SUPERCRÓNICA BRASIL 3-0 HAITI || A equipa de Carlo Ancelotti entrou em campo contra um fraco Haiti. A disparidade técnica ficou evidente e, sem grandes dificuldades, os pentacampeões garantiram a sua primeira vitória na competição
Há muitos jeitos possíveis para vencer um jogo de futebol. Os Países Baixos de 74 revolucionaram o mundo com um jogo ofensivo, em momentos até desorganizado, mas que deixava qualquer (ou quase, afinal perderam para a Alemanha na final) adversário desconcertado com um show de Cruyff. Por outro lado, Guardiola, inspirado em tudo o que aprendeu com o ídolo neerlandês, imortalizou o domínio da bola como estratégia para achar espaços, dominar os rivais e vencer campeonatos. Há, ainda, quem prefira uma equipa fechadinha (não é, Mourinho?) que avance em contra-ataques rápidos e letais (Abel Ferreira fez bem isso no Palmeiras em 20-21 quando ainda tinha o carinho de todos os adeptos).
Enquanto isso, há muitos outros jeitos de perder uma partida de futebol. O guarda-redes pode errar (ou podem convencer o mundo de que errou. Barbosa em 50 perdeu a carreira e a taça no Maracanazo). A outra equipa pode, claro, ser superior, afinal ninguém joga sozinho. Ainda - talvez o mais surpreendente de todos - pode-se avançar as linhas, atacar de maneira desorganizada e deixar espaços na defesa contra um ataque liderado por Vinícius Júnior. Receita para o fracasso seguida à risca pela equipa haitiana.
O Brasil entrou em campo e durante 20 minutos parecia o mesmo que empatou de maneira quase vexatória contra Marrocos. Num jogo que, até ali, não tinha nada de interessante, a crónica estava desenhada para tratar de outros assuntos. Enquanto o Brasil passava de um lado para o outro sem conseguir finalizar ou gerar chances de perigo, o mundo continuou como se o Mundial não existisse.
O caos político que assola o país, e certamente todos os desdobramentos do escândalo de corrupção que envolve nomes ligados ao governo Lula, a família Bolsonaro e tantos outros, não fez uma merecida pausa enquanto Raphinha estava fora de jogo uma, duas vezes quando teve chances de marcar. Na terceira oportunidade - desta vez em posição legal -, a guerra na Ucrânia não deu tréguas, o Médio Oriente continuou com uma paz instável e Raphinha errou mais uma vez: finalizou fraco, e Placide fez uma defesa tranquila.
Mas a partir dos 20 e tal minutos o Brasil começou a entender melhor o jogo. O Haiti estava desesperado: perdeu para a Escócia e precisava de somar três pontos para sonhar com uma histórica classificação para a fase a eliminar. E, como Ícaro, tentou voar perto demais do sol, queimando as asas antes de chegar ao seu destino, um pouco à imagem do que Curaçau fez com a Alemanha, mas ainda mais suicida.
O Brasil, então, realmente entendeu o que deveria ser feito. Antes disso, o jogo era mental. Milhões criticaram o desempenho contra Marrocos, outros milhões questionam a possibilidade de a seleção pentacampeã garantir mais um título mundial. E isso parece pressionar até os atletas mais experientes. Queriam mostrar rapidamente que todos estavam errados, que Ancelotti sabe o que faz e que todos os membros daquele plantel merecem a confiança dos brasileiros. Eventualmente, a emoção foi embora e deu lugar à racionalidade.
Casemiro, desta vez sem estar sobrecarregado, já que o adversário pouco ocupou o setor do meio-campo, era capaz de dar a consistência necessária para Bruno Guimarães e Paquetá se focarem no que mais importa: a criação. Os dois recebiam, levantavam a cabeça e procuravam Vinícius Júnior do lado esquerdo do ataque, e o número 7 começou a criar problemas e mais problemas à defesa haitiana.
Eventualmente, finalizou mal, Placide soltou para a frente e Matheus Cunha marcou o primeiro. Não muito tempo depois, Vini Jr. recebeu, de novo, em liberdade. Correu sozinho e serviu o avançado que marcou pela segunda vez. Ainda antes do final da primeira parte, ainda deu tempo do número 7 balançar as redes também.
O Haiti é, certamente, uma das equipas mais fracas deste Mundial, mas isso não tira a importância de uma atuação e de uma goleada imponente. Mesmo sem volume de jogo - o Brasil conseguiu criar principalmente nos erros adversários, não em pressão constante no campo de ataque -, o resultado levanta os ânimos da seleção que ainda luta pela primeira posição do grupo C. Acima disso, alguns nomes precisavam de uma atuação consistente e de protagonismo.
Raphinha é um, mas acabou por sair lesionado antes de conseguir recuperar na segunda parte (no ritmo que estava, talvez fosse difícil, mas certamente nada é impossível). Matheus Cunha com dois golos ganha confiança e, provavelmente, a posição definitiva no 11 inicial, ainda mais quando disputa posição com Endrick (não é o favorito de Ancelotti) e Igor Thiago (teve uma estreia para esquecer contra Marrocos). Mas o protagonismo que caiu nos colos de Vinícius Júnior mostrou para todos que o avançado do Real Madrid é capaz de liderar a equipa, e que Neymar não é necessário para o Brasil vencer.
Neymar, inclusive, que não chegou a viajar com a equipa para enfrentar o Haiti. Possivelmente a escolha mais polémica da equipa técnica entre os 26 nomes escolhidos, o ex-craque já mostrou diversas vezes que não é capaz de se exibir como antes. Mesmo jovem (tem 34 anos, quatro a menos que Messi que se estreou com um hat-trick pela Argentina), briga contra o próprio corpo, contra críticos na Internet e certamente não é confiável para quem espera um génio dentro de campo que seria capaz de levar a seleção ao topo do mundo.
Vinícius Júnior parece assumir essa função. E já era hora. Há anos titular do Real Madrid, o avançado pouco convenceu os brasileiros em atuações passadas pela Amarelinha. Contra o Haiti, deu sinais de que tudo pode ser diferente.
Com 3-0 no marcador - e reflexões futebolísticas à parte - o jogo continuou parecido na segunda parte. O Haiti já sabia que não seria possível, e o Brasil queria mais e mais para não correr qualquer risco de ficar no segundo lugar. Ancelotti olhou para o banco e tomou a decisão que muitos pediam e poucos esperavam: Endrick foi chamado, formando um ataque com bastante potencial ao lado de Martinelli, Vini Júnior e Rayan.
Os jogadores escolhidos nos 45 minutos finais contam com um toque especial nos pés. Não é à toa que Vinícius é titular absoluto do Real Madrid, que Endrick é a venda mais cara da história do futebol brasileiro e que Rayan é o mais jovem a ser convocado para um Mundial pelo Brasil desde Ronaldo Fenómeno em 1994. O jogo bonito, com eles, poderia ser realidade. O retorno das origens brasileiras que há muito tinham sido esquecidas.
No entanto, a teoria é muito diferente da prática. A capacidade brasileira de se impor ao longo da segunda parte diminuiu consideravelmente. A equipa parecia mais interessada em gerir o resultado e o físico (Raphinha saiu com problemas musculares, não há dúvidas de que ninguém gostaria de acompanhá-lo nos atendimentos médicos durante uma competição tão importante e com o calendário tão reduzido) do que garantir um maior saldo de golos que pode ser fundamental num eventual desempate pelo primeiro lugar. A equipa parou de finalizar, não aproveitou os espaços deixados pelo Haiti e, assim, o cronómetro calmamente atingiu os 90 minutos com 3-0 no marcador.
Momentos do jogo
A primeira parte do Brasil foi 🔥
— sport tv (@sporttvportugal) June 20, 2026
Bis de Matheus Cunha e outro de Vini Jr. valem a vantagem ao intervalo 🇧🇷#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Brasil #Haiti #betano pic.twitter.com/c0uX34SU5T
O melhor
Vinícius Júnior foi indiscutivelmente o melhor jogador brasileiro em campo. Participou em todos os golos e em outras inúmeras oportunidades desperdiçadas pela equipa brasileira. Foi um jogo animador, apesar de um adversário fraco, que pode dar confiança para o que resta da competição.
O pior
A estratégia haitiana não fez sentido. Contra uma equipa rápida - ainda mais treinada por Ancelotti, que tem um histórico bastante relevante de conjuntos que sabem contra-atacar com qualidade -, deixar tantos espaços para Vinícius Júnior avançar em velocidade mostrou-se um erro fatal. A partida foi resolvida ainda na primeira parte com as ótimas participações do camisola 7 e de Matheus Cunha.
A surpresa
Matheus Cunha certamente surpreendeu até os adeptos mais otimistas. O avançado não fez boas partidas pela seleção antes do Mundial e recebeu uma oportunidade após Igor Thiago não corresponder diante de Marrocos. É seguro dizer que agarrou a chance e não deve sair tão cedo do 11 inicial de Carlo Ancelotti. Outros nomes que merecem destaque são Bruno Guimarães e Douglas Santos, que fez mais um bom jogo neste Mundial.
