Os mecanismos que o mantêm a fazer scroll nas redes sociais sem pensar podem ser semelhantes aos que estão por trás de vícios como o consumo de drogas e álcool ou jogos de sorte
Pega no seu telemóvel e, assim que faz scroll nas redes sociais, vê alguém a viajar pelo mundo. Porque é que você não está de férias? Desliza novamente e vê alguém a viver uma aventura. Uau, não devia livrar-se do seu portátil? Desliza mais uma vez e um CEO de tecnologia está a dizer-lhe como a IA vai otimizar o seu trabalho.
Sente que o seu cérebro está a apodrecer (brain rot)?
Se parece que as redes sociais e o conteúdo online estão a desgastá-lo em vez de estarem a enriquecer o seu quotidiano, é provável que se identifique com Tiziana Bucec, uma criadora de conteúdo de Berlim, cujas publicações nas redes sociais combatem uma gíria amplamente utilizada online - o brain rot (apodrecimento cerebral, em tradução livre).
“Estou a fazer esta série porque estou cansada de sentir que as redes sociais nos tornam mais burros, mais ansiosos e menos conscientes”, explica Tiziana, no seu primeiro vídeo anti-brain rot, que logo evoluiu para uma série sobre como o uso das redes sociais afeta o cérebro e como moderar o uso.
O brain rot não é um termo científico. É o termo que designa conteúdos que podem ser engraçados e sem sentido, define Tiziana. Exemplos disso são o ‘Skibidi Toilet’ ou no ‘6-7’. Mas o termo evoluiu como uma definição sobre como o uso excessivo das redes sociais diminui o pensamento crítico e a capacidade de atenção.
Embora não exista muita investigação científica sobre o brain rot e os seus eventuais efeitos, podemos recorrer ao conhecimento sobre o cérebro e o vício para inferir algumas possibilidades, sugere Costantino Iadecola, professor de Neurologia na Weill Cornell Medicine e diretor e presidente do Feil Family Brain and Mind Research Institute.
Os mecanismos que o mantêm a fazer scroll nas redes sociais sem pensar podem ser semelhantes aos que estão por trás de vícios como o consumo de drogas e álcool ou jogos de sorte. Estudos anteriores efetuados em adolescentes diagnosticados com dependência da internet sugerem uma interrupção na sinalização entre regiões do cérebro importantes para controlar a atenção e a memória. É razoável esperar que a quantidade de tempo que as pessoas passam a fazer scroll em conteúdos de baixa qualidade sem pensar, ou em atividades que deterioram o cérebro, possa ter efeitos prejudiciais, sugere Costantino Iadecola.
O que é conteúdo de baixa qualidade?
O principal culpado pelo brain rot é o conteúdo de baixa qualidade, que geralmente se refere a vídeos curtos, como aquelas compilações engraçadas de gatos ou aquele adolescente a fazer uma dança viral, explica Nidhi Gupta, endocrinologista pediátrica em Franklin, Tennessee, e autora de “Calm the Noise: Why Adults Must Escape Digital Addiction to Save the Next Generation” (“Acalme o barulho: porque os adultos devem escapar do vício digital para salvar a próxima geração”, em tradução livre).
“A nossa capacidade de atenção é finita e, quando temos tanto conteúdo a competir pela nossa atenção, algo essencial vai ficar por fazer, seja a saúde, o trabalho, os relacionamentos ou o sono”, observa Nidhi Gupta. “Nós passamos esse conteúdo digital de baixa qualidade, esse ruído digital, para o nosso espaço cerebral.”
Conteúdos curtos, seja um vídeo de alguém a experimentar roupas ou a fazer uma partida ao companheiro, são concebidos para provocar uma grande descarga de dopamina, o neurotransmissor responsável pela recompensa e motivação, e fazer com que volte sempre, explica Constantino Iadecola.
Muitas vezes, mas nem sempre, esses conteúdos não ajudam o espectador a aprender, crescer ou se desenvolver, acrescenta o professor.
Assistir a uma grande quantidade deste tipo de conteúdo é o mesmo que dizer ao cérebro para esperar explosões frequentes e intensas de excitação, o que pode fazer com que conteúdos de media mais longos e envolventes pareçam enfadonhos e inadequados, explica Nidhi Gupta.
O brain rot não é só um problema dos mais novos
Constantino Iadecola diz estar mais preocupado com os efeitos do brain rot nos mais novos.
Tal como acontece com outros vícios, diz, existem maneiras de lidar com o uso excessivo das redes sociais e mudar um mau hábito ao longo da vida. Mas as crianças pequenas que ficam agarradas a um dispositivo, seja um telemóvel ou tablet, em vez de correrem num parque infantil a aprender a interagir com outras pessoas, podem estar a perder marcos importantes.
À medida que as crianças se desenvolvem, elas precisam de muitas experiências diferentes para formar um cérebro que possa aprender e desenvolver-se de forma produtiva, incluindo sinais emocionais, sociais e faciais, explica Constantino Iadecola.
Passar tanto tempo a assistir a conteúdos curtos e a um ritmo acelerado “não ensina realmente algo que possa ser útil a longo prazo, o que acabará por afetar a sua capacidade de aprender, e assim ficará em desvantagem”, observa o professor.
Mas ajudar as crianças a terem uma relação saudável com as redes sociais também implica uma análise do comportamento dos adultos.
“O vício em ecrãs já não é um problema infantil. É um problema humano”, assume Nidhi Gupta. “Nós, como seres humanos, somos modelos para as crianças. Quando pegamos no telemóvel enquanto conduzimos estamos silenciosamente a enviar uma mensagem às crianças no banco de trás de que isso é aceitável. Assim, quando elas se sentarem ao volante, provavelmente vão seguir o nosso exemplo.”
Na perspetiva de Nidhi Gupta, dar o exemplo às crianças costuma ser mais eficaz do que dar-lhes sermões sobre o que devem ou não fazer.
Será possível ultrapassar este vício?
Se está preocupado com compilações, vídeos editados e outros conteúdos de baixa qualidade, pode ser tentador tentar proibi-los dos seus feeds. No entanto, essa pode não ser a solução.
Quando os adolescentes usam o termo ‘brain rot’, estão a reconhecer que não estão a deixar que não estão a estimular o cérebro, o que é uma premissa que facilmente irrita os adultos, explica Lisa Damour, psicóloga clínica em Ohio e autora do livro “The Emotional Lives of Teenagers: Raising Connected, Capable and Compassionate Adolescents” (“A vida emocional dos adolescentes: criar adolescentes conectados, capazes e compassivos”, em tradução livre).
Mas, hoje em dia, muitos dos adolescentes estão a fazer mais trabalho na escola do que as gerações anteriores, e cada geração teve as suas maneiras de se desligar, que os adultos nem sempre compreendiam.
“Eu própria vi muitos episódios de ‘Gilligan's Island’”, indica Lisa Damour. “Desde que as crianças estejam a cumprir com o que precisam, sendo bons cidadãos em todos os aspectos, elas merecem absolutamente algum lazer sem compromisso.”
Quer definir limites?
As redes sociais podem trazer benefícios para os adultos, por isso o objetivo não deve ser a eliminação total das plataformas, indica Gloria Mark, professora de informática da Universidade da Califórnia, em Irvine, que estuda a forma como os media digitais afetam as nossas vidas.
“Defina limites se for o tipo de pessoa que se perde e que pode passar horas nas redes sociais”, aconselha Gloria.
Por exemplo, pode definir um horário diário para verificar as suas redes sociais, imediatamente antes de algo que tem de fazer, para evitar fazer scroll sem parar, sugere Nidhi Gupta.
Além disso, acrescenta Nidhi Gupta, eliminar as aplicações e restringir o acesso às redes sociais apenas através do browser também pode ajudar a moderar o uso destas plataformas – e o potencial brain rot.
“A força de vontade não funciona”, garante Gupta. “É mais importante optar por mudanças ambientais.”
Precisa de um pouco mais de motivação para reduzir o tempo que passa online? Agora é a altura de fazer as resoluções de Ano Novo, e pode começar por reduzir o tempo que passa nas redes sociais ou fazer um plano para estabelecer limites já em janeiro.