Bolsonaro, o autodesignado "imbrochável", aproveitou para fazer campanha ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa - que negou ter estado desconfortável

7 set, 17:55

Presidente da República de Portugal apareceu quase sempre ao lado do presidente brasileiro, mas houve momentos em que um empresário que está a ser investigado pela polícia ficou no lugar de Marcelo

O Brasil comemorou esta quarta-feira os 200 anos da independência de Portugal, numa cerimónia que contou com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa, entre outros chefes de Estado de países de língua portuguesa. Jair Bolsonaro apareceu em Brasília para um discurso tudo menos agregador: em vez disso, e em plena campanha eleitoral para as presidenciais, o chefe de Estado brasileiro decidiu utilizar o momento para se promover, num dia em que também disse que "a história pode repetir-se", quando fazia uma alusão à ditadura militar. Pelo meio, elogios à mulher e comparações com as mulheres dos candidatos - e até com as primeiras-damas de outros países.

Sustentado por um camião com apoiantes, que foi estrategicamente colocado na Esplanada dos Ministérios, onde antes do discurso decorreu o desfile militar, Jair Bolsonaro afirmou que no próximo dia 2 de outubro "a vontade do povo se fará presente", pedindo a todos os brasileiros que votem, mesmo aqueles que "pensam diferente". "Vamos convencê-los do que é melhor para o nosso Brasil", afirmou, falando para os apoiantes.

“A nossa liberdade é essencial para a nossa vida”, afirmou o chefe de Estado brasileiro, lembrado o ataque sofrido com uma faca há quatro anos durante a sua primeira campanha presidencial: “Deus deu-me uma segunda vida e missão”.

Num tom por vezes ameaçador, como já tem feito noutros momentos da campanha, Jair Bolsonaro voltou a referir-se à eleição como uma luta entre o bem e o mal - que diz ter durado 14 anos, numa referência aos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, dizendo que, com uma reeleição vai "trazer para dentro das quatro linhas da Constituição aqueles que ousam ficar fora delas".

“Não voltarão”, exclamou, para regalo dos milhares de apoiantes que entoaram um dos clássicos cânticos contra Lula: “Lula ladrão, seu lugar é na prisão”.

Vendo a Esplanada dos Ministérios coberta de verde e amarelo, Jair Bolsonaro afirmou duvidar das sondagens que o colocam em segundo lugar na corrida presidencial. “Aqui não tem a mentirosa Datafolha [a mais famosa empresa de sondagens do Brasil], aqui é o datapovo”, disse, frisando: “a vontade do povo far-se-á presente no 2 de outubro”.

O "bem e o mal" também já tinham sido referidos durante a manhã, quando o presidente brasileiro visitou vários momentos da história do país, entre os quais o golpe militar de 1964, que instaurou uma longa ditadura. "A história pode repetir-se. O bem sempre venceu o mal", referiu, naquilo que os brasileiros estão a interpretar como palavras de apoio à ditadura militar, sendo conhecidos outros momentos em que Jair Bolsonaro confirmou ser a favor desse regime. Em 2021, por exemplo, sugeriu que, se dependesse dele, "não seria este o regime" do Brasil.

Os elogios à mulher (e um momento à Bolsonaro)

Se não tinha ficado claro que o presidente brasileiro pretendia utilizar o momento para campanha, tudo se esclareceu quando também a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, foi chamada a falar. "Não estamos aqui por poder, muito menos por status: estamos aqui para cumprir um chamado", disse, afirmando que "o inimigo não vai vencer".

Jair Bolsonaro utilizou a palavra "princesa" para mencionar a sua mulher e foi também essa a palavra utilizada imediatamente antes de comparações com as mulheres dos outros candidatos, ainda que sem mencionar nenhuma.

"Podemos ter várias comparações [entre candidatos], até entre as primeiras-damas. Ao meu lado uma mulher de Deus, de família e ativa na minha vida. Ao meu lado não, muitas vezes está à minha frente", disse, antes de lançar uma expressão que no Brasil é vista como machista: "imbrochável", que designa um homem sexualmente viril. A palavra surgiu depois de um beijo a Michelle Bolsonaro e começou a ser entoada pelos apoiantes.

"Tenho falado com homens que estão solteiros: procurem uma mulher, uma princesa, casem-se com ela, para serem mais felizes ainda", acrescentou.

Marcelo ao lado de Bolsonaro (mas nem sempre)

Marcelo Rebelo de Sousa ficou a maior parte do tempo entre o presidente e o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, enquanto os outros dois chefes de Estado presentes em Brasília, Umaro Sissoco Embaló, da Guiné-Bissau, e José Maria Neves, de Cabo Verde, ficaram um pouco mais afastados, junto à mulher de Jair Bolsonaro, Michelle.

Durante algum tempo, o lugar do chefe de Estado português na tribuna foi tomado pelo empresário brasileiro Luciano Hang, apoiante de Bolsonaro, que teve acesso ao espaço do próprio desfile, onde foi saudar a multidão.

Jair Bolsonaro, Luciano Hang e Marcelo Rebelo de Sousa (Manuel de Almeida/Lusa)

Luciano Hang é um dos oito empresários que estão a ser investigados pela Polícia Federal por suspeitas de defenderem um golpe de Estado caso o ex-presidente Lula da Silva vença as eleições presidenciais.

Questionado pelo caráter de campanha em que esteve envolto o desfile, Marcelo Rebelo de Sousa optou por falar num "gesto histórico", negando desconforto por estar ao lado de Jair Bolsonaro.

Em declarações à comunicação social num hotel em Brasília, Marcelo Rebelo de Sousa disse que "de onde estava não ouvia" as palavras de ordem que foram gritadas pela multidão em apoio ao Presidente do Brasil e contra Lula da Silva, seu adversário na campanha em curso para a eleição presidencial de 2 de outubro.

Questionado se estava confortável por ter estado nesta cerimónia, o Presidente português respondeu: "Sim, sim".

"Eu estou aqui para representar Portugal num momento histórico, fosse qual fosse o Presidente. As pessoas têm de perceber o seguinte: a campanha eleitoral dura X tempo, o mandato do Presidente dura muito mais e a História de 200 anos dura muito mais. E o que fica para a História é que Portugal esteve presente num momento histórico", declarou.

"Eu venho aqui num gesto histórico. Este é um momento histórico, e não é histórico por haver uma eleição, é histórico porque são 200 anos de vida de um Brasil independente, que é um orgulho para nós", acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa.

O Presidente português argumentou ainda que "Portugal tem relações diplomáticas com democracias e com ditaduras", referindo que recebeu chefes de Estado e visitou países "independentemente de os regimes serem parecidos ou não, de as personalidades serem parecidas ou não, de as conjunturas políticas serem parecidas ou não".

"O que interessa é que há um milhão de portugueses a viver no Brasil e há 250 mil brasileiros a viver em Portugal e esses continuarão a viver qualquer que seja o Presidente, qualquer que seja o Governo, e a minha função é representar a nação portuguesa", defendeu.

Milhares de apoiantes do presidente brasileiro concentraram-se desde o início da manhã na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, num ato que também serviu de comemoração dos 200 anos da independência do Brasil, e que foi marcado por um forte tom eleitoral.

A data cívica que marca os 200 anos da separação do Brasil de Portugal transformou o Rio de Janeiro numa grande palco da campanha eleitoral de Bolsonaro, que desde a primeira eleição defende lemas conservadores como "Deus, Pátria e da Família" e que estão a ser reforçadas pelos seus apoiantes em Copacabana.

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