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Comentadora CNN

A festa acabou, agora é hora de governar

7 jan, 13:43

Novo governo tenta mostrar resultados, enquanto bolsonaristas insistem em teses fora da realidade, como de que a cerimônia de posse fosse encenada com atores

Há uma semana, o mundo assistia uma cena ímpar: a retomada democrática no Brasil e símbolos importantes, como representantes de setores margilizandos de mãos dadas com o presidente e vice-presidente, outrora adversários políticos. As cenas, transmitidas ao vivo pela CNN Portugal e outros canais de todo o mundo, também foi capa de jornais, como o New York Times, que chamou Bolsonaro de “looser”, que fugiu para os Estados Unidos.

Na verdade, foi uma das poucas coisas boas que Bolsonaro fez: não estragar a linda festa da democracia brasileira que marcou o dia 1º de janeiro de 2023. Mas, depois da celebração de festa, música e diversidade, chegou a hora de trabalhar. Na verdade, começou ali mesmo na hora da posse, com a revogação de decretos  que flexibilizam as armas de fogo, facilitam o garimpo ilegal e restabeleceu o Fundo Amazônia, suspenso por Bolsonaro.

Já na primeira segunda-feira do ano, Lula da Silva teve encontros com diversos chefes de estado, como Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal. Uma viagem para este lado do oceano já está marcada para abril, além de outros destinos, como China e Estados Unidos, em uma sinalização importante que o Brasil vai deixar de se tornar pária e voltará ao cenário internacional

A semana também foi de tomada de posse de grande parte dos ministros, que fizeram discursos históricos e que contrastam com o ocorreu há quatro anos. Passamos de uma ministra contra o aborto em adolescentes estupradas para um ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almdeida, que anunciou “quero ser um ministro de um país que ponha a vida e a dignidade humana em primeiro lugar”, citando as mulheres, a população LGBTI+, indígenas, negros e pessoas com deficiência.

Outro discurso que mostra a total mudança nos rumos da política brasileira foi o de Marina Silva, nova ministra do Meio Ambiente e Ação Climática. 

Enquanto Ricardo Salles, um dos ex-ministros bolsonaristas do Meio Ambiente defendia “passar a boiada” nas leis ambientais, Marina disse que “Boiadas se passaram no lugar onde apenas deveriam se passar políticas de proteção ambiental”. Ela também reforçou o compromisso com o Acordo de Paris e que haverá um “basta” de perseguições aos fiscais ambientais. 

O tempo corre

Com as contas públicas arrasadas, um país profundamente dividido e sem garantia de maioria no Senado e Câmara dos Deputados para aprovação de leis, o novo governo precisa mostrar resultados rapidamente. A pressa, totalmente justificada, foi deixada muito clara aos ministros, durante a primeira reunião ministerial realizada na sexta-feira (6). 

Lula deu o prazo de duas semanas para os titulares de pastas realizarem levantamento da situação e definir as prioridades. Nos primeiros 100 dias de mandato, o governo pretende apresentar projetos nos eixos principais, como o combate à fome e a miséria que assola o país. Ao mesmo tempo, avisou que erros não serão tolerados. Resta saber, em quantos dias cairá o primeiro ministro ou ministra. Já duram mais que uma secretária portuguesa que não ficou no cargo nem 24 horas.

Mas, como estamos falando de política e da surreal política brasileira, por vezes difíceis de explicar, nem tudo é bonito. O novo governo tem a missão de colocar no lugar os egos de alguns dos ministros, manter boa relação com os políticos e lidar com as diferenças ideológicas dos representantes de diversos partidos que compõem a frente ampla. Essa união não só foi necessária na eleição, mas também para garantir votos e conseguir governar. 

Divergências, principalmente na área econômica, vão exigir muita habilidade e diálogo para acomodar as diferentes ideias dos ministros, como de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda e Simone Tabet no Planejamento. Essas ideias são essenciais, já que vão definir o rumo da economia da brasileira e, consequentemente, do povo que tanto precisa de políticas públicas de efeito imediato, mas também a longo prazo. 

É a política pura e requer muita habilidade. Ainda é cedo para prever se essa grande desafio será superado pelo governo, que, repito, não deve jamais esquecer do peso que essa eleição teve para os brasileiros e para os defensores da democracia em todo o mundo.

Fake news, irracionalidade e violência continuam

Enquanto o governo eleito trabalha, a seita bolsonarista continua insistindo em teses sem sentido lógico, difíceis de explicar de forma racional. Uma delas é de que Lula morreu e um sósia assumiu o lugar, ou, que a cerimônia de posse foi uma encenação com artistas. Continuam rezando nos quartéis, agredindo jornalistas, tentando parar voos no aeroporto, trancando rodovias em São Paulo e organizando ações golpistas e violentas pelo país. 

O ministro da Defesa, José Múcio, informou, na sexta-feira (6), que cerca de 5 mil manifestantes ainda estão em frente aos quartéis pelo Brasil. Em alguns, as cenas parecem engraçadas, como bolsonaristas agarrados às barracas e chorando. Mas, a situação é assustadora. É a comprovação de como a realidade foi totalmente cooptada por quatro anos de ensaios golpistas, fake news e fanatismo religioso promovidas pela extrema-direita. Assim como ocorre nos Estados Unidos, é uma realidade para lidar daqui em diante.

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