaparecimento das vítimas, Jair Bolsonaro culpou-os pela própria sorte. Disse que eram responsáveis por se terem deslocado a uma região inóspita do Brasil, que todos sabem ser perigosa. 

Bolsonaro rejeitou ainda qualquer responsabilidade do seu Governo, que tem sido alvo de críticas a nível internacional pela falta de proteção da região da Amazónia, dos povos indígenas que lá vivem e dos ecossistemas existentes na região.

Consciente da magnitude que a notícia assumiu em todo o mundo, o presidente brasileiro remeteu-se ao silêncio. E decidiu manifestar-se apenas nas redes sociais dias mais tarde. Bolsonaro decidiu usar o Twitter para enviar "os seus sentimentos" às famílias das vítimas. 

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