"Na vida, você tem que se arriscar". Gustavo sonha voar do Brasil para trabalhar na hotelaria em Portugal (e eis uma solução para a falta de mão-de-obra)

3 set, 17:00
Vila Galé Alagoas

Na hotelaria brasileira mais de 90% dos clientes são do próprio país, e a falta de contacto com estrangeiros pode criar uma barreira na hora de trabalhar em Portugal. Mesmo assim, há mais brasileiros interessados em cruzar o Atlântico. No grupo Vila Galé, os programas de intercâmbio estão a ganhar escala - e atenuam a falta de mão-de-obra no turismo português

A coluna de som enche o espaço à volta da piscina. Gustavo da Silva vai aproveitando as músicas pop que fazem sucesso internacional. Ele sabe o ritmo de cor, vai-se moldando nele no turno que começa no balcão das toalhas, à disposição dos que querem um lugar ao sol. “Durante o dia, gosto mais de estar na piscina. Há água, dança, festa”. Nos hits brasileiros, a letra também não falha.

É o seu primeiro emprego como animador num hotel. Desde maio que os dias deste jovem de 23 anos nunca mais foram iguais - nem os seus nem os de outros 300 trabalhadores naturais do município de Barra de Santo Antônio, no estado brasileiro de Alagoas, que tem cerca de 16 mil habitantes e onde a pesca é a principal fonte de sustento.

Gustavo trabalha na décima unidade do grupo português Vila Galé no Brasil. Ali, a hotelaria ainda é uma descoberta. “Quando surgiu a oportunidade da hotelaria, não tinha noção dos setores que havia", recorda. "Quando vi animação, me encantou de primeira. Quando era mais novo, fiz teatro. Então tinha tudo a ver. Estava na hora de mostrar um pouco”.

Teve de aprender “tudo do zero” para o novo desafio. Gustavo já tinha trabalhado como empregado de mesa e repositor de mercadorias. Mas, no novo emprego, há coisas que o cativam bem mais: o contacto com pessoas de realidades diferentes – e a possibilidade de fazer um intercâmbio em Portugal.

“A vontade de ir para Portugal já existia antes de trabalhar aqui. Sempre quis levar minha arte pelo mundo fora. Quando fiquei sabendo sobre a relação de intercâmbio, não pensei duas vezes”. Gustavo da Silva nunca saiu do Brasil. Mas sabe que em Portugal faltam trabalhadores. O grupo Vila Galé encara o envio de colaboradores brasileiros como uma forma de atenuar o problema, tirando inclusive partido de a época alta em Portugal corresponder ao inverno no Brasil. Neste momento, nas áreas da animação e restauração, há 10 trabalhadores ao abrigo deste programa.

Mas muitos outros, como Gustavo, querem juntar-se.

O Vila Galé Alagoas foi inaugurado oficialmente a 27 de agosto

Quantidade vs. Qualidade

Gustavo começou o primeiro emprego na hotelaria já com a vontade de rumar a Portugal. “Pode ser considerado rápido, mas o plano de ir a Portugal não é para agora. É um plano a longo prazo. De adquirir experiência, até noutros resorts do Brasil”, ressalva.

Até porque para o grupo Vila Galé, com 27 hotéis em Portugal e 10 no Brasil, é necessário cumprir um conjunto de critérios para cruzar o Oceano Atlântico. A começar pelo tempo de "casa", no mínimo de dois anos, aliado à formação e a uma boa avaliação de desempenho. É também privilegiada a mobilidade interna, com passagens por outras unidades no Brasil. Haverá depois um intervalo temporal para a troca entre países. Mas, como em tudo, há exceções: por exemplo, dois cozinheiros, que vieram para o Porto antes da pandemia que acabaram por ficar a trabalhar em Portugal.

No Brasil, que tem uma população bastante jovem, não faltam candidatos. Só neste grupo trabalham 2500 pessoas. “Tenho uma grande captação, mas são pessoas dispostas e disponíveis a tornarem-se hoteleiros. No que respeita à formação, não temos um grande número de currículos prontos para a hotelaria. O nosso grande desafio é formar, sobretudo longe das grandes cidades, ontem temos implantado resorts”, explica Marina Mendonça, coordenadora da área de treino e seleção dos hotéis Vila Galé no Brasil.

Se outrora o Brasil foi visto por portugueses como uma oportunidade para enriquecer o currículo na hotelaria, hoje o cenário inverte-se. Candidatos como Gustavo já vêm atraídos pela oportunidade de uma experiência europeia. Porquè? “Todos me falam na qualidade de vida, na expectativa de estar num país considerado mais seguro, com melhores cuidados de saúde. Muitos estavam em áreas de liderança e vão para fazer funções mais operacionais quando vão para Portugal”, revela a gestora.

Mas para quem faz o recrutamento, mesmo sabendo que as escolhas ajudam a colmatar um problema cada vez mais notório em Portugal, “dá sempre aquele aperto no coração”, reconhece. “Deixar ir é como uma mãe deixando um filho sair de casa. Entendo que faz parte do processo. E não deixa de ser um sucesso para nós, porque estamos formando e entregando profissionais de qualidade”, confessa Marina Mendonça.

Segurança é um dos argumentos de peso na mudança para a Europa

Barreiras à mudança

Para atrair mão-de-obra estrangeira para o setor do turismo, o Governo português aprovou em junho a criação de um visto para procura de trabalho, permitindo aos estrangeiros estar no país durante seis meses. As novas regras ainda não estão em vigor. Mas, apesar deste passo, há outras barreiras para quem queira partir da hotelaria brasileira para a portuguesa. A oferta, tal como o mercado, é diferente.

A começar pela escala, explica o administrador Gonçalo Rebelo de Almeida. Por exemplo, o recém-inaugurado Vila Galé Alagoas tem 513 quartos, número o que não tem paralelo em Portugal. Depois há o desafio da língua, de falar para lá do português, seja com que sotaque for: “Em Portugal têm de lidar com múltiplas nacionalidades, coisa a que no Brasil não estão habituados, porque 90% dos clientes são brasileiros”.

Mudar de país também implica encontrar casa. Se nos programas de intercâmbio, o grupo vai disponibilizando alojamento, a falta de habitação acessível ou nas proximidades do hotel, aliada a uma rede de transportes ineficiente, diz o responsável, pode tornar a decisão de emigrar e trabalhar na hotelaria uma verdadeira dor de cabeça – sobretudo no interior, onde a cadeia tem apostado em força.

Ainda assim, Gonçalo Rebelo de Almeida diz-se empenhado em alimentar esta solução, apostando “cada vez mais em programas de intercâmbio”. “Temos uma escola muito grande, onde formamos profissionais. Essa mobilidade serve como motivação”, diz.

 

Gustavo da Silva está disposto a trocar as praias do Brasil pelo interior de Portugal

Cadeira giratória

O lugar favorito de Gustavo da Silva é a discoteca. Lá encontra as réplicas das cadeiras giratórias do programa de talentos “The Voice”. Senta-se para a foto, de sorriso armado. Mas é o palco que o chama. À noite, conta, gosta quando existem peças de teatro para apresentar. Por estes dias de inauguração do hotel, com um programa cheio de atividades para os hóspedes, o lado dramático vai tomando conta de todos os espaços do resort, em especial na área dedicada aos mais novos.

“O que a gente faz é arte. E arte é transmitir amor para as pessoas. A gente conhecer outra cultura, que é Portugal, e poder levar um pouco dessa arte do Brasil para lá é importante. Primeiro quero me aperfeiçoar aqui, aprender o máximo. E depois ir para lá e levar todo o conhecimento que adquiri”, refere.

O plano está montado, admitindo mesmo passar pelo interior de Portugal e deixando as grandes cidades para outros. “Ver o sorriso daquilo que a gente faz no rosto dos hóspedes é gratificante”. E não há medo em sair da terra natal, rumo ao desconhecido? “Na vida, você tem que se arriscar. Estou levando a minha arte. Não importa as dificuldades que eu vou encontrar”.

 

*o jornalista viajou para Barra de Santo Antônio, no Brasil, a convite do grupo Vila Galé

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