"Vamos ser mais duros, têm de se habituar". Do Whatsapp à "traição de sindicalistas": como surgiu o movimento dos bombeiros

3 dez 2024, 22:00

Protesto "espontâneo" não teve mão de sindicatos e a própria Liga dos Bombeiros foi apanhada de surpresa. Entre os gritos de ordem e os petardos, há sindicalistas a acusar outros de "traição"

Um movimento inorgânico que foi crescendo durante vigílias à porta da Assembleia da República e organizado a partir de conversas de Whatsapp, um sindicato que nasceu em 2019 “contra a traição dos sindicalistas tradicionais” e uma manifestação “espontânea” que levou centenas a cercar a sede do Conselho de Ministros e a suspender as negociações que lá decorriam entre o Governo e os representantes daqueles trabalhadores. Ao mesmo tempo que a PSP já pediu ao Ministério Público que investigue as circunstâncias do protesto, entre as estruturas sindicais há vontade de subir o tom dos protestos. “Vamos ser mais duros, mais diretos, têm de se habituar”, avisa Ricardo Cunha, dirigente do Sindicato Nacional de Bombeiros Sapadores (SNBS). 

A manifestação começou de manhã no quartel de Alvalade e a PSP só se apercebeu dela através das redes sociais. Sob uma coluna de fumo, sons de petardos e gritos de ordem como “Está a arder? Passem a chamar os políticos”, os sapadores caminharam lentamente até se concentrarem em definitivo à volta da sede do Governo, no Campus XXI, em Lisboa, enquanto dentro do edifício decorriam negociações com vista a um aumento do subsídio de risco, do subsídio de insalubridade e disponibilidade e da posição remuneratória daquele setor.

Essas negociações, contudo, acabaram por ser suspensas após o Executivo ver aquele gesto como uma coação. “Não estão garantidas, até ao momento, as condições de segurança”, disse na altura fonte oficial. O anúncio fez subir o tom dos protestos contra o Executivo, mas também contra os sindicatos. Num desses momentos, José Abraão, da FESAP, que acabava de discursar a um megafone, foi interrompido por vários bombeiros que disseram que o sindicalista não os representava. “Aquele homem não representa os bombeiros sapadores”, disse um deles. 

Contactado pela CNN Portugal, José Abraão viu o momento de tensão com “naturalidade”. “É normal que passados tantos anos, haja algum desconforto por parte destes manifestantes”.  O dirigente diz que a multidão nasceu de um “movimento espontâneo” e que não foi convocada por qualquer estrutura. Esse fator, assegura, “criou entraves à negociação”. “Quer melhor entrave do que a suspensão?”. “Na FESAP somos muito adeptos da negociação coletiva, normalmente não enveredamos por esse caminho”.

Já o dirigente do SNBS garante que os sapadores sentem-se “traídos” com “os sindicatos tradicionais” e que foi essa realidade que o levou a criar o sindicato que agora representa e que, diz, “é o maior do País”. “Esses sindicalistas traíram os bombeiros em 2019 quando durante a revisão de carreiras aceitou que fôssemos penalizados nas reformas”. Sobre a suspensão das negociações com o Governo, defende ainda que tal aconteceu porque o Executivo “instigou os bombeiros com propostas insultuosas”. 

Ambos os dirigentes garantem que não convocaram qualquer manifestação e que a mesma ocorreu sem qualquer intervenção sua. Foi, dizem, o culminar das várias vigílias que têm sido organizadas por sapadores no Parlamento através das redes sociais. “Vêm para fiscalizar a ação dos próprios sindicatos”, afirma Ricardo Cunha. Também o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Nunes, desconhece a origem do protesto e garante ter sido apanhado de surpresa. “Não soubemos de nada, nem nos metemos nisso. Trata-se de uma questão sindical”.

Neste momento, em cima da mesa, está uma proposta do Governo de atribuir um subsídio de risco aos sapadores de 50 euros em 2024, 75 euros no ano seguinte e 100 euros em 2027 pago durante 12 meses. Todos os sindicatos acham “inaceitável” esta proposta, com variações sobre aquilo que deve ser atribuído. A FESAP pede que o valor seja equiparado a 15% da última posição remuneratória do respetivo chefe principal do corpo de bombeiros pago durante 14 meses. “Acreditamos que as negociações devem decorrer e, no fim, perante o seu desfecho convocar os trabalhadores para sair à rua”. 

"Há forças a aproveitarem-se deste descontentamento"

Já o Sindicato Nacional de Bombeiros Sapadores defende que o subsídio de risco alcance os 30%. “Não se percebe porque é que os sindicatos tradicionais propõem o mínimo nas negociações”, afirma o representante. Enquanto isso, a Associação Nacional de Bombeiros Profissionais convocou para esta quarta-feira, dia 4 de dezembro, um Conselho Geral de caráter urgente com a presença dos seus dirigentes e delegados de todo o País. “Durante o Conselho Geral, os dirigentes vão definir estratégias de atuação, nomeadamente a realização de greves e de manifestações, como forma de protesto contra a inoperância do Governo, exigindo assim que as legítimas reivindicações dos Bombeiros Sapadores sejam atendidas de forma justa e urgente”, reforçou fonte da ANBP.

Entre os bombeiros ouvidos pela CNN Portugal há a perceção de que a imagem que os sapadores passaram ao país durante a manifestação “não foi a melhor”. “Vimos bombeiros em desordem e há forças a aproveitarem esse descontentamento e a corporizá-lo”, afirma o comandante Jorge Mendes, acrescentando que a subida de tom dos protestos é sintoma da inação de vários governos, mas também das falhas dos sindicatos. “As pessoas estão cansadas de ouvirem várias vezes que têm de ter calma e que os seus problemas serão resolvidos”, explica. 

Há também quem associe o aproveitamento desse descontentamento ao próprio Sindicato Nacional de Bombeiros Sapadores. O seu dirigente, Ricardo Cunha, já discursou em eventos do Chega e participou em podcasts associados ao partido de André Ventura, mas garante que não tem qualquer relação com nenhum poder político. “Dou-me bem com todos os que quiserem ajudar os sapadores”. 

Certo é que em várias corporações de bombeiros têm surgido críticas à forma de agir deste sindicato, especialmente por “acentuar divisões entre os bombeiros sapadores e os voluntários”, como refere o comandante Paulo Santos. “Têm tido uma postura ‘anti voluntária’, procurando formatos mais extremistas de manifestações”. “São atitudes que não dignificam os bombeiros”, acrescenta, referindo-se à manifestação desta terça-feira. 

“Não somos iguais”, justifica Ricardo Cunha sobre essas divisões. “Temos um País que está a saque e há em Portugal um socorro por parte dos Bombeiros Voluntários que entristece”, sublinha, apontando que defende a existência de uma profissionalização do setor para que “toda a gente tenha métodos de trabalho e limiares de entrada idênticos”.

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