A revolta popular contra o sistema, contra a promiscuidade entre partido e Estado, encontrou em Bolsonaro a sua expressão mais radical. O bolsonarismo é, em última instância, o filho bastardo do lulismo
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.” A canção de Chico Buarque, escrita contra a ditadura militar e transformada em hino de resistência, ecoa hoje com ironia na política brasileira. Porque o amanhã chegou, mas não foi outro dia. O Brasil reencontra-se consigo mesmo em mais um julgamento histórico, desta vez o de Jair Bolsonaro, e percebe que, na alternância entre presidentes e tribunais, a democracia tem sido, ela própria, o réu oculto. O que era para ser um país a reinventar-se pela política, tornou-se uma democracia sequestrada por processos judiciais, em que a Justiça substitui as urnas como palco principal do conflito.
O julgamento de Bolsonaro, acusado de conspirar para um golpe de Estado, de organizar uma estrutura criminosa e de elaborar um plano com o quase poético nome de “Punhal Verde e Amarelo”, é o maior teste institucional do Brasil desde a redemocratização. É uma acusação sem precedentes, que pode levar o ex-presidente a mais de três décadas de prisão. Mas o essencial não está apenas na gravidade do processo: está na sua leitura política. Porque a história repete-se em espelhos deformados. Se Lula foi condenado e preso, para depois ver as condenações anuladas, Bolsonaro enfrenta agora o peso de uma Justiça decidida a afirmar a sua autoridade, mesmo correndo o risco de parecer demasiado política.
E aqui entra a grande ironia brasileira. Quem criou Bolsonaro? Quem lhe deu legitimidade, quem lhe ofereceu combustível para se transformar no messias improvável de milhões? Não foi a Igreja evangélica sozinha, não foi o moralismo da “família de bem”, nem sequer o antipetismo difuso. Foi Lula da Silva. Ou, melhor dizendo, foi o PT. Os anos de escândalos, a máquina estatal usada como ferramenta de perpetuação no poder, os esquemas que sugaram milhões através de empresas estatais como a Petrobras, o Mensalão, o Petrolão, José Dirceu e tantos outros nomes que se tornaram sinónimos de corrupção. Tudo isso criou a atmosfera que pariu o bolsonarismo. A revolta popular contra o sistema, contra a promiscuidade entre partido e Estado, encontrou em Bolsonaro a sua expressão mais radical. O bolsonarismo é, em última instância, o filho bastardo do lulismo.
O Brasil, até à chegada de Bolsonaro, dividia-se menos por ideologia e mais por pertença social e regional. Havia ricos e pobres, havia a classe média urbana que se revia em Fernando Henrique Cardoso e o operariado que se via em Lula. O corte entre esquerda e direita nunca foi claro. Foi a corrupção do PT, somada ao desencanto com o sistema, que abriu espaço para um discurso moralista, vingativo, revanchista — revanchista no sentido literal da palavra: um olhar para o passado com desejo de ajuste de contas. A política, que antes se dividia em blocos sociais, passou a dividir-se em campos ideológicos antagónicos, com a religião evangélica a desempenhar o papel de cimento cultural para esse novo conservadorismo.
Hoje, com Lula de novo no Planalto e Bolsonaro sentado no banco dos réus, o país vê-se perante um dilema. Julgar é necessário? Sim, sem dúvida. Nenhuma democracia sobrevive se aceitar tentativas de golpe de Estado como meros excessos. Mas transformar o Supremo Tribunal Federal em árbitro permanente da política é uma outra coisa: é fragilizar a própria democracia. O Brasil arrisca-se a repetir a mesma tragédia com atores diferentes. O processo contra Lula, mais tarde anulado, foi o início da judicialização da política. O processo contra Bolsonaro pode ser o seu aprofundamento.
Não se trata de inocentar Bolsonaro. O que está em causa é maior do que ele. O que está em causa é perceber se a democracia brasileira consegue resolver os seus conflitos através da política, ou se continuará a ser o Supremo a escrever o guião dos seus dias mais decisivos. A democracia é uma peça de teatro: precisa de palcos, precisa de atores, precisa de público. Mas quando os tribunais tomam o lugar dos partidos, quando os juízes se tornam protagonistas em vez de árbitros, a peça deixa de ser democrática e transforma-se em drama judicial.
O que vemos hoje é o resultado de duas décadas de erosão institucional. Lula governou com uma lógica de hegemonia, ocupando a máquina do Estado de cima a baixo. O PT confundiu partido com país. O resultado foi a corrupção em escala industrial, a perda de confiança popular e a abertura de espaço para um outsider que prometia o contrário: limpeza, ordem, bons costumes. Bolsonaro nasceu dessa indignação. Foi a versão política do “basta”. Mas como acontece com todos os excessos, o antídoto tornou-se veneno. O “basta” transformou-se em autoritarismo, em negação da democracia, em tentativa de golpe.
Agora, com Bolsonaro no banco dos réus, repete-se o dilema. Prendê-lo pode parecer justiça, mas também pode consolidar a ideia de perseguição política que alimenta o seu movimento. A absolvição poderia parecer fraqueza institucional. Entre os dois riscos, o Brasil continua a oscilar como se fosse uma democracia adolescente, incapaz de amadurecer.
É aqui que a frase de Chico Buarque volta com ironia. “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.” O problema é que esse amanhã nunca chega. Porque, se ontem foi o julgamento de Lula e hoje é o julgamento de Bolsonaro, a democracia brasileira continua a viver num presente eterno, em que os tribunais julgam em vez de os partidos governarem, e em que a alternância no poder não traz renovação, apenas novos réus.
A questão de fundo é clara: enquanto a política não se regenerar, enquanto os partidos não recuperarem a sua credibilidade, enquanto as instituições não forem capazes de representar em vez de manipular, o Brasil continuará neste ciclo infernal em que a política se decide nos tribunais. E isso é letal para qualquer democracia.
Se Lula, com os seus pecados, criou Bolsonaro, cabe agora ao Brasil decidir se quer continuar a viver de filhos pródigos e pais irresponsáveis. A democracia, para sobreviver, tem de deixar de ser tribunal e voltar a ser política. Porque amanhã, se tudo continuar assim, não será outro dia. Será apenas a repetição cansativa do ontem.