"Estou apenas a começar": Tânia Maria chegou ao cinema aos 72 anos mas já tem bilhete para os Óscares

31 jan, 18:00
A atriz brasileira Tânia Maria no filme "O Agente Secreto" (DR)

Sem formação como atriz ou qualquer experiência anterior, a costureira do interior do Rio Grande do Norte, Brasil, começou como figurante em "Bacurau" e agora é elogiada pela crítica internacional pela sua participação em "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho

Até os 72 anos, Tânia Maria nunca tinha assistido a um filme no cinema. Aos 79, esta brasileira pequenina e cheia de energia é uma atriz famosa e está pronta para ir a Hollywood assistir à cerimónia de entrega dos Óscares e até para subir ao palco quando o “O Agente Secreto” for premiado.

Residente em Santo Antônio da Cobra, uma povoação com menos de mil habitantes em Parelhas, no Rio Grande do Norte, Tânia Maria trabalhava como costureira, fazendo tapetes para casa-de-banho.  "Nunca imaginei ser atriz. Nunca", afirmou em entrevista à BBC News Brasil. Quando foi avisada de que contracenaria com Wagner Moura, por exemplo, a sua reação espontânea foi perguntar: "Quem é esse?".

A única novela que se lembra de ter acompanhado foi “Pai Herói”, exibida em 1979. "Fiquei apaixonada por Tony Ramos desde esse tempo." Nessa altura, em Santo Antônio da Cobra. Tânia Maria não tinha energia nem televisão e diz que “não sabia nem o que era ditadura." "O meu pai era agricultor, também não sabia de nada. Sei que a gente só escutava a rádio, mas não sabia de nada. Aqui a ditadura passou despercebida."

Aos 27 anos, em 1975, Tânia Maria de Medeiros Filha engravidou. "Fui muito discriminada. O povo não queria saber de mãe solteira, era mulher sem futuro, né? Mas eu queria ser mãe." Trabalhava como orientadora de saúde numa Unidade Básica de Saúde, mas teve de deixar o emprego. "Um chefão fez um abaixo-assinado para me tirar", lembra. "Fui lá na prefeitura e pedi demissão. Ele quebrou a cara." Criou a filha sozinha, sustentando a casa com o trabalho de costura, sem qualquer ajuda do pai da criança. 

A entrada no cinema aconteceu por acaso. Em 2018, a equipa de “Bacurau”, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, estava na região à procura de figurantes locais. A produtora de elenco, Renata Roberta, entrou em casa de Tânia. "Eu estava costurando e escutei umas conversas na sala de jantar. Quando chego e digo 'boa noite', ela diz 'é dela que estou precisando' e me perguntou se eu toparia ser figurante. Ganhando 50 reais todo dia, eu achei bom demais", lembra. “Eu só tinha que andar por ali e ainda me pagavam.”

“Ela era para ser uma figurante no filme”, contou o realizador numa entrevista. “Mas me chamou tanto a atenção que eu sugeri dar-lhe uma fala.” "Ele (Kleber) falou que quando o Lunga passasse perto de mim, que é o Silvero Pereira, que eu falasse algo da roupa dele. Então quando eu olhei uma roupa muito feia, aí eu disse "que roupa é esse menino?" e pronto, ficou”, recordou a atriz à CNN Brasil. A única fala de Tânia Maria em “Bacurau” rapidamente chamou a atenção na internet.

Assim, quando Mendonça Filho começou a escrever “O Agente Secreto”, não pôde deixar de pensar em Tânia Maria ao criar a personagem de Dona Sebastiana. “Ela é uma pessoa muito carismática”, justifica o realizador. “Direta, dura e, ao mesmo tempo, bem-humorada. Faz-me lembrar todas as senhoras mais velhas que conheci.” Apesar de não ter nenhuma formação em representação, Tânia Maria é natural, diz Kleber Mendonça Filho: “É alguém que acerta sempre, é uma grande atriz.”

“O Agente Secreto”, que está em exibição nos cinemas portugueses, é um thriller político que se passa no Brasil no final dos anos 70 e conta a história de um antigo professor, interpretado por Wagner Moura, que se encontra em fuga da brutal ditadura militar. Ao procurar refúgio num esconderijo na cidade de Recife, é recebido por Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria.

Sobre a personagem, a atriz diz: "Sou eu mesma. Quem passa na minha frente, eu acolho. Se precisar de ajuda, eu ajudo. Se precisar de uns cascudinhos, também dou." Tânia Maria atribui todo o entusiasmo à sua volta à sua autenticidade: “Acho que é por causa da minha simplicidade”, disse numa entrevista ao NY Times. "Eu sou essa pessoa. Eu sou a Dona Sebastiana".

“Na hora que eu estava filmando, eu só pensei em estar brincando ali com o Wagner Moura. Não pensei que seria esse sucesso enorme”, contou a atriz à CNN Brasil.

Vários críticos internacionais e revistas especialistas destacaram a sua atuação como uma das melhores de 2025 e incluíram-na nas listas de apostas para as nomeações para os Óscares na categoria de Melhor Atriz Secundária. Não aconteceu. “O Agente Secreto” conseguiu quatro nomeações: para Melhor Filme e Filme Internacional, Ator e Casting. Mas, mesmo sem estar nomeada, Tânia Maria é a revelação deste ano.

Durante os 11 minutos em que aparece em “O Agente Secreto”, Dona Sebastiana percorre o filme com um cigarro na mão ou não boca. Fumadora durante mais de 60 anos, Tânia Maria decidiu abandonar o tabaco depois do reconhecimento internacional ter passado a exigir deslocações e viagens longas. Chegou a recusar um convite para ir ao Festival de Cannes, em França, por não suportar as horas de voo sem fumar. "Eu fumava três carteiras por dia. Quer dizer que não tirava o cigarro da boca, né?" Em maio decidiu parar para não perder mais nenhuma oportunidade. "Se quiserem contratar a Tânia Maria agora, é sem o cigarro. Eu posso colocar um cigarro na mão, mas não vou fumar", garante. 

Com o passaporte pronto, a atriz aguarda agora o visto americano para viajar. "Meu sonho agora é ir para o Oscar. Botei isso na cabeça. Eu quero ir, eu vou."

Apesar da projeção internacional, Tânia mantém hábitos simples e continua a morar em Santo Antônio da Cobra. A principal diferença é que em vez da costura, agora tem os dias ocupados com filmagens, entrevistas e viagens. "A vida de atriz é melhor”, confessa. E mesmo protegida por óculos escuros, Tânia Maria de Medeiros Filha não pode sair à rua sem que os fãs a abordem. “Onde quer que eu vá, as pessoas reconhecem-me”, diz. “É maravilhoso. Mas não me subiu à cabeça.".

A sua carreira está só a começar. "Idade não tem validade. Eu não sou velha", afirma. "Tenho facilidade de decorar, não sou surda. Eu só tenho uma dificuldadezinha de caminhar, mas segurando a minha mão, melhora." Depois de “O Agente Secreto”, está no elenco de “Yellow Cake”, filme de ficção científica dirigido por Tiago Melo que se estreou no Festival de Roterdão, nos Países Baixos, este mês. E também vai entrar na série policial “Delegado”, prevista para 2026 no Canal Brasil.

"Estou esperando que venham mais, mais e mais. Eu quero muitos trabalhos. É muito bom", disse à CNN Brasil. "Não sou velha, sabe? Estou apenas a começar."

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