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21 novembro 2022

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Boris revela conversa com Putin em que percebeu que o presidente da Rússia quer "ser o novo Pedro, o Grande"

21 nov, 23:50

Antigo primeiro-ministro já vê um (o único) fim para a guerra e deixa uma mensagem de esperança

Vladimir Putin sempre soube que a Ucrânia não ia entrar na NATO, que não havia perigo de instalação de mísseis norte-americanos em território ucraniano ou até que Kiev não consistia em qualquer ameaça a Moscovo. A garantia foi deixada pelo antigo primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que revelou uma conversa que teve com o presidente da Rússia, e na qual percebeu a verdadeira motivação para a guerra na Ucrânia: “era sobre ser o novo Pedro, o Grande”, o czar que conseguiu criar o poderoso Império Russo, só desfeito no século XX, com a chegada dos bolcheviques.

Num discurso em Lisboa, onde o britânico esteve a convite da CNN Portugal, por ocasião do primeiro aniversário do canal, Boris Johnson explicou que disse tudo isso a Vladimir Putin, afirmando que o presidente russo entendeu e até concordou com os argumentos do Ocidente.

“Aí percebi que as motivações não eram sobre a Ucrânia. Eram sobre ele e o papel que imagina como como homem que vai reconstruir o império soviético, é sobre ser o novo Pedro, o Grande. Invadiu a Ucrânia porque pensava que o faria mais popular, porque estava iludido e porque não tinha ninguém para o confrontar”, afirmou Boris Johnson, referindo-se mesmo aos “conselheiros tipo padres ortodoxos tontos” que aconselham a mais alta figura do Kremlin, e que lhe dizem que a Ucrânia não é um país com direitos próprios.

O antigo primeiro-ministro britânico disse que esse foi o erro de Vladimir Putin: pensar que um país que é independente há 31 anos, e cujo sentimento nacional se fortaleceu com a anexação da Crimeia em 2014, não o é verdadeiramente.

Por isso, para Boris Johnson, a Europa deve continuar ainda mais unida no apoio à Ucrânia, mesmo que a crise provocada pela guerra faça aumentar as críticas das populações. É que, para o britânico, os heróis cujos nomes estão inscritos na praça Maidan, em Kiev, merecem isso, merecem paz. Mas não a qualquer custo.

Ainda que entenda as preocupações dos europeus quando chega o inverno e os preços continuam a aumentar – a inflação ronda os 10% em Portugal, número que Boris Johnson até prevê que possa ser maior no Reino Unido – o britânico não quer uma paz “podre”, uma paz negociada segundo as exigências de Moscovo. Muito menos quando a Rússia anexou, de forma ilegal, quatro regiões ucranianas (Kherson, Zaporizhzhia, Donetsk e Lugansk).

“Enquanto jantamos existem milhares de europeus sem luz, aquecimento ou água por causa das centenas de ataques numa tentativa cínica de enfraquecer o moral [dos ucranianos]. Enquanto o frio se intensifica, o sofrimento vai crescer”, acrescentou, falando num mundo “abanado pelo custo de vida”, mas que não deve deixar de apoiar os ucranianos, tanto a nível político, como a nível militar: são precisos mais tanques, mais mísseis, mais sistemas de HIMARS.

E daí saiu um agradecimento a António Costa e ao Governo português “pelo que estão a fazer”, dizendo que os dois países estão “lado a lado”, para conseguir o objetivo e o único “fim possível e tolerável”: “que Putin falhe e a Ucrânia ganhe”.

“Os ucranianos querem paz, sei que Zelensky faria um acordo se conseguisse, mas é claro que Putin não pode ser confiável”, disse ainda, recusando, como tem feito o presidente ucraniano, um cenário de acordo em que a Ucrânia abdica de terra sua para chegar à paz.

“Como podemos negociar com um crocodilo quando ele está a morder a nossa perna e o seu objetivo é devorar todo o nosso corpo?”, questionou Boris Johnson, dizendo que o papel do Ocidente é de apoiar a Ucrânia, apoio esse que entende que deve ser redobrado. Até porque, segundo o próprio, se fornecermos todas as tecnologias necessárias, os ucranianos farão o resto porque “têm liderança e coragem” para expulsar os russos de todas as terras perdidas.

O medo do nuclear e o pós-guerra

Um dos grandes receios é que uma vitória ucraniana possa espoletar um lado nuclear na guerra. Que Vladimir Putin utilize o arsenal mais drástico para, sob a bandeira de que está em causa a soberania da Rússia, atacar Kiev e as outras cidades de forma decisiva.

Boris Johnson não acredita nesse cenário, defendendo que Vladimir Putin sabe que, a partir desse momento, perderia todo o apoio ou conivência que ainda tem, nomeadamente de países como China ou Índia, mas também em África ou na América do Sul. E essa noção do presidente russo vai mais longe: “ele sabe que aterrorizaria a sua própria população, que colocaria a Rússia num isolamento total, em décadas de pobreza”.

Algo que Boris Johnson já vê, de certa forma, acontecer. O britânico afirmou que a Rússia já perdeu mais soldados na Ucrânia que nos dez anos de “ocupação” do Afeganistão. “Não demorará a ultrapassar as perdas dos Estados Unidos em 15 anos de Vietname”, disse ainda, referindo que as tropas russas praticam crimes de guerra como “violações constantes, salas de tortura ou armadilhas”, o que resultou e resulta na morte de dezenas de milhares de civis espalhados por escolas, jardins de infância ou hospitais.

Vislumbrando um futuro que diz ser o único possível, e olhando também para a transição energética que a guerra acelerou, Boris Johnson despediu-se com uma mensagem de esperança: “quando Putin sair da Ucrânia o mundo será incomparavelmente melhor”.

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