«Uma tragédia»: adeptos do Bordéus unem-se para evitar o desfecho do Boavista

Samuel Santos , Bordéus, França
21 jul, 23:59
Bordéus (THIBAUD MORITZ/Getty)
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Porto e Bordéus têm muito em comum, a começar pela cultura vinícola – por isso são irmãs desde 1978. Quis o destino que nestas cidades florescesse uma só trepadeira, capaz de sufocar dois antigos campeões: Boavista e Bordéus. O Maisfutebol esteve na capital internacional do vinho e registou os sentimentos de Julien Bée e de Christophe Clerfeuille, dois adeptos do berço. Em anos incertos, estes girondinos dão o mote para o futuro

Já lá vão 48 anos desde que Porto e Bordéus são oficialmente cidades irmãs, ora pela identidade vinícola, ora pela arquitetura e organização urbana distintas, pela proximidade de um rio, ou até pela Rua de Santa Catarina corresponder à principal artéria comercial. Todavia, nem todas as semelhanças são positivas.

No futebol, o empresário Gérard López é fator comum na ruína financeira e desportiva de Boavista e FC Girondins de Bordeaux, emblemas históricos que conquistaram os respetivos campeonatos.

O clube francês fundado em 1881 caiu dos campeonatos profissionais e arrisca a liquidação, uma vez que não reuniu os 9 milhões de euros necessários para continuar na quarta divisão, não obteve novo perdão da dívida, nem chegou a acordo com novos investidores em tempo útil. De acordo com a imprensa local, os britânicos da Sparta Capital negoceiam com Gérard Lopez há dois meses.

Num descalabro sem fim – sem comparação com as fases negativas nas décadas de '70 e '90 – o clube caiu para a Ligue 2 em 2022 e, por punição administrativa, para a quarta divisão em 2024. De dois em dois anos, eis um novo revés.

Dias antes desta decisão ser oficializada, o Maisfutebol esteve na capital internacional do vinho a propósito do Tour de France, aproveitando para conversar com dois filhos da região de Gironde.

Tal como há um ano em Toulouse, o Maisfutebol visitou Bordéus – oficialmente cidade irmã do Porto desde 1978 – à boleia da VELUX.

Longe – muito longe – vão as conquistas de Ligue 1 (seis, a última em 2009), Supertaça (três, a última em 2009), Taça (três, a última em 2013), Taça da Liga (três, a última em 2009) e Taça Intertoto (1995). Igualmente longínquas vão as épocas com Zidane entre os titulares e com Toni e Jesualdo Ferreira ao leme (1994/95).

Desde o final do século XX, muito mudou. Quase tudo. Até o estádio. A propósito do Euro 2016, o Bordéus deixou o Parc Lescure (Stade Chaban-Delmas) – inaugurado em 1924 – e mudou-se para o Stade Atlantique, estreado em 2015 e com capacidade para 42 mil pessoas. Nessa altura, os problemas financeiros já pairavam sobre o 11.º classificado da Ligue 1.

«O que estamos a atravessar é uma tragédia desportiva e humana, é extremamente doloroso. O Gérard López não é a causa de todos os problemas, pois o clube já acumulava prejuízos significativos das gestões anteriores (M6 e King Street). No entanto, esperávamos que fossem apresentadas soluções duradouras.»

O relato de Julien Bée espelha a desilusão instalada, numa encruzilhada sem saída fácil. Adepto desde o berço, acompanha o quotidiano do Bordeús e narra os jogos há quase 20 anos, numa missão que requer «paixão e honestidade».

Ao Maisfutebol, o jornalista descreve a era Gérard López- iniciada em 2021 – como «uma sucessão de desilusões, com promessas quebradas e dificuldades financeiras recorrentes».

Déjà-vu”, Boavista?

«As dificuldades apresentadas nos belgas do Mouscron deveriam ter servido de aviso. Mas o Bordéus é diferente, muitos acreditavam que um projeto mais ambicioso poderia ter sucesso. Hoje é fácil dizer que os sinais estavam lá. Acredito que seja possível reconstruir o clube. Vai ser necessário tempo, paciência e uma gestão estruturada. Perdemos o poder financeiro, mas nunca a identidade, nem os adeptos.»

«Apesar do contexto, os adeptos continuaram a encher o estádio. O ambiente foi excecional nesta temporada. Os adeptos não estão apenas a defender uma equipa, mas toda a instituição», atira Julien Bée.

Esta vontade de libertação e reconstrução é intrínseca à região em momentos de tensão. No final do século XVIII, durante a Revolução Francesa, a burguesia de Gironde uniu-se na ala “direita moderada” – em oposição aos jacobinos – para tentar evitar a execução do rei Luís XVI e a ascensão da “plebe”. Por isso, ficaram conhecidos como os girondinos.

A aparente solução para travar o radicalismo surgiu em 1799, quando os girondinos ajudaram Napoleão a agarrar o poder. Todavia, Bonaparte viria a impedir a República Parlamentar, ascendendo a Imperador.

As lições da História não têm data de validade.

Enquanto reflete sobre o próximo capítulo do clube do coração, Julien Bée destaca o campeonato conquistado em 2009 como a «memória mais extraordinária», além das «grandes noites europeias». Ao longo das décadas foi colecionando camisolas, cachecóis e demais objetos do Bordéus.

«Tenho o sonho de organizar um museu e de transmitir a história às novas gerações. Bordéus é uma cidade desportiva, tanto o râguebi como o futebol contribuem para o nosso prestígio. Atualmente, o Union Bordeaux Bègles está no auge, até porque é bicampeão europeu de râguebi», termina.

Antes da despedida, o jornalista aconselhou o Maisfutebol a conversar com Christophe Clerfeuille, presidente do ADN Girondins.

Do passado perspetiva-se o futuro

O projeto inaugurado por Christophe em 2025 eterniza o passado e projeta o futuro do clube, sem pensar no presente. Ao Maisfutebol, o funcionário público em Bordéus – adepto desde berço, herdeiro desta paixão e sócio fervoroso – não esconde a mágoa.

«Infelizmente já não controlamos os danos. Ainda assim, aconteça o que acontecer, estaremos sempre presentes», relata. Por isso, agarrou-se à nostalgia para combater o «desconhecimento» dos jovens.

Christophe, à direita, com o antigo jogador Poundjé.

Colecionador de camisolas há várias décadas, o entrevistado do Maisfutebol recorda a primeira «grande exposição» do ADN Girondins, em abril, que contou com a presença de «ícones e lendas como Alain Giresse, Patrick Battiston, Gernot Rohr, Marius Trésor, François Grenet e Marc Planus».

«Vamos procurar parceiros financeiros para a próxima exposição. Queremos que seja ainda mais bonita e emotiva. É o que temos antes de o clube regressar à glória. Serão necessários muitos anos para voltar ao topo», remata Christophe Clerfeuille.

Tal como no brasão da cidade de Bordéus, o FC Girondins de Bordeaux ostenta a lua crescente, em menção à curva do rio Garona. Todavia, em dose tripla. Além do ano de fundação, no escudo do clube é também visível o famoso escapulário em forma de "V", influenciado pela religião – uma vez que o frade Simão Stock faleceu em Bordéus – e pela moda que vigorava no princípio do século XX.

Quase 145 anos depois da fundação, o FC Girondins de Bordeaux bateu no fundo. Por isso, a energia das suas gentes será decisiva para fechar o capítulo Gerárd López, agarrar o poder de decisão, evitar um desfecho semelhante ao Boavista e iniciar a longa viagem de regresso ao topo.

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