Como o mercado (ilegal) dos branqueadores de pele está a pôr em risco a vida das mulheres que sonham com "um modelo ocidental ilusório"

Agência Lusa , BCE
1 mai, 10:47
Beyoncé recorreu a produtos de branqueamento de pele (AP)

Alguns dos branqueadores de pele disponíveis no mercado estão proibidos pela legislação europeia de regulamentação de cosméticos devido às altas concentrações de substâncias tóxicas - entre elas a hidroquinona, que aumenta o risco de cancro

Cremes branqueadores de pele, alguns com substâncias proibidas na cosmetologia, estão a ser vendidos em Lisboa, expondo a riscos graves de saúde consumidoras que procuram com este aclaramento mais hipóteses a nível laboral e social.

Longe de quererem alcançar a cor da pele caucasiana, as mulheres de pele escura (negras e indianas, principalmente) que recorrem a estes branqueadores pretendem, com a sua aplicação, obter um tipo de aparência mais adequada aos gostos europeus e, dessa forma, alcançar empregos que, acreditam, lhes estariam vedados, segundo um estudo realizado por duas antropólogas.

Estas consumidoras tentam, desta forma, seguir o exemplo de mulheres negras de sucesso, nomeadamente estrelas na música, cinema e moda, que clarearam a pele, como Beyonce, Rihanna e Nicki Minaj.

Em Lisboa, o levantamento dos locais de venda destes produtos, a sua catalogação e entrevistas a consumidoras e profissionais de saúde foi feito por duas antropólogas, Chiara Pussetti e Isabel Pires, do Instituto de Ciências Sociais (ICS) de Lisboa, no âmbito do projeto Excel, que analisa a busca pela excelência corporal, em vários aspetos.

As antropólogas encontraram no centro da capital – Martim Moniz, Av. Almirante Reis, Intendente, Rua dos Anjos -, onde vivem e trabalham muitos cidadãos de países africanos e asiáticos, produtos branqueadores de pele vendidos de forma ilegal, a começar pela falta de informações em português.

Alguns desses cremes, na sua maioria indicados para mulheres, mas também em versão masculina, estão proibidos pela legislação europeia de regulamentação de cosméticos, precisamente devido às altas concentrações de substâncias tóxicas.

Veja também: Sabe ler os rótulos dos cosméticos? O que são cosméticos biológicos? Conheça as substâncias perigosas que podemos encontrar nestes produtos e quais os cuidados a ter

Questionada pela Lusa sobre estes casos, a autoridade que regula o setor do medicamento disse ter conhecimento de que “estes produtos existem no mercado europeu”. “Em colaboração com a Autoridade Tributária e Aduaneira, para cosméticos importados, estes produtos ocasionalmente são detetados em encomendas postais e na bagagem pessoal”, prossegue o Infarmed.

Branqueadores de pele associados ao aumento do risco de cancro

Entre os vários produtos, que a Lusa facilmente encontrou em prateleiras de estabelecimentos comerciais nessa zona da capital, constam alguns que têm na sua composição – ou pelo menos isso publicitam - a hidroquinona, proibida nos produtos cosméticos e de higiene corporal para aplicação na pele devido ao seu potencial efeito cancerígeno.

A hidroquinona bloqueia a ação da enzima tirosinase, que tem participação na formação da melanina, conduzindo a um efeito despigmentante sobre a pele. “A inclusão de hidroquinona em produtos cosméticos é proibida e a única exceção permitida é a sua inclusão em produtos de coloração capilar e para unhas artificiais. A sua presença em cremes não é permitida desde o ano 2000”, referiu o Infarmed.

O uso de branqueadores de pele com substâncias como a hidroquinona aumenta o risco de cancro e, por essa razão, apenas os medicamentos a podem conter, refere uma responsável da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia.

Leonor Girão, responsável pelo grupo português de dermatologia cosmética da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV), explicou que esta substância, usada em determinada quantidade, em produtos prescritos por médicos e vendidos em farmácias, tem o efeito de minimizar as marcas do acne ou manchas localizadas.

“Precisamente por ser uma substância eficaz, passou a ser utilizado para branquear a pele, por africanas e asiáticas, que a começaram a utilizar em grande quantidade, em grande área de superfície cutânea”, disse.

Mas o seu uso indiscriminado aumenta o risco de cancro ao nível da pele, alertou, considerando “perigosa” a utilização de cremes com este tipo de produtos sem acompanhamento médico.

Oportunidades de emprego e "um modelo ocidental ilusório"

Nos testemunhos reunidos pelas antropólogas, as utilizadoras assumiram que esta alteração estética lhes abriu as portas a empregos onde a mulher negra é bem-vinda, mas desde que seguindo os padrões de beleza promovidos na (antiga potência colonial) Europa e que, de resto, são visíveis nas embalagens destes cremes.

“É preciso descolonizar a estética, conseguir valorizar, na sua forma mais inclusiva, a beleza, independentemente da ótica ocidental, sem que se tenha de reproduzir modelos branqueados, ligados à indústria do cinema, da moda e da música euro-americana”, afirmou Chiara Pussetti.

As mulheres que utilizam branqueadores de pele procuram “uma representação ideal da beleza que não existe”, redefinida segundo “um modelo ocidental ilusório”, pela qual arriscam a saúde, afirmou a fundadora da organização Melanin Foundation,  que alerta para esta prática perigosa.

Questionada sobre os fins que, para estas utilizadoras, justificam os meios, a presidente da Melanin Foundation referiu que estas mulheres – embora também existam consumidores masculinos – “querem mudar a sua própria aparência”.

Elas procuram agradar e refletir uma nova imagem de si próprias e uma representação ideal da beleza que não existe”, referiu Catherine Tetteh.

E acrescentou: “A globalização, o poder dos meios de comunicação e da publicidade criam a imagem de um padrão de beleza universal, de uma beleza feminina que foi redefinida de acordo com um modelo ocidental ilusório”.

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