NATO diz-se empenhada na integridade territorial da Bósnia e Herzegovina, onde tensões latentes há mais de 30 anos estão a fervilhar às mãos de Milorad Dodik (na foto), separatista próximo de Putin. “A Rússia está a provocar uma crise nos Balcãs para facilitar a sua posição negocial quanto à Ucrânia”
Zijad Bećirović não tem dúvidas nem pudores na hora de descrever o que se está a passar nos Balcãs, concretamente na Bósnia e Herzegovina, em pleno 2025. “A mensagem para a comunidade internacional é clara”, refere o diretor do Instituto Internacional de Estudos do Médio Oriente e dos Balcãs (IFIMES) à CNN Portugal. “Parem o novo Karadzic – Milorad Dodik!”
Trinta anos depois do fim da guerra da Bósnia, 17 desde que o líder sérvio Radovan Karadzic foi condenado a prisão perpétua por genocídio e crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPI-J), a comunidade internacional está atenta – a começar pela NATO, cujo secretário-geral, Mark Rutte, assegurou numa visita a Sarajevo esta semana o total compromisso da aliança para com a “integridade territorial” da Bósnia.
Confrontado por jornalistas de todo o mundo, o porta-voz do secretário-geral da ONU admitiu dias depois “preocupação” com os “recentes acontecimentos” no país. “Apelamos a todos os dirigentes políticos que apoiem plenamente e facilitem o trabalho das instituições estatais, a fim de consolidar a paz e garantir a estabilidade em toda a Bósnia e Herzegovina”, disse Stéphane Dujarric num email enviado às redações. “Instamos todos os intervenientes relevantes a darem provas de contenção, a abster-se de discursos e ações divisionistas e, em vez disso, a empenharem-se num diálogo e cooperação construtivos.”
As tensões na Bósnia estão em crescendo por estes dias, mas não são de agora. Para entender o que se passa, é preciso viajar até 1991, quando o então líder da Sérvia, Slobodan Milosevic, criou a chamada ‘empresa criminal conjunta’ (JCE) para criar um Estado sérvio “etnicamente limpo”, tal como o TPI-J acabaria por concluir na década seguinte.
“Nessa altura, Milorad Dodik também fazia parte do plano e foi signatário da declaração de 9 de janeiro [de 1992], quando foi criada a República Srpska”, sublinha Zijad Bećirović, que não tem dúvidas: Dodik ainda está a executar a JCE concebida e implementada por Milosevic, sob a qual milhões de pessoas foram mortas e expulsas.
“Podemos falar do mesmo projeto”, assegura. Mas os tempos, esses, não são os mesmos. “Rutte também afirmou que este não é o ano de 1992. Este ‘vazio de segurança’ é uma tentativa de secessão por parte de Milorad Dodik. Foi claramente enviada a mensagem de que a NATO reagiria e não permitiria a guerra, porque a secessão da Bósnia e Herzegovina significa apenas uma coisa – uma nova guerra. E como sabemos, a I Guerra Mundial começou na Bósnia e Herzegovina. Temos de ter muito cuidado com a situação neste país.”
Vazio de segurança
Entre a visita de Rutte a Sarajevo e o comunicado de Dujarric a partir de Nova Iorque, em mais um adensar das tensões, o Ministério Público bósnio ordenou a detenção de Dodik e de dois seus assessores pelo que considerou um “ataque à ordem constitucional” de um país dividido em duas entidades autónomas desde a assinatura dos Acordos de Dayton de 1995, que puseram fim à guerra.
A ordem chegou após o líder da República Srpska, uma dessas duas entidades, ter ignorado duas convocatórias para interrogatório, a par de Radovan Viskovic, o seu primeiro-ministro, e de Nenad Stevandic, presidente do parlamento. Isto, por sua vez, aconteceu após o Tribunal Constitucional da Bósnia ter suspendido a legislação assinada por Dodik a rejeitar a autoridade da polícia federal e do poder judicial bósnios na RS.
Como explicava há alguns dias à CNN Adnan Cerimagic, analista sénior para os Balcãs Ocidentais da European Stability Initiative (ESI), esta legislação “faz parte do esforço mais vasto de Dodik para enfraquecer a autoridade central e evitar as potenciais consequências do processo judicial em curso contra ele” – um processo que, há duas semanas, viu um tribunal estatal de topo em Sarajevo condenar o líder da maioria sérvia da Bósnia a um ano de prisão e ao afastamento da vida política por seis anos.
A sentença surgiu em resposta às tentativas de Dodik de contornar os procedimentos legais estabelecidos sob a frágil estrutura da Bósnia e Herzegovina desde o fim da guerra há 30 anos, nomeadamente sob os Acordos de Dayton que são supervisionados pelo alemão Christian Schmidt, o alto representante internacional no país, que Dodik também desdenha.
Invocando uma “grave crise política e de segurança”, Zijad Bećirović ressalta a importância da NATO para evitar uma escalada do conflito. “É importante que a NATO envie tropas para o distrito de Brcko, uma vez que este território está sob supervisão internacional e divide a RS em duas partes – isto é crucial”, considera o diretor do IFIMES, que refere ainda o “papel vital” dos EUA para garantir a segurança na Bósnia e Herzegovina e na região.
“O papel dos EUA é insubstituível”, sublinha. “Os EUA protegem os Acordos de Dayton e a Bósnia e Herzegovina. Os destruidores da Bósnia e Herzegovina depositaram as suas esperanças na nova administração dos EUA e começaram a destruir a Bósnia e Herzegovina – e aqui não devemos esquecer a União Democrática Croata (HDZBiH) e Dragan Covic que, em cooperação com Dodik, destroi subtilmente a Bósnia e Herzegovina.”
Com as expectativas de Dodik em relação à nova administração Trump a saírem goradas, pelo menos por agora, é “importante garantir uma transição pacífica do poder com a saída de Dodik”, defende Bećirović, bem como “alertar os países da região, especialmente a Sérvia e a Croácia” – o segundo um Estado-membro de pleno direito da União Europeia (UE) desde 2013, o primeiro ainda apenas candidato à adesão, num processo que continua em águas de bacalhau dado o não-reconhecimento do Estado do Kosovo, sinais de retrocesso democrático e o alinhamento da política externa com a Rússia.
UE ocupada "a lidar consigo própria"
Num relatório divulgado em maio, perante fortes sinais de separatismo por Dodik e seus aliados próximos, o International Crisis Group já instava a UE a ajudar a travar a fragmentação da Bósnia e Herzegovina, dizendo que o bloco devia coordenar-se com os EUA. Mas isso foi em maio, antes de Donald Trump ter sido reeleito presidente dos EUA e ter enviado sinais de que pretende abdicar de alianças de longa data, nomeadamente com os europeus, enquanto mantém uma postura algo relaxada em relação à Rússia de Vladimir Putin.
Com a Ucrânia invadida em larga escala por tropas russas pelo quarto ano consecutivo, são vários os analistas que consideram que a situação na Bósnia é só mais uma de um rol de crises que estão a ser exploradas pelo Kremlin no contexto do atual braço-de-ferro com a UE. “A Rússia está a provocar uma crise nos Balcãs a fim de facilitar a sua posição negocial quanto à Ucrânia”, defende Zijad Bećirović.
Esta é, aliás, “a maneira de atuar da Rússia em todo o mundo”, adianta o especialista. “Dodik é um representante russo na Bósnia e Herzegovina. A Rússia tem uma presença capilar na Bósnia e Herzegovina”, ressalta o especialista. “Temos um governo pró-Putin na República Srpska, mas também ao nível da Bósnia e Herzegovina – o conselho de ministros da Bósnia e Herzegovina está sob influência pró-Putin.”
Sem menções à Rússia, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, alertou há uma semana que as ações de Dodik ameaçam a segurança e a estabilidade da Bósnia, apelando aos parceiros regionais que se juntem para “repelir este comportamento perigoso e desestabilizador”.
Questionado sobre a posição dos EUA ao leme de Trump, o diretor do IFIMES destaca que, “por enquanto, felizmente, a nova administração está a criticar Dodik e a ameaçar intervir”, mantendo o líder dos bósnios-sérvios e seus associados na “lista negra” de pessoas que representam ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos, "que é a base para a intervenção dos EUA". E, "claro, temos também os Acordos de Paz de Dayton, cujo autor e garante são os EUA – sob cujos termos se comprometem a assegurar uma paz duradoura e um Estado funcional na Bósnia e Herzegovina”, acrescenta.
Com forças militares internacionais (EUFORBiH) estacionadas no país, na sua maioria provenientes de países membros da NATO, “a ação da administração americana e dos seus aliados fica facilitada” caso haja a necessidade de intervir. Essa missão, anunciou entretanto a delegação da UE na Bósnia em resposta às mais recentes ações de Dodik, vai ser “temporariamente aumentada”.
A mesma delegação sublinhou que todas as decisões tomadas pelo Tribunal Constitucional da Bósnia, incluindo medidas provisórias que ainda possam ser sujeitas a recurso, têm de ser respeitadas por todas as partes envolvidas. O problema, aponta Zijad Bećirović, é que, neste momento, para além de estar ocupada "a lidar consigo própria", a UE "está a repetir o mesmo erro que no final dos anos 1990, quando deixou a Bósnia e Herzegovina entregue ao regime de Milosevic e ao exército sérvio".
"A UE tem medo da Federação Russa e, ao mesmo tempo, não tem a certeza de que a nova administração dos EUA apoie a NATO, e sem a proteção americana, fica vulnerável", sublinha o especialista, dando como exemplo o facto de a Sérvia, "que declarou neutralidade", ter "quase o mesmo número de tanques que a Alemanha", quando a Alemanha "é quase oito vezes maior em termos de população".
"A UE espera que os EUA resolvam os problemas da UE e dos Balcãs, e isto tem acontecido desde os anos 1990 até hoje. Esse é o maior erro. Só que, desta vez, se o conflito rebentar, toda a UE será arrastada para a guerra."
