“Se a UE continuar a adiar ações decisivas na Bósnia-Herzegovina, o vazio geopolítico resultante vai provavelmente ser explorado por outras potências globais, incluindo a Rússia e a China, cuja influência na região continua a expandir-se", com "consequências a longo prazo não só para os Balcãs Ocidentais, mas para a segurança europeia no seu todo"
Faltavam dois dias para a Bósnia-Herzegovina e os Estados Unidos se defrontarem nos 16 avos de final do Mundial quando representantes dos dois países e da União Europeia (UE) se reuniram em Sarajevo para tentar pôr fim a uma outra disputa – política, não desportiva, e com potenciais implicações que extravasam as fronteiras dos Balcãs Ocidentais.
O encontro teve lugar na terça-feira, semanas depois de Christian Schmidt ter renunciado ao cargo de alto representante internacional para a Bósnia-Herzegovina, cargo preconizado pelos Acordos de Paz de Dayton de 1995, que o ex-ministro alemão ocupava desde 2021. Quando anunciou a sua saída repentina, Schmidt invocou uma pressão "enorme e inesperada" da parte da administração de Donald Trump – uma versão que especialistas ouvidos pela CNN Portugal minimizam.
“Nesta fase, não existem provas públicas credíveis de que a demissão de Christian Schmidt tenha sido o resultado direto de pressões por parte dos Estados Unidos, pelo que tais alegações devem ser tratadas com cautela”, ressalta Zijad Bećirović, diretor Instituto Internacional de Estudos do Médio Oriente e dos Balcãs (IFIMES). “O que é certo, contudo, é que a abordagem internacional em relação à Bósnia-Herzegovina está a evoluir em resposta a mudanças geopolíticas mais amplas e à alteração das prioridades estratégicas entre os principais intervenientes internacionais.”
No início da semana, um ex-responsável do governo Biden para a Europa e a Eurásia deitou mais achas na fogueira balcânica ao declarar que a administração Trump está “focada em fazer negócios em detrimento da paz” na região, invocando um “comportamento” do atual governo dos EUA que “mina a paz que se mantém há 30 anos” e que foi assumido em maio, no mesmo mês em que Schmidt se demitiu.
“No mês passado, os EUA anunciaram uma nova política para os Balcãs Ocidentais: doravante, as suas decisões serão orientadas pela necessidade de procurar o ‘retorno direto’ para as empresas americanas, o que substitui o objetivo de ‘construção institucional sem prazo definido’, que tinha sido a essência da política internacional desde os Acordos de Paz de Dayton para a Bósnia-Herzegovina de 1995 – mas este anúncio apenas refletiu o que já está a acontecer na região sob o segundo mandato de Trump”, escreveu Jim O’Brien num artigo de opinião para o European Council on Foreign Relations.
“Qualquer perceção de que a estabilidade da Bósnia-Herzegovina a longo prazo está a ser subordinada a cálculos geopolíticos de curto prazo ou a interesses económicos constituiria um grave erro estratégico”, contrapõe Bećirović sobre o artigo de O’Brien. “A paz sustentável não pode ser alcançada através de uma política transacional, apenas através de um compromisso consistente com o Estado de Direito, as instituições democráticas, a ordem constitucional e a plena implementação dos Acordos de Paz de Dayton.”
A reunião de ontem em Sarajevo para escolher um novo alto representante terminou sem compromisso, o que significa que EUA e UE continuam num braço-de-ferro que ameaça minar ainda mais a coesão dos Balcãs Ocidentais, numa altura em que a Bósnia se encontra a braços com forças secessionistas que, nas palavras de Bećirović, “continuam a prosseguir objetivos que se assemelham a ambições dos tempos da guerra", ainda que "através de meios políticos em vez de ações militares”.
A única coisa sobre a qual as partes chegaram a acordo na terça-feira foi que Schmidt deve terminar imediatamente o seu mandato – como a administração Trump tem exigido – para que o seu vice – o diplomata norte-americano Louis J. Crishock – assuma o cargo pelo menos durante as próximas duas semanas.
Num comunicado divulgado na última noite, o conselho de administração do Conselho de Implementação da Paz (PIC) disse estar “empenhado em chegar a acordo sobre a seleção de um novo alto representante o mais depressa possível, com o objetivo de concluir a nomeação o mais tardar até 14 de julho”. Mas ainda não há quaisquer garantias de que esse consenso vá ser possível num futuro próximo, sendo esse um consenso que envolve mais do que apenas o futuro da Bósnia-Herzegovina, defende Adnan Cerimagic, analista sénior para os Balcãs Ocidentais da European Stability Initiative (ESI).
Cerimagic fala num exemplo por excelência da “crise de confiança transatlântica” que se instalou no último ano e meio. "Washington diz que ainda apoia a soberania da Bósnia, a nomeação de Dayton e um alto representante com uma atuação mais flexível" e “a Europa tem pouco a contestar nisso”, assume o especialista – ao contrário da “intenção” dos EUA, que é precisamente o ponto que os europeus estão a questionar. “Quando a postura mais ampla dos EUA em relação à Europa e os sinais de que o principal interesse de Washington nos Balcãs é económico apontam noutro sentido, os europeus têm o direito de perguntar qual seria, de facto, a utilidade do cargo [do alto representante].”
Quando O’Brien sugere que a administração Trump está empenhada em ‘negócios em detrimento da paz’, adianta o analista do ESI, está a expressar “uma suspeita ainda não provada mas [que] em junho foi suficiente para inviabilizar a nomeação” do sucessor de Schmidt. E isso augura problemas não apenas para os Balcãs. Como ressalta Bećirović, “a História tem demonstrado repetidamente que a instabilidade na Bósnia-Herzegovina raramente se limita a uma questão puramente interna”, com as crises no país, “desde o início da I Guerra Mundial até aos conflitos da década de 1990, a produzirem repetidamente consequências regionais e internacionais mais vastas”.
“Por estas razões”, adianta o diretor do IFIMES, “a integração estratégica da Bósnia-Herzegovina na NATO e na União Europeia não deve ser vista apenas como uma questão de desenvolvimento futuro do país, mas também como um investimento a longo prazo na segurança, estabilidade e resiliência do sudeste da Europa e do espaço euro-atlântico mais amplo”.
Atrito surgiu do processo, não do nome
Neste momento, há duas barricadas em competição: de um lado, EUA e Itália querem que seja o diplomata italiano Antonio Zanardi Landi, com pouca experiência prática nos Balcãs, a suceder a Schmidt; do outro, estão o Reino Unido, França, Alemanha e outros países europeus alinhados em torno do candidato francês René Troccaz, atual enviado de Paris para a região. Para os dois especialistas ouvidos pela CNN, contudo, a grande questão em cima da mesa vai para lá dos nomes.
“O erro é o foco na pessoa”, defende Adnan Cerimagic. “O atrito surgiu do processo – Washington a pressionar um candidato de forma incisiva e acelerada – e da desconfiança gerada a propósito do cargo. Qualquer alto representante só irá manter-se em funções se todos os lados, em Washington e na Europa, sentirem que os seus interesses foram ouvidos; um nome imposto para satisfazer apenas um dos lados não terá esse efeito.”
“Em última análise”, acrescenta Zijad Bećirović, “a credibilidade e eficácia do gabinete do alto representante dependem não só do indivíduo que ocupa o cargo, mas também da consistência, da unidade e da determinação política da comunidade internacional em apoiar o seu mandato. Se o diplomata italiano se tornar o novo alto representante, deverá ser avaliado com base nas suas ações e decisões e não em pressupostos ou expectativas políticas.”
Acima de tudo, os analistas consideram que o sucesso de quem vier a substituir Schmidt vai depender, em larga medida, do apoio consistente e unificado da comunidade internacional, em particular dos EUA, da UE e de outros membros do Conselho de Implementação da Paz. E com eleições gerais marcadas para outubro no país, é da máxima urgência evitar a todo o custo “mais um período de incerteza, ambiguidade política ou paralisia institucional” na Bósnia-Herzegovina, ressalta Bećirović.
“As próximas eleições vão representar um teste crucial à resiliência democrática do país. As eleições por si só não podem resolver os desafios estruturais da Bósnia-Herzegovina, mas podem determinar se o país avança no sentido da consolidação democrática, da reforma institucional e da integração europeia – ou no sentido de uma fragmentação política e instabilidade ainda maiores.”
A atual disputa entre EUA e UE quanto ao futuro alto representante evidencia o quanto a realidade atual da Bósnia ainda é definida pela guerra que devastou os Balcãs entre 1992 e 1995, na qual cerca de 100 mil pessoas foram mortas, na sua maioria bósnios muçulmanos massacrados pelas forças militares da Sérvia e, em menor escala, pelas forças da Croácia.
A assinatura dos Acordos de Dayton, mediados pelos EUA no final de 1995, veio pôr fim ao derramamento de sangue, mas consolidou o papel dominante da política étnica e a divisão da Bósnia-Herzegovina em duas metades: a Federação Bósnio-Croata e a República Srpska, uma entidade gerida pelos sérvios. E foram esses mesmos acordos que criaram a figura do alto representante, uma entidade com amplos poderes para supervisionar a aplicação prática do documento e contribuir para uma maior integração étnica da Bósnia-Herzegovina – uma missão que falhou largamente, com o país tão dividido hoje quanto antes e durante a guerra, e a República Srpska sob o domínio do separatista sérvio-bósnio Milorad Dodik.
Enquanto alto representante, Christian Schmidt fez uso dos seus amplos poderes, incluindo a capacidade de impor leis ou de destituir funcionários eleitos, o que o colocou em rota de colisão com Dodik, aliado de Moscovo. E agora, os EUA apoiam a manutenção do cargo, mas querem que o alto representante transfira esses poderes para as instituições bósnias.
O risco de um "vazio geopolítico"
É neste ponto que tanto Bećirović quanto Cerimagic defendem que a UE pode e deve desempenhar um papel mais preponderante, mesmo que Washington consiga levar a sua avante na nomeação do sucessor de Schmidt – nomeadamente garantindo que o processo de adesão da Bósnia-Herzegovina ao bloco se mantém no horizonte.
“A verdadeira alavanca da UE não reside no alto representante, mas sim no processo de adesão e nos instrumentos que, de facto, apaziguaram as crises de 2021, 2022 e início de 2025: pressão diplomática, linhas vermelhas claras, sanções e a recusa de atores internos, incluindo na República Srpska, em acatar as exigências”, defende Cerimagic. “Quem liga o futuro da Bósnia ao destino de um único cargo está a divulgar uma narrativa perigosa, sem qualquer fundamento. A adesão não está em risco por causa deste diferendo, mas sim porque, ao longo de mais de duas décadas, as promessas da UE nunca se concretizaram, nem na Bósnia-Herzegovina, nem noutros países dos Balcãs Ocidentais.”
Para o analista do ESI, “o problema nunca foram apenas estes países, os seus líderes ou a falta de reformas, foi também a ausência de uma visão e de vontade da UE para os integrar” – uma visão que é partilhada pelo diretor do IFIMES. “A UE deve ir além do apoio declarativo e assumir um papel geopolítico mais decisivo na Bósnia-Herzegovina – a política de alargamento continua a ser um dos instrumentos estratégicos mais poderosos da UE, mas só pode ser eficaz se for apoiada por um compromisso político credível, um envolvimento consistente e um roteiro claro para as reformas”, defende Zijad Bećirović.
Em pleno braço-de-ferro entre os EUA e a UE e eleições na Bósnia dentro de três meses, “as aspirações europeias da Bósnia-Herzegovina estão em risco”, adianta o especialista, “não porque os seus cidadãos tenham perdido a fé no projeto europeu, mas porque os bloqueios políticos persistentes, a par de um envolvimento internacional inconsistente, enfraqueceram a confiança na credibilidade do processo de adesão”. E isso só pode ser resolvido com mais “ações decisivas” por parte de Bruxelas e dos Estados-membros.
“Se a UE continuar a adiar essas ações, o vazio geopolítico resultante vai provavelmente ser explorado por outras potências globais, incluindo a Rússia e a China, cuja influência na região continua a expandir-se. Tal desenvolvimento teria consequências a longo prazo não só para os Balcãs Ocidentais, mas também para a segurança europeia no seu todo. O tempo está a esgotar-se – não apenas para a Bósnia-Herzegovina e os Balcãs Ocidentais, mas também para a UE – e as decisões tomadas hoje irão moldar a orientação geopolítica e a arquitectura de segurança da região durante as próximas décadas.”
