O Brasil tenta com todas as forças manter o estado das coisas

28 nov 2019, 09:32
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Nunca estive no Brasil, mas imagino que deva ser um país encantador.

Que outra justificação pode haver para D. Pedro ter abdicado do trono cá em Portugal para ficar no Brasil? De onde só saiu, aliás, o tempo estritamente necessário para dar uma tareia no irmão, que andava com a mania das grandezas, e voltou logo a correr para casa.

Por ser assim, um país tão encantador, deve ser fácil aos brasileiros tornarem-se arrogantes.

Os brasileiros que conheço são pessoas simpáticas, mas quando penso nos brasileiros enquanto povo não consigo afastar esta ideia de que são altivos e presunçosos.

Por exemplo nas piadas sobre portugueses. Ou na ideia de que não há outra cidade no mundo como o Rio. Ou até naquela certeza absoluta que eles têm de que são os melhores no futebol.

Já foram, sim, mas hoje não: hoje há gente que lhe dá uma surra em noventa minutos.

O Brasil continua a ser a pátria de um talento sem igual: todos os dias nascem verdadeiros prodígios com a bola nos pés, craques de futebol, de arte e de criatividade.

Mas a verdade é que isso não se traduz na qualidade do futebol brasileiro, do campeonato brasileiro ou da seleção brasileira. O campeonato brasileiro é fraco, aliás, tem muita luta, pouco futebol e um número escasso de oportunidades de golo.

Faz lembrar o futebol europeu de há vinte anos.

A seleção, essa, é pentacampeã mundial, mas hoje vive apenas do passado: o último título foi há quase duas décadas. Desde então, só deu verdadeiramente nas vistas quando sofreu sete golos em casa da Alemanha. Tem bons jogadores, lá está, mas não tem qualidade coletiva.

Mas que razão pode haver para este distanciamento entre a qualidade dos jogadores e a qualidade do futebol brasileiro?

Basicamente a altivez que falei logo no início desta crónica.

O futebol brasileiro ficou parado no tempo: os treinadores vivem na viragem do século e estão totalmente ultrapassados. Apesar disso, não fazem nada para mudar este estado de coisas.

Pelo contrário.

Se houve coisa que Jorge Jesus mostrou, foi precisamente isso: os treinadores brasileiros estão ultrapassados e não querem adaptar-se aos novos tempos. Continuam a jogar um futebol físico, com dois médios defensivos sem capacidade criativa, não sabem posicionar-se corretamente para a transição ofensiva e defendem as bolas paradas com marcações individuais.

Apesar disso, e em vez de olharem para Jorge Jesus como um alerta, olham para ele como uma ameaça. O que os leva a menosprezar o trabalho do português: que tinha o melhor plantel, que tinha mais dinheiro do que os outros, que foi empurrado pelos adeptos.

O que me obriga a estabelecer um paralelo entre o Brasil... e a Inglaterra.

Há coisa de vinte e cinco anos, o futebol inglês era feio, porco e mau. Os clubes já tinham dinheiro, mas os jogos eram muito físicos, muito atléticos, pouco espetaculares.

Inglaterra teve, no entanto, a humildade de perceber que estava mal – e vale a pena lembrar que é o país que inventou o futebol –, quis aprender, quis modernizar-se, quis ser melhor.

Encheu o campeonato de jogadores e treinadores estrangeiros, que trouxeram mais nível técnico, ideias mais claras, uma abordagem mais moderna.

Hoje o campeonato inglês é o melhor do mundo e até a seleção volta a fazer sonhar os adeptos.

Inglaterra teve a humildade de reconhecer que não estava bem, que tinha de aprender com os estrangeiros, que estava obrigada a mudar. O Brasil teve em Jesus a prova de que não está bem, de que não tem conceitos que acompanhem o talento, mas recusa-se a mudar.

Pelo contrário, luta com todas as forças para manter exatamente o estado das coisas.

«Box-to-box» é um espaço de opinião de Sérgio Pereira, diretor do Maisfutebol, que escreve aqui às quartas-feiras de quinze em quinze dias

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