Lula adiou a festa, Bolsonaro prometeu vencer. O que precisa saber sobre as eleições no Brasil

3 out, 05:17
Apoiante de Lula da Silva

Com 48,36%, Lula ganhou, mas não evitou a segunda volta. Com 43,26%, Bolsonaro ficou em segundo, mas derrotou as sondagens e mostrou-se com novo fôlego para o tira-teimas, marcado para dia 30. A terceira classificada pode ser decisiva

O resultado de Lula da Silva ficou aquém das expectativas; o de Jair Bolsonaro saiu melhor do que as previsões. Lula venceu a primeira volta das eleições presidenciais no Brasil, mas os 48,36% que alcançou não chegaram para dispensar a segunda volta, ao contrário do que indicavam diversas sondagens. O resultado de Lula, próximo dos 50%, caiu dentro do intervalo apontado pelos estudos de opinião. 

Quanto a Bolsonaro, ficou bastante acima daquilo que era apontado pelas sondagens, o que levou o presidente em funções a declarar que “as pesquisas de opinião estão desmoralizadas”. Apesar de ter ficado em segundo lugar, os seus 43,26% tiveram o sabor a meia vitória - impediu Lula de vencer já, e pôde cantar vitória sobre as sondagens, que em alguns casos o colocavam bem abaixo dos 40%, conforme Bolsonaro fez questão de lembrar esta noite.

Pela primeira vez um presidente em funções não ficou em primeiro lugar na primeira volta da disputa de reeleição. Por outro lado, nunca os dois principais candidatos ficaram tão perto um do outro na primeira volta. O tira-teimas está marcado para 30 de outubro, com mais quatro semanas de campanha pela frente. 

A festa dos apoiantes de Lula, que se concentraram na Avenida Paulista, em São Paulo, em frente ao hotel onde estava o candidato, ficou a meio gás. Os apoiantes de Bolsonaro, que nem sonhavam em preparar qualquer festa, acabaram por ter motivos para sorrir. E foi assim, neste choque entre realidade e expectativas, que a noite eleitoral brasileira se apresentou como se fosse o mundo ao contrário: o vencedor, Lula da Silva, clamou vitória mas apresentou-se de ombros caídos e rosto fechado; e o presidente derrotado, Bolsonaro, apresentou-se com a habitual pose de arrogância e afirmou ter “confiança total” na vitória na segunda volta.

Para além da vitória sobre as sondagens, Bolsonaro teve mais razões para sorrir: apesar do seu desgaste e da grande rejeição por parte de muitos eleitores, o atual presidente conseguiu, nesta primeira volta, mais votos do que na primeira volta de 2018. Nas eleições anteriores, Bolsonaro passou à segunda volta com 49,2 milhões de votos - agora, Bolsonaro recolheu mais de 50,8 milhões de votos. É verdade que, percentualmente, Bolsonaro caiu na comparação entre as duas primeiras voltas: há quatro anos chegou aos 46%, agora ficou pouco acima dos 43%. Mas os números brutos mostram que o presidente em funções ainda conseguiu alargar a sua base eleitoral.

Porém, esta comparação com 2018 é ainda mais favorável a Lula. Há quatro anos, Fernando Haddad, que assumiu a candidatura do PT quando a Justiça impediu Lula de concorrer, teve 31,3 milhões de votos - este domingo, Lula fez disparar esse valor para os 56,6 milhões.

Terceira classificada indicia apoio a Lula

Numa eleição fortemente bipolarizada, todos os restantes nove candidatos acabaram por representar, no total, apenas 8,3% dos votos. A grande surpresa entre os pequenos foi o terceiro lugar da senadora Simone Tebet (MDB), que chegou aos 4,2%, com quase 5 milhões de votos. A surpresa pela negativa foi o quarto lugar de Ciro Gomes (PDT), que se ficou pelos 3%, bem longe dos 12,5% de 2018.

Simone Tebet não perdeu tempo a sinalizar que tenciona participar na discussão da segunda volta, tendo garantido que irá tomar posição sobre os dois candidatos que continuam na corrida e que já tem a sua decisão tomada. 

Numa curta declaração, a senadora deu um prazo de 48 horas para os presidentes dos três partidos que a apoiaram tomarem uma decisão sobre a segunda volta. No entanto, quaisquer que sejam as posições partidárias, Tebet já prometeu: "Não esperem de mim omissão. Tomem logo a decisão, porque a minha está tomada", disse a terceira candidata mais votada.

“Eu tenho um lado”, assumiu Tebet, prometendo: “Não vou me acobardar”. Durante a campanha a candidata evitou os ataques pessoais a Lula (ao contrário da generalidade dos outros concorrentes) e voltou a assumir essa postura nos debates. Agora, as suas palavras indiciam que poderá mesmo dizer aos seus eleitores que votem Lula na segunda volta. Tebet é senadora pelo estado de Mato Grosso do Sul, e há especulações sobre a possibilidade de vir a ser indicada para ministra da agricultura caso Lula venha a formar governo.

Embora a transferência de votos da primeira para a segunda volta não seja garantida, mesmo com indicação de voto dada pelos candidatos, o apoio de Simone Tebet poderá ser determinante para o desfecho desta eleição. Bastaria a Lula recolher menos de metade dos votos da senadora para sair vencedor no dia 30.

Quanto a Ciro Gomes, não deu qualquer pista sobre um futuro apoio - mas a sua postura face a Lula foi bem distinta da de Tebet. Ciro foi muito agressivo com Lula durante a campanha e os debates, e é improvável que venha a dar indicação de voto no antigo presidente (de quem chegou a ser ministro). Conhecidos os resultados, o candidato disse estar "profundamente preocupado com o que está a acontecer no Brasil" e considerou haver "uma situação potencialmente ameaçadora" para o futuro do país. "Nunca vi uma situação tão complexa, tão desafiadora e potencialmente ameaçadora sobre a nossa sorte enquanto nação", disse o candidato, que pediu tempo para pensar no seu próprio futuro.

Em 2018, quando ficou fora da segunda volta, Ciro Gomes recusou-se a dar qualquer indicação de voto aos seus eleitores. No entanto, não é impossível que o seu partido, o PDT, venha a endossar a candidatura de Lula, tendo em conta o histórico de colaboração entre este partido e o PT (para além de ter integrado governos de Lula, em 2010 o PDT apoiou a candidatura presidencial de Dilma Rousseff).

Lula varreu o nordeste; Bolsonaro conquistou o sul

Eram dez da noite em São Paulo (duas da manhã em Lisboa) quando Luís Inácio Lula da Silva e o estado maior do PT e da sua candidatura subiram ao palco do que devia ter sido uma festa, num hotel da cidade. Ali perto, na Avenida Paulista, outro palco estava montado e a rua estava cheia para uma celebração que nunca aconteceu. A vitória foi curta para resolver as eleições neste domingo, e a grande festa ficou adiada.

Antes de Lula falar, outros responsáveis do Partido dos Trabalhadores bem insistiam que “ter uma eleição em dois turnos significa ganhar duas vezes”, como disse Gleisi Hoffmann. a presidente do PT. Mas o ambiente era demasiado pesado para parecer de vitória. 

Isto, apesar de Lula ter ficado em primeiro lugar em 14 estados e no círculo da emigração (incluindo uma vitória muito contundente na votação em Portugal). Já Bolsonaro, venceu em apenas 12 estados, e na capital, Brasília. O vermelho do candidato do PT pintou praticamente todo o norte e nordeste do país (apenas o pequeno estado de Roraima destoou desta mancha vermelha). Bolsonaro levou a melhor nos estados do interior e do sul. Mas o atual presidente venceu também nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde se concentram os principais núcleos metropolitanos do país - uma vantagem que poderá ser uma das explicações para o bom desempenho de Bolsonaro no resultado final.

Por outro lado, as outras eleições que decorreram ontem também sorriram a Bolsonaro e aos seus aliados, com conquistas importantes no Congresso, no Senado e em corridas a lugares de governador e presidente de câmara.

Tanto no Senado como no Congresso há uma maioria clara dos partidos que apoiam o atual presidente, o que significa que, em caso de vitória, Lula terá pela frente um poder legislativo hostil - e a direita e centro-direita poderão voltar a acenar com processos de destituição, como aconteceu com Dilma.

Lula: “Vamo’ nessa, gente, que dia 30 está muito perto”

Neste cenário, era indisfarçável a desilusão no friso de figuras que acompanhavam em palco o candidato presidencial - entre elas, Geraldo Alckmin, o antigo rival de Lula que agora é o seu candidato a vice-presidente, e Dilma Rousseff, a sucessora de Lula que foi destituída. O rosto de Lula não era o de um vencedor - mas nunca deixou de ser o de um lutador.

“Eu sempre achei que a gente ia ganhar essas eleições, e quero dizer para vocês que nós vamos ganhar essas eleições. Isto para nós é apenas uma prorrogação”, declarou Lula. O ex-presidente recordou que nunca venceu uma eleição à primeira, e fez questão de lembrar que estava este domingo numa posição muito melhor do que aquela em que estava em 2018, no dia das anteriores eleições presidenciais: “Há 4 anos atrás eu era tido como um ser humano jogado fora da política. Eu disse que a gente retornaria com mais força, com mais disposição”.

Essa disposição, prometeu Lula, é agora de voltar à campanha, e enfrentar Bolsonaro em debates televisivos a dois, “tête à tête”. “Vamos deixar o segundo turno para poder debater só com ele”, para “fazer comparações com o Brasil que construí e o Brasil que ele construiu”, disse Lula, considerando que “o nosso país está pior […] e precisamos recuperar o nosso país”.

“Começo amanhã a fazer campanha”, prometeu Lula, assumindo também que o PT vai já começar as negociações para tentar conquistar o apoio de alguns dos candidatos que agora ficam pelo caminho. “A nossa presidente [Gleisi Hoffmann, do PT]  vai conversar com  outras forças políticas que disputaram as eleições”, confirmou Lula, que viu neste prolongamento da campanha um dado positivo: a hipótese de “construir um leque de alianças, de apoios, antes de você ganhar”.

Talvez já a pensar na necessidade de alargar a base de apoio, Lula não se apresentou vestido de vermelho, a cor do seu partido. Antes de se dirigir aos muitos apoiantes que se recusavam a desmobilizar na Avenida Paulista, Lula exortou as suas tropas a pôr mãos à obra: “Vamo’ nessa, gente, que dia 30 está muito perto.”

Bolsonaro: Brasil “só tem dados positivos”

Quase uma hora depois de Lula, também Bolsonaro falou. Sem festa, nem palco, nem multidão de apoiantes à sua espera, falou no meio da rua, em frente a um automóvel cinzento e com cara de poucos amigos. Com uma plateia composta apenas por jornalistas, respondeu às questões que lhe convinham e destratou os jornalistas que lhe colocavam perguntas difíceis - depois de meses a levantar suspeitas sobre a segurança do sistema eleitoral, nunca respondeu à pergunta sobre se terá havido fraude nesta primeira volta.

Apesar desta atitude, Bolsonaro apresentou-se com um discurso moderado, reconhecendo que muitos brasileiros querem a mudança, mas tentando alertá-los de que mudar pode ser pior do que continuar. E tentou também reescrever a história da pandemia de covid-19 no Brasil, louvando o papel do seu governo tanto na resposta ao vírus como no relançamento da economia.

“Há uma vontade de mudar por parte da população, mas certas mudanças podem ser para pior. E a gente tentou durante a campanha mostrar esse outro lado. Parece que não atingiu a camada mais importante da sociedade”, reconheceu o presidente em funções, prometendo insistir nessa mensagem durante as quatro semanas que faltam até à segunda volta.

“Há um sentimento de [algumas] pessoas de que a vida delas ficou um pouquinho pior [com a pandemia] na questão económica. A gente reconhece isso. Mas vamos mostrar que reconhecemos que o poder aquisitivo delas caiu, mas a economia está recuperando bem e isso será positivo dentro de pouco tempo”, explicou Bolsonaro, lembrando as intervenções do seu governo para fazer baixar os preços de produtos essenciais como a gasolina ou a eletricidade. O presidente brasileiro espera que o impacto dessas medidas se faça sentir mais durante o mês de outubro, e confia também na recuperação da economia brasileira que, na sua opinião, “só tem dados positivos”. Se a economia afundou nos últimos dois anos, diz Bolsonaro, foi devido aos que defenderam a “política do fique em casa, a economia a gente vê depois”.

Por outro lado, Bolsonaro deverá insistir nos ataques a Lula, seja do ponto de vista pessoal seja político, colando-o a outros governo de esquerda de países vizinhos. “Certas mudanças vêm para pior. Na América do Sul, todos os países que mudaram para a esquerda, pioraram na sua economia”, disse o chefe do Estado brasileiro.

As vitórias contra as sondagens e no Congresso e Senado

Bolsonaro celebrou a sua maior vitória do dia, sobre as sondagens, dizendo que “vencemos a mentira”. E garantiu que “se desmoralizou de vez os institutos de pesquisa”, que fazem as sondagens e que indicavam a vitória de Lula à primeira. “Isso tudo ajuda a levar voto para o outro lado, [agora] isso vai deixar de existir”, disse o recandidato, dizendo que tem “confiança total” na reeleição.

Apesar de ter sido o primeiro presidente em funções a perder uma primeira volta na sua recandidatura, Bolsonaro destacou os outros bons resultados do seu partido e de outras formações que lhe são próximas no Congresso e no Senado. O Partido Liberal, de Bolsonaro, elegeu um quinto dos lugares no Congresso e terá também a maior bancada no Senado. Os ministros e ex-ministros do atual governo conseguiram por regra ser eleitos. O próprio Bolsonaro, teve agora mais votos do que há quatro anos.

No Twitter, Bolsonaro destacou isso mesmo, quando já era madrugada no Brasil: "Contra tudo e contra todos, tivemos no 1° turno de 2022 uma votação mais expressiva do que aquela que tivemos em 2018. Foram quase 2 milhões de votos a mais! Também elegemos as maiores bancadas da Câmara e do Senado, o que era a nossa maior prioridade neste primeiro momento."

“Nós crescemos bastante”, disse o presidente brasileiro aos jornalistas. E acrescentou que, com este cenário no Congresso e no Senado, “creio que a gente vai fazer boas alianças para a gente ganhar as eleições”. “Esse pessoal todo vai ser convidado a conversar connosco”, assegurou o presidente, dando a entender que tudo fará para conquistar apoios que lhe permitam crescer na segunda volta. “Entendo que isso vai ajudar a gente a conseguir os votos suficientes para vencer as eleições.”

Desta vez Bolsonaro não repetiu as acusações de fraude eleitoral, mas também não deu como garantido que ela não tenha acontecido. “Vou aguardar o parecer das Forças Armadas” sobre transparência das eleições, disse aos jornalistas. Mas insistiu em deixar suspeitas no ar, até para ter margem de manobra para poder contestar os resultados caso perca no dia 30. 

“Esse sistema [eleitoral] nosso não é 100% blindado, sempre existe a possibilidade de algo anormal acontecer”, voltou a declarar Bolsonaro, contrariando as garantias do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de que as eleições decorreram sem incidentes de relevo. 

Para além das garantias do tribunal, também a embaixadora britânica no Brasil, Melanie Hopkins, disse no domingo à noite que o TSE conduziu as eleições "de maneira rápida, eficiente e transparente". "Fiquei impressionada”, disse a representante britânica nas redes sociais. 

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