Senador é candidato à presidência do Brasil e promete medidas autoritárias para a segurança pública e venda de empresas estatais para a economia
Em 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil, a sua família era pouco conhecida a nível internacional. No país, porém, os Bolsonaro já vinham de uma longa trajetória política, com a participação assídua da maioria dos seus membros, que dura até aos dias atuais. Hoje, Flávio Bolsonaro é quem se destaca: é candidato à presidência da República, já se encontrou presencialmente com Trump na Casa Branca e tem no currículo alguns escândalos de corrupção, sendo o caso Master o mais recente.
A história da família na vida pública já existe há décadas. Jair foi capitão do exército, atuando durante a parte final da ditadura militar e poucos anos depois da redemocratização. Deixou a função após ser preso durante 15 dias por publicar um texto na revista Veja em que criticava os baixos salários dos militares e, posteriormente, ser condenado em primeira instância (foi absolvido pelo Supremo Tribunal Militar) por alegadamente ter planeado um atentado com bombas em quartéis. Na política, foi eleito deputado federal em 1991 e esteve no Congresso até chegar à presidência.
Ao longo dos anos, os filhos do ex-chefe de Estado também passaram a participar ativamente da vida pública. Eduardo foi deputado federal entre 2015 e 2025, quando se mudou aos Estados Unidos e passou a articular sanções contra o governo brasileiro e autoridades para influenciar o julgamento de seu pai por tentativa de golpe de Estado. Hoje, o político é considerado foragido da Justiça após ser condenado a mais de quatro anos de prisão por coação no curso do processo.
Carlos e Jair Renan possuem trajetórias menos chamativas dentro da política nacional. O primeiro teve uma atuação importante na comunicação do pai durante campanhas eleitorais e quando esteve na presidência, além de ter sido vereador do Rio de Janeiro entre 2001 e 2025, quando renunciou ao mandato para concorrer ao Senado pelo estado de Santa Catarina – onde a extrema-direita possui uma importante base eleitoral. O segundo, o mais novo entre os homens da família (Laura, de 15 anos, é a única filha de Jair) é vereador em Balneário Camboriú, município conhecido por condomínios de luxo em Santa Catarina, e anunciou a candidatura a deputado federal pelo estado.
Atualmente, apesar da influência de Eduardo Bolsonaro e sua recente condenação no Supremo Tribunal Federal, Flávio é o grande destaque da família, e talvez a principal esperança para a manutenção do domínio bolsonarista na extrema-direita brasileira. O político foi deputado estadual (2003-2018), senador (2019-atualmente) e é candidato à presidência.
A trajetória política de Flávio Bolsonaro
Nascido em 1981, Flávio Bolsonaro é o filho mais velho de Jair e, por isso, é comummente chamado de “01 (zero-um)” pelo pai. O político é formado em direito pela Universidade Cândido Mendes, uma instituição de ensino superior privado no Rio de Janeiro.
O início da sua trajetória política remonta a 2002, ano em que Lula da Silva foi eleito pela primeira vez. A concorrer pelo Rio de Janeiro – berço eleitoral do seu pai Jair -, Flávio foi eleito o deputado estadual mais jovem da história do estado com pouco mais de 31 mil votos, assumindo o mandato no ano seguinte, quando completou 22 anos. O político foi reeleito em 2006, 2010 e 2014.
Segundo o pequeno texto biográfico disponível no site oficial da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), durante o período em que atuou a nível estadual, o antigo deputado mostrava-se contrário às quotas raciais para acesso ao ensino superior e a “políticas assistencialistas” que, para ele, resultam em “dependência das populações mais carentes e favorecem a relações promíscuas envolvendo a libertação de recursos públicos e o processo legislativo”.
Uma das principais bandeiras políticas de Flávio sempre foi a segurança pública, e o filho de Jair Bolsonaro chegou a presidir à Comissão Permanente de Segurança Pública e Assuntos de Polícia na Alerj. Esta preocupação manteve-se durante a atuação do político como senador.
Foi eleito para o cargo em 2018 e, após oito anos de mandato, não concorrerá à reeleição, uma vez que é candidato à Presidência da República. Durante os anos em que esteve em Brasília, Flávio somou números pouco relevantes de projetos de lei aprovados. Segundo um levantamento do UOL, o senador foi o principal autor de 62 propostas. Destas, duas foram aprovadas, mas não chegaram a lei. Entre todos os 54 parlamentares, ficou na 47.ª posição.
Entre todos os projetos, a segurança continuou como o principal foco do senador, compondo mais de metade (32) de todos os documentos que assinou. O restante foi distribuído entre as mais variadas áreas, sendo Economia e Mercado de Capitais a segunda mais relevante, com apenas sete textos.
Ao UOL, a assessoria de imprensa de Flávio Bolsonaro defendeu que o levantamento “acaba por induzir uma leitura incompleta da atuação parlamentar” e alegou que o senador foi “o que mais destinou recursos para segurança pública da história do Rio de Janeiro”.
A relação com as milícias
Apesar de basear a sua carreira política na defesa da segurança pública, Flávio Bolsonaro possui um extenso currículo de relações com milicianos no Rio de Janeiro. As milícias são grupos criminosos armados comummente formados por agentes e ex-agentes das forças de segurança do Estado. Estas organizações atuam como um poder paralelo em algumas regiões do Rio de Janeiro, extorquindo moradores em troca de uma suposta proteção.
Segundo um levantamento da revista piauí, enquanto atuou como deputado estadual (2003-2018), o político homenageou pelo menos 23 polícias e militares que, em 2019, quando a reportagem foi publicada, eram réus ou haviam sido condenados por diversos crimes, entre os quais estão lavagem de dinheiro, organização criminosa e homicídio.
Entre os agentes condecorados por Bolsonaro que possuem problemas na Justiça estão 19 polícias militares, três polícias civis e um tenente-coronel da reserva. Foram concedidas as chamadas “moções”, que são usadas para expressar louvor, e a Medalha Tiradentes, principal honraria que pode ser dada pela Alerj. A piauí ressalta que, na maior parte dos casos, as condenações ocorreram após as homenagens promovidas pelo então deputado.
Um dos nomes que recebeu a Medalha Tiradentes foi Adriano da Nóbrega, ex-polícia militar que foi acusado de integrar o grupo de extermínio chamado Escritório do Crime. Nóbrega recebeu a honraria quando foi visitado por Jair e Flávio Bolsonaro na prisão. Na época, ele havia sido preso em flagrante pela execução de Leandro dos Santos Silva, um guardador de carros que havia denunciado uma situação de tortura feita por Nóbrega.
Em 2008, o “zero-um” também fez um discurso na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em que relativizava as ações criminosas das milícias. Na sessão, o senador votou a favor da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a atuação destes grupos armados, mas demonstrou apoiar a atuação paramilitar nas regiões mais pobres do estado. “Sempre que ouço relatos de pessoas que residem nessas comunidades, supostamente dominadas por milicianos, não raro é constatada a felicidade dessas pessoas que antes tinham que se submeter à escravidão, a uma imposição hedionda por parte dos traficantes e que agora pelo menos dispõem dessa garantia, desse direito constitucional, que é a segurança pública”, disse, citado pelo portal Congresso em Foco.
Segundo uma reportagem publicada pelo jornal O Estado de São Paulo em 2023, no início dos anos 2000 era comum ver políticos importantes que colocavam-se abertamente ao lado das milícias no Rio de Janeiro. Na época, muitos viam estes grupos como auxiliares às forças de segurança pública em regiões de alta criminalidade.
Com o passar dos anos, porém, Flávio Bolsonaro continuou ligado a lideranças das milícias do Rio de Janeiro. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, mãe e esposa de Adriano da Nóbrega, que foi assassinado numa operação policial na Bahia em 2019, chegaram a trabalhar no gabinete do ex-deputado estadual entre 2007 e 2018.
A 'rachadinha' no gabinete de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro foi acusado de operar um esquema de rachadinha no seu gabinete da Alerj enquanto foi deputado estadual. Este tipo de corrupção é conhecido no Brasil e não se destaca pela sua complexidade. Basicamente, o político emprega funcionários com altos salários, e parte destes vencimentos mensais é devolvida ao empregador.
Segundo a cronologia publicada pelo jornal O Globo, a investigação sobre a atuação do político começou em 2018, quando o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviou ao Ministério Público do Rio de Janeiro um relatório que incluía movimentações financeiras atípicas no gabinete de Bolsonaro na Alerj. Após o envio do documento, foram produzidos outros quatro relatórios.
O centro das investigações era as movimentações financeiras de Fabrício Queiroz, na época assessor de Flávio Bolsonaro, consideradas suspeitas pelas autoridades. Para apurar as informações, em abril de 2019, o juiz Flávio Itabaiana, da primeira instância, determinou a quebra de sigilo das contas bancárias do ex-polícia militar, e foi constatado que ele recebeu 483 depósitos de dinheiro feitos por 13 assessores ligados ao filho do ex-presidente. As movimentações totalizavam cerca de 2 milhões de reais (340 mil euros).
As ações de Queiroz também envolvem Michelle Bolsonaro, esposa de Jair Bolsonaro. A antiga primeira-dama recebeu 24 mil reais (cerca de 4 mil euros) em transferência denunciada pelo Coaf em 2018. Segundo Jair Bolsonaro, o valor seria uma parcela de um empréstimo que ele teria feito ao ex-assessor do filho, considerado um amigo pelo ex-presidente. A conta bancária de Queiroz, porém, não recebeu o valor. Entre 2011 e 2016, o ex-polícia e sua mulher depositaram 89 mil reais na conta de Michelle, segundo informações da Revista Crusoé e da Folha de São Paulo.
No caso de Flávio Bolsonaro, o ex-deputado estadual recebeu 96 mil reais separados em 48 depósitos de 2 mil entre junho e julho de 2017, noticiou a TV Globo. O autor dos depósitos, porém, não foi identificado.
Segundo as investigações, o dinheiro desviado por Queiroz seria lavado através de uma loja de chocolates que Flávio Bolsonaro possuía no Rio de Janeiro. Outra opção que teria sido utilizada pelos suspeitos é a compra de imóveis.
A Justiça do Rio de Janeiro chegou a denunciar Flávio Bolsonaro e outras 16 pessoas pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, peculato e apropriação indevida, noticiou o jornal O Globo. Flávio foi considerado o líder da organização criminosa, e o MP afirmou que que o senador usou pelo menos 2,7 milhões de reais no esquema.
Apesar de Queiroz ter sido preso preventivamente, os acusados não foram condenados devido a deliberações do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF). O STJ anulou as decisões do juiz Flávio Itabaiana, por entender que o magistrado não teria competência para julgar o caso. Enquanto isso, o STF anulou quatro relatórios do Coaf que embasavam a acusação.
A família Bolsonaro e a ditadura militar
Os Bolsonaro têm um longo histórico de exaltação do período de ditadura militar no Brasil. O governo de Jair realizou celebrações durante quatro anos seguidos para relembrar o golpe militar a 31 de março. No período em que o Brasil viveu o regime totalitário (1964-1985), os militares torturaram e mataram opositores, censuraram jornalistas e artistas e impediram a eleição do presidente por voto direto.
O ex-chefe de Estado já cuspiu numa estátua de Rubens Paiva, ex-deputado executado durante a tortura cuja história originou o filme "Ainda Estou Aqui", homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra, militar conhecido pela sua atuação ativa na tortura de opositores políticos, e afirmou em entrevista à radio Jovem Pan em 2016 que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”.
Os seus filhos mantêm posicionamentos semelhantes. Eduardo já divulgou nas redes sociais o trailer do filme “1964, o Brasil entre armas e livros” feito pela produtora de extrema-direita Brasil Paralelo, conhecida por divulgar informações falsas em suas obras audiovisuais. Jair Renan também já afirmou que pessoas mais velhas reconhecem o período da ditadura como a “melhor época do Brasil”.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, é menos vocal que o resto da família em defesa da ditadura. Mesmo assim, em 2020 saudou os militares pelo golpe de Estado. “Parabéns aos militares de ontem e de hoje”, escreveu nas redes sociais no aniversário do golpe. “Muito obrigado por tudo que fizeram e continuam fazendo pelo nosso Brasil”.
Jair Bolsonaro, inclusive, foi condenado por tentativa de golpe de Estado após perder as eleições de 2022. O Supremo Tribunal do Brasil entendeu que o ex-Presidente liderou uma organização criminosa que tinha como objetivo impedir a posse de Lula da Silva, inclusive com planos de homicídio contra o presidente eleito, o vice Geraldo Alckmin e o juiz Alexandre de Moraes.
A candidatura à Presidência
Após a prisão de Jair Bolsonaro, a extrema-direita brasileira procurou um sucessor que tivesse capacidade de derrotar Lula da Silva nas eleições de 2026. Para ter o apoio da família, era necessário comprometer-se com a amnistia ou o perdão presidencial aos condenados pelos atos antidemocráticos, principalmente o ex-presidente.
No ano passado, ainda antes de anunciar a candidatura, Flávio Bolsonaro concedeu uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo para falar sobre o futuro da política brasileira. Questionado se um indulto seria uma condição imprescindível para Jair Bolsonaro apoiar um nome para liderar a extrema-direita, o senador respondeu que é “muito além disso”. “Vai ter de ser alguém na presidência que tenha o comprometimento, não sei de que forma, de que isso [indulto] seja cumprido.”
Questionado sobre como garantir o perdão, mesmo caso o STF acuse inconstitucionalidade (como o tribunal já indicou que fará caso um perdão seja aprovado), ele prosseguiu: “É uma hipótese muito ruim, porque a gente está a falar de possibilidade e de uso da força. A gente está a falar da possibilidade de interferência direta entre os Poderes. Tudo que ninguém quer. E eu não estou a falar aqui, pelo amor de Deus, no tom de ameaça, estou a fazer uma análise de cenário. É algo real que pode acontecer.”
Na mesma entrevista, Flávio garantiu que seria candidato à reeleição no Senado. “É imutável”, disse. No entanto, essa situação alterou-se, e o filho de Jair Bolsonaro anunciou a candidatura à presidência com o aval do pai. Inicialmente, a candidatura parecia instável, com Flávio a anunciar que teria um “preço” para sair da corrida presidencial. Com o passar do tempo, porém, ele consolidou-se como o principal nome da direita com condições de vencer Lula da Silva.
O caso Dark Horse
O pior momento de Flávio Bolsonaro como candidato até agora ocorreu em maio, quando a Intercept Brasil divulgou uma reportagem que expôs a relação entre o candidato e Daniel Vorcaro, banqueiro preso por fraude e corrupção. A investigação foi publicada horas depois do senador negar qualquer relação com o dono do Banco Master.
Na manhã do dia 13 de maio, Flávio foi questionado sobre ter pedido 24 milhões de dólares para Vorcaro com o objetivo de financiar o filme Dark Horse, que conta a vida de Jair Bolsonaro. "É mentira, de onde você tirou isso? É mentira, pelo amor de Deus", disse o político.
Horas depois, a The Intercept Brasil divulgou áudios e mensagens de texto que mostram a articulação feita pelo senador para garantir os valores para o filme. Apenas o financiamento de Vorcaro seria suficiente para o orçamento do longa-metragem superar o de 15 dos últimos 20 vencedores do Óscar de Melhor Filme. No entanto, esta não foi a única fonte de dinheiro do filme.
O senador chegou a confirmar a veracidade das informações publicadas pela Intercept Brasil, mas garantiu que não cometeu qualquer ilegalidade. “O que aconteceu foi um filho a procurar patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público”, disse. Posteriormente, jornais brasileiros passaram a noticiar que parlamentares destinaram verbas públicas para empresas ligadas ao Dark Horse.
A Polícia Federal está a investigar o financiamento do banqueiro, e uma das abordagens é a possibilidade de parte do dinheiro ter sido usada para manter a vida de luxo de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Desde a divulgação dos áudios, Flávio Bolsonaro caiu nas sondagens. Segundo um estudo feito pela Quaest e divulgado no início do mês de julho, o candidato da extrema-direita está 12 pontos percentuais abaixo de Lula da Silva na primeira volta: 28% contra 40%. Além disso, segundo o mesmo instituto, o chamado antibolsonarismo atingiu o maior nível desde fevereiro, com 44% dos inquiridos. Enquanto isso, o antipetismo (ligado ao Partido dos Trabalhadores, ou PT, de Lula da Silva), caiu de 42% para 36% desde março.
Esta, contudo, não é a única ligação do senador com a instituição financeira que foi liquidada pelo Banco Central brasileiro no fim de 2025. Na quarta-feira, os órgãos de comunicação social brasileiros divulgaram que Flávio emitiu, através do seu escritório de advocacia, duas faturas no valor de 500 mil reais (86,15 mil euros) cada para uma empresa ligada ao Master.
Os documentos foram emitidos no dia 7 de abril do último ano para a empresa Copenhagen Assessoria e Consultoria, que tinha como diretor Artur Figueiredo, gestor da administradora de fundos Trustee DTVM. A Trustee é citada nas investigações das autoridades brasileiras como suspeita de participar na fraude liderada por Daniel Vorcaro.
No mesmo dia, porém, os recibos foram cancelados pelo senador. "Fiz um trabalho para uma empresa. Fui contratado para isso e prestei serviços advocatícios. Relação completamente legal e privada. Em outra oportunidade, eu não aceitei trabalhar para essa empresa chamada Copenhagen, que supostamente foi usada por [Daniel] Vorcaro para fazer pagamentos a algumas pessoas. Não foi o meu caso. Estou tendo que explicar porque eu não recebi o dinheiro dessa empresa. Cancelei duas notas fiscais", escreveu o político nas redes sociais.
Dois dias depois, um novo recibo foi emitido no valor de 500 mil reais para a empresa Contábil Correa, pelo serviço de assessoria jurídica. A organização estava registada em nome de Rogério Novo, que viria a ser diretor da Copenhagen cinco meses depois, noticiou o Metrópoles. Segundo a CNN Brasil, Novo já foi investigado por alegadamente utilizar recibos falsos e empresas de fachada para evadir impostos, numa fraude estimada em mais de 100 milhões de reais (17,23 milhões de euros).
A relação com os Estados Unidos
A família Bolsonaro mantém uma relação de proximidade com os Estados Unidos e com Donald Trump, algo que gera polémica na política brasileira. A aproximação intensificou-se a partir do primeiro trimestre de 2025, quando Eduardo Bolsonaro passou a viver no país norte-americano.
Ao lado de Paulo Figueiredo, comunicador aliado da família e neto de João Figueiredo (último presidente do Brasil durante a ditadura militar), Eduardo passou a advogar por sanções a autoridades brasileiras devido ao julgamento de Jair Bolsonaro por golpe de Estado. O antigo deputado, que teve o seu mandato revogado por viver fora do país, chegou a celebrar a imposição de tarifas dos Estados Unidos a produtos brasileiros. “Obrigado, presidente Donald J. Trump. Espero que as autoridades brasileiras agora tratem esses assuntos com a seriedade que merecem. O Brasil não pode — e não vai — se tornar outra Venezuela, Cuba ou Nicarágua. Deus abençoe os Estados Unidos, Deus abençoe o Brasil”, escreveu nas redes sociais.
As ações de Eduardo, que também resultaram em punições específicas a juízes do Supremo Tribunal do país e seus familiares, fizeram com que o político fosse condenado a mais de quatro anos de prisão por coação no curso do proceso. Além disso, na época, as pesquisas de intenção de voto demonstraram uma recuperação de Lula da Silva na corrida presidencial. Os governistas passaram a adotar a postura de que o presidente pretendia “taxar os super-ricos” enquanto Bolsonaro queria “taxar o Brasil”.
Flávio Bolsonaro participa publicamente nas articulações com o governo americano desde o fim de maio, quando o senador visitou a Casa Branca e fez uma rápida reunião com Donald Trump – acompanhado do irmão e de Figueiredo. Segundo o candidato à presidência do Brasil, foi feito um pedido para que os Estados Unidos classificassem o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como grupos terroristas.
Dez dias depois, os EUA anunciaram que as organizações criminosas seriam consideradas terroristas pelo país. Esta decisão desagradou o governo brasileiro, que viu nesta ação um risco à soberania nacional. Segundo Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, a situação gera receio de que os EUA intervenham militarmente no Brasil. A CNN Portugal apurou que esta decisão ocorreu devido às recentes ações do governo americano na América Latina, como a invasão da Venezuela no início de 2026.
A relação entre os países continua tensa, e os Estados Unidos seguem a ameaçar o Brasil com novas tarifas. Atualmente, o principal motivo apontado pela gestão Trump seria uma alegada “prática desleal” do governo brasileiro com o uso do Pix, plataforma de pagamentos desenvolvida pelo Banco Central. Com isso, foram propostas taxas de 25% sobre produtos brasileiros.
A medida gerou novas reações de Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Nos Estados Unidos, o representante da extrema-direita pediu para que o imposto não entre em vigor. “Respeitosamente, peço a este país: não imponha tarifas ao Brasil. Preserve o sucesso desta parceria, cancele-a e vamos negociar”, disse, citado pelo g1. No início do mês, o senador alegou em carta enviada ao USTR (órgão do Governo dos EUA responsável pelo comércio) que as tarifas dão uma “vitória política” a Lula da Silva e pediu para que a taxa seja adiada até, pelo menos, o fim do processo eleitoral.
Enquanto isso, o governo brasileiro acusou Flávio Bolsonaro de “traição à pátria”. Para as autoridades do país, o senador “optou por legitimar os resultados de uma investigação injusta contra empresários e trabalhadores”.
Além disso, segundo uma carta enviada por Marco Rubio ao filho de Jair Bolsonaro, Flávio propôs a criação de uma equipa de transição que estaria à disposição dos Estados Unidos caso saia vitorioso do processo democrático. “Registamos seu otimismo em relação às eleições de outubro e sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição, caso seja eleito. Os Estados Unidos estão prontos para trabalhar em cooperação com os líderes escolhidos pelo povo brasileiro em prol de uma estrutura ampla, justa e mutuamente benéfica de comércio e investimentos”, afirmou o secretário de Estado.
Segundo uma pesquisa da Quaest divulgada em junho, a relação com os Estados Unidos pode causar resultados ambíguos à candidatura da extrema-direita. Entre os inquiridos, 34% alegaram que o apoio de Trump ao candidato aumenta as chances de voto em Lula da Silva, enquanto 29% disseram que, neste cenário, a possibilidade de votarem em Flávio cresce. Além disso, 41% da população está preocupada com uma possível influência americana no processo democrático (48% das pessoas não têm preocupação).
As propostas de Flávio Bolsonaro ao Brasil
Durante a pré-campanha, Flávio está a divulgar aos poucos seus planos para o governo brasileiro. Com base em declarações de quando ainda não estava na corrida presidencial, a pressão pelo perdão aos condenados por golpe de Estado deve ser uma medida adotada caso vença as eleições. No entanto, há ainda outros setores em que o político pretende atuar.
Segundo o jornal O Globo, Flávio promete reduzir impostos e cortar gastos governamentais, mas não especificou quais medidas serão tomadas para garantir a saúde fiscal do país. Além disso, há o desejo de mudar o financiamento do SUS (Sistema Único de Saúde, equivalente ao SNS) e vender 95% das empresas estatais, sem especificar quais órgãos poderiam ser negociados.
Na área da segurança pública, um setor fundamental para Flávio e para o eleitorado brasileiro, as propostas são mais radicais e autoritárias – sendo autoritarismo definido como a “crença numa sociedade rigorosamente ordenada, na qual as violações da autoridade devem ser punidas severamente”, segundo o cientista político Cas Mudde. Inspirado por políticas adotadas por Nayib Bukele, presidente de El Salvador, o candidato divulgou um plano de 12 propostas denominado “Brasil Sem Medo”.
Entre as medidas estão a construção de presídios de segurança máxima seguindo o modelo adotado pelo país da América Central; a classificação do Comando Vermelho e do PCC como terroristas; a redução da maioridade penal para até 14 anos em caso de crimes graves e a castração química de homens que abusam sexualmente de mulheres e crianças.
