Passam 80 anos do bombardeamento de Hiroshima, uma das duas vezes que o mundo viu explodir uma ogiva nuclear
Precisamos de falar acerca de armas nucleares. São assustadoras. O grande reavaliar do nuclear está em curso e muitos países consideram adquirir um arsenal nuclear como apólice de proteção. Depois da energia e da produção industrial, a Europa é apanhada novamente desprevenida, desta vez na sua defesa, devido à mudança de planos do governo Americano. A Europa deixou a energia para a Rússia, a defesa para os Estados Unidos e a produção para a China. E mais uma vez, corremos atrás do prejuízo. O objetivo deste artigo é introduzir e explicar alguns conceitos base que poderão circular nas notícias. O artigo tenta ser o mais factual possível, e não há qualquer intenção de glorificar um conflito com armas nucleares.
Poder explosivo - "yield"
O poder explosivo (“yield”) de uma ogiva nuclear é medido em toneladas equivalentes de TNT. O dispositivo “Little Boy“, utilizado em Hiroshima, estima-se ter 15 quilotoneladas equivalentes de TNT, 15kt para abreviar. A maior ogiva detonada em testes, a Tsar Bomba da União Soviética, tinha um excesso de 50 megatoneladas equivalentes de TNT (50Mt). A Tsar Bomba tinha um poder destrutivo equivalente a 3.300 vezes Hiroshima. Para ver o impacto destes dispositivos, existe o website Nukemap, criado por Alex Wellerstein.
À data de publicação deste artigo, a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA, na sigla original) estima que o Irão possua o equivalente a 400kg de Urânio enriquecido a 60%. Mas o enriquecimento não é um processo linear: quanto mais refinado, mais fácil é continuar a refinar. Ao chegar aos 60% de enriquecimento, já foi usada 90% da energia necessária para chegar às aplicações militares, que necessitam de enriquecimentos superiores a 90%. Algumas estimativas apontam que estes 400kg poderiam gerar material até 10 bombas entre 10kt-20kt. Os cálculos têm alguma margem de erro devido a fatores desconhecidos. Estima-se também que o reator de água pesada que estava por finalizar, destruído na instalação de Khondab, fosse capaz de produzir até 10kg de Plutónio por ano (mas o mais provável seria algo como 5kg-9kg).
Para comparação, Nagasaki, ou “Fat Man”, era uma bomba de Plutónio de aproximadamente 6kg e 21kt. O “breakout time” do Irão, o tempo necessário para desenvolver material que pudesse ser usado num dispositivo explosivo, estima-se que estivesse perto de alguns dias. De relembrar que é este “breakout time” que a IAEA monitoriza, e não se há capacidades de desenvolver uma ogiva. À data de escrita, não se sabe se o Irão ainda possui a capacidade de converter gás enriquecido em Urânio metálico para usar num explosivo, ou mesmo o know-how de montar esse dispositivo, ou até capacidades balísticas para fazer a entrega deste dispositivo.
“Little Boy”, 15kt, detonado na baixa de Lisboa a 600 metros de altitude, como em Hiroshima:
B-83, a arma com maior “yield” do arsenal americano, 1.2Mt:
De acordo com o site Nukemap, a sombra maior a amarelo delimita a zona onde a explosão causaria queimaduras de terceiro grau. Dentro da zona a vermelho, a possibilidade de sobreviver devido à explosão é praticamente nula. Dentro da zona verde, os poucos sobreviventes sucumbiriam aos efeitos da radiação em menos de um mês.
Parte da história do Projecto Manhattan ficou popularizada com o recente filme “Oppenheimer”. O filme mostra apenas o início da corrida ao desenvolvimento de arsenais nucleares, que se prolonga durante a Guerra Fria. Para surpresa dos Americanos, a União Soviética rapidamente desenvolve a sua bomba nuclear após a Segunda Guerra Mundial, em 1949. O desenho e poder destrutivo assumem-se ser similares ao dispositivo utilizado em Nagasaki - “Fat Man” com 20kt. A verdade crua é que ambas as superpotências se apercebem que as bombas desenvolvidas até então, de fissão nuclear de elementos pesados, não são suficientes. A utilização de Urânio ou Plutónio no fabrico de uma bomba com mais de algumas dezenas de kt oferece dificuldades técnicas na construção desse dispositivo, tornando-o pouco prático. No caso de um conflito armado nuclear, uma bomba de fissão destrói parte de uma cidade grande, mas não todo o país. O “ideal” seria destruir completamente a nação inimiga antes que esta possa retaliar. Para tal, são precisos dispositivos com capacidade de Megatoneladas equivalentes de TNT, Mt. O proponente deste tipo de armamento foi Edward Teller, membro do Projecto Manhattan e “rival” de J. Robert Oppenheimer. O dispositivo de Teller-Ulam, mais conhecido como bomba-H ou bomba termonuclear, representa basicamente todos os dispositivos em existência com mais de 50kt.
Uma bomba termonuclear possui dois estágios, um pouco como um foguete espacial. Simplificando muito como funciona, o primeiro estágio é composto por um dispositivo “nuclear convencional” de fissão. Este primeiro estágio explode e desencadeia o segundo estágio que contém uma forma especial de Hidreto de Lítio, LiH. A forma especial não contém Hidrogénio, mas Deutério, um isótopo do Hidrogénio que contém um protão e um neutrão. A forma especial do LiH chama-se Deuterídio de Lítio, LiD. Tanto o Lítio como o Deutério têm núcleos que se fundem, libertando uma imensa quantidade de energia neste segundo estágio. Esta fusão vai causar mais fissões no primeiro estágio de Urânio e em Plutónio adicionado ao segundo estágio, que por sua vez aumentam a eficácia do segundo estágio e assim sucessivamente, aumentando imensamente o poder explosivo do dispositivo como um todo.
Um dispositivo de 1Mt liberta aproximadamente a mesma energia que é consumida em Portugal sob a forma de eletricidade em oito dias.
Arsenais
Armas Nucleares Táticas vs Armas Nucleares Estratégicas
As armas nucleares tácticas são concebidas especificamente para utilização no campo de batalha em situações militares, frequentemente com forças amigas nas proximidades e, por vezes, em território amigo contestado. Estas armas destinam-se a devastar alvos inimigos numa área específica sem causar a destruição generalizada e a precipitação radioactiva (“Nuclear Fallout”) que caracterizariam as armas nucleares estratégicas. Exemplos disto são o obus de artilharia Davy Crockett com 20 toneladas de TNT equivalente até dispositivos com poucas kt, como é o caso da W54 com 1kt. São dispositivos com poder explosivo até algumas dezenas de kt.
Por seu lado, as armas nucleares estratégicas são concebidas para atingir locais distantes do campo de batalha como parte de um plano estratégico mais alargado. Estes alvos incluem bases militares, centros de comando, indústrias de armamento, redes de transportes, infra-estruturas económicas e energéticas. Servem principalmente como parte de uma doutrina de dissuasão ao ameaçar grandes alvos.
Os exemplos mais célebres deste último tipo são as bombas largadas pelos Estados Unidos em Hiroshima e Nagasaki.
O modo de direcionar dispositivos nucleares pode incorrer numa estratégia de Contravalor (“Countervalue”) ou Contra Força (“Counterforce”). Numa estratégia de contravalor, os alvos são não militares, como cidades e vilas, mas que têm valor para o adversário. Alvos militares que representam uma ameaça direta são o alvo numa estratégia de contra força. A estratégia empregue depende da doutrina nuclear de cada estado.
Doutrina nuclear
Por “Doutrina nuclear” entendem-se as políticas formais que definem quando e como um país utilizará o seu arsenal nuclear. Estas políticas servem como orientação estratégica para o planeamento militar e como instrumentos de comunicação dirigidos a adversários e aliados. As doutrinas nucleares comunicam o quando e como um país utilizará o seu arsenal nuclear. Em suma, as doutrinas nucleares são concebidas para:
- Dissuadir potenciais adversários de realizar ataques nucleares ou convencionais
- Tranquilizar os aliados relativamente aos compromissos de segurança.
- Explicar a cadeia de comando e os decisores na utilização de armas nucleares.
- Transmitir determinação e capacidades à comunidade internacional explanando o papel das armas nucleares na estratégia militar global do país.
As doutrinas variam significativamente entre países, mantendo uma ambiguidade deliberada. A Rússia reviu recentemente em 2024 a sua doutrina. Onde se lia “ameaças à existência do estado Russo” agora encontramos “agressões que ameacem diretamente a soberania e/ou a integridade territorial da Rússia”, uma redefinição mais ampla mas igualmente ambígua. É de salientar que a Rússia (entre outros países) também possui armas químicas mas que o uso destas não está coberto pela sua doutrina nuclear.
Na declaração de 2022 da postura nuclear dos Estados Unidos, a administração Biden tentou reconfortar os seus aliados dizendo que manteria os seus compromissos de defesa no mundo. No entanto, deixa também alguma ambiguidade no ar para condições de uso. Os Estados Unidos afirmam que responderão a “situações extremas” mas não as definem. É normal e propositado haver alguma ambiguidade em doutrinas nucleares, como mecanismo de dissuasão. Outro aspecto das doutrinas é a política de “No First Use Policy” (Não Disparar Primeiro, traduzindo livremente). Como o nome indica, países com esta política comprometem-se a apenas utilizar armas nucleares em caso de serem atacados com as mesmas. Enquanto que a China e a Índia adoptaram esta política (formal ou informalmente), os Estados Unidos recusam-se consistentemente a fazê-lo.
"Launch on Warning" - Lançamento por aviso
As forças nucleares são mobilizadas quando os sistemas de alerta precoce detectam um ataque inimigo, mas antes de qualquer arma inimiga ter sido detonada. Esta abordagem minimiza o risco de perder a capacidade de retaliação, mas aumenta o risco de uma guerra acidental baseada em falsos alarmes.
"Launch on attack" - Lançamento sob ataque
As forças nucleares só são lançadas depois de se confirmar que ocorreram detonações nucleares inimigas no território do país ou dos aliados sob a alçada do guarda-chuva nuclear. Isto reduz o risco de falsos alarmes, mas aumenta a possibilidade da cadeia de comando ou as armas serem destruídas antes do lançamento.
Capacidade de primeiro ataque
A capacidade de primeiro ataque refere-se à capacidade de uma nação para destruir a maior parte ou a totalidade das forças nucleares de um adversário antes de estas poderem ser utilizadas. Esta capacidade depende de:
- Precisão dos sistemas de lançamento.
- informação acerca da localização das forças nucleares do adversário.
- Ataque rápido o suficiente para evitar o “launch on warning” inimigo.
- Sistemas de defesa antimíssil eficazes para interceptar qualquer retaliação restante.
A procura da capacidade de primeiro ataque é muitas vezes vista como desestabilizadora nas relações internacionais, uma vez que pode incentivar ataques preventivos e criar pressões em alturas de crise. Situações de “agora ou nunca” poderão surgir. Durante a Guerra Fria, tanto os Estados Unidos como a União Soviética estavam preocupados com o facto de o outro estado conseguir a capacidade de primeiro ataque, o que espoletou a enorme corrida ao armamento da era.
Capacidade de segundo ataque
A retaliação ao primeiro ataque. Esta capacidade é essencial para a dissuasão, uma vez que garante que, mesmo que um país sofra um ataque nuclear de surpresa, pode infligir danos inaceitáveis ao agressor.
Uma capacidade robusta de segundo ataque requer:
- Forças nucleares que possam sobreviver a um primeiro ataque (normalmente mísseis baseados em submarinos, silos reforçados ou lançadores móveis).
- Sistemas de alerta precoce para detectar ataques
- Sistemas de comando e controlo que permaneçam funcionais após um ataque
- Autoridade pré-delegada ou sistemas de resposta automatizados em alguns casos
A capacidade de segundo ataque está na base do conceito de Destruição Mútua Assegurada (Mutual Assured Destruction - MAD) e é considerada fundamental para a estabilidade estratégica. Os países investem fortemente na garantia da capacidade de sobrevivência das suas forças nucleares especificamente para manter esta capacidade. A tríade nuclear foi concebida principalmente para assegurar a capacidade de segundo ataque através da diversificação dos sistemas de lançamento em múltiplas plataformas, tornando praticamente impossível a um adversário eliminar todas as opções de resposta nuclear num primeiro ataque.
Tríade nuclear
A “tríade nuclear” tem esse nome pois refere-se a um tridente ofensivo. Mísseis nucleares lançados desde silos em terra, submarinos armados com mísseis nucleares (água) e aviões com bombas e mísseis nucleares (ar) são os três vectores de ataque. Esta abordagem diversificada da utilização de armas nucleares foi desenvolvida durante a Guerra Fria para garantir que um país pudesse manter a capacidade de segundo ataque, mesmo que um ou dois dos sistemas de lançamento fossem comprometidos ou destruídos num primeiro ataque. No caso dos Estados Unidos, as componentes do seu arsenal conhecido são (os dados seguintes são uma estimativa):
- Terrestre: Consiste em até 400 mísseis balísticos intercontinentais (InterContinental Ballistic Missiles-ICBMs) Minuteman III dispersos em silos reforçados em cinco estados, ligados a centros de controlo de lançamento subterrâneos através de cabos reforçados. Estes mísseis representam a parte mais reactiva da tríade e têm permanecido em alerta contínuo desde 1959. O programa de dissuasão estratégica com base em terra deverá começar a substituir os mísseis Minuteman III e a modernizar as 450 instalações de lançamento de ICBM em 2029. Os ICBMs podem conter várias ogivas nucleares. Viajam a velocidades hipersónicas chegando a atingir Mach 20-25 (20 a 25 vezes a velocidade do som, ou 30000km/h). Certos ICBMs têm um alcance de mais de 15000km.
- Marítima: Inclui submarinos de propulsão nuclear que transportam mísseis balísticos lançados a partir do mar, como os submarinos Trident com Poseidon C-3 e Trident C-4. Estes submarinos podem permanecer escondidos debaixo de água durante longos períodos, o que os torna altamente resistentes em caso de um primeiro ataque inimigo. Submarinos especializados em utilizar mísseis balísticos (SLBMs: Submarine Launched Ballistic Missile) conseguem atingir grande parte do globo a partir de uma posição altamente furtiva.
- Aérea: Inclui bombardeiros estratégicos (como o B-52) equipados com múltiplas bombas nucleares. Estes aviões proporcionam flexibilidade e podem ser chamados a intervir se necessário, ao contrário dos mísseis em silos após o seu lançamento.
A Rússia e outras potências nucleares mantêm tríades semelhantes com composições diferentes. A tríade continua a ser uma pedra angular da estratégia nuclear mesmo depois da Guerra Fria, embora com arsenais nucleares reduzidos comparativamente a essa era.
Nuclear umbrella (guarda-chuva nuclear)
É um acordo de proteção nuclear. Refere-se à cooperação militar entre pelo menos dois países em que um estado com um arsenal nuclear se compromete em proteger um estado sem este tipo de armamento. Esta proteção estende a dissuasão nuclear a aliados que não possuem as suas próprias armas nucleares. Ambos os estados concordam que armas nucleares serão utilizadas na altura devida (de acordo com a doutrina respetiva). Neste momento, a europa conta com o “nuclear umbrella” do Reino Unido e da França. Fabian Hoffman, perito em defesa e estratégia nuclear, afirma na sua coluna pessoal de opinião que a proliferação europeia e os métodos de entrega de dispositivos nucleares têm pouca credibilidade.
As armas nucleares são vistas pelos governantes Europeus como uma solução rápida para as preocupações de segurança actuais, quando, na realidade, a proliferação é um processo lento e complexo. Os países europeus não dispõem das infra-estruturas necessárias para produzir rapidamente armas nucleares e quaisquer esforços nesse sentido seriam detectados por organismos internacionais de supervisão, o que teria consequências políticas e económicas.
Além disso, as opções de dissuasão europeias existentes, como o arsenal nuclear francês, são insuficientes, na sua forma atual, para estender uma proteção credível ao continente. O arsenal nuclear francês foi desenvolvido para garantir a existência da França (o historicamente conhecido “Force de Frappe”). Uma melhor via no curto prazo seria o reforço das capacidades não-nucleares europeias, para compensar a ausência Americana.Em suma, ao contrário do que se possa pensar, construir armas nucleares continua a ser um desafio tecnológico, mesmo para os países tecnologicamente mais desenvolvidos.
Proliferação vs Não-proliferação nuclear
A proliferação nuclear refere-se à disseminação de armas nucleares, tecnologia e material físsil para nações que ainda não as possuem. Os esforços de não-proliferação visam impedir esta propagação através de acordos internacionais, controlos de exportação e outras medidas. A pedra basilar da não-proliferação é o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, TNP, (“No-Proliferation Treaty” no original, NPT), que entrou em vigor em 1970. O TNP tem três pilares principais:
- Não-proliferação: Os Estados sem armas nucleares comprometem-se a não adquirir armas nucleares.
- Desarmamento: Os Estados com armas nucleares comprometem-se a prosseguir o desarmamento.
- Utilização pacífica: Todos os Estados têm o direito a desenvolver tecnologias nucleares para fins pacíficos, como na geração de eletricidade, agricultura, medicina, entre outros.
Apesar destes esforços, vários Estados adquiriram armas nucleares fora do quadro do TNP, incluindo a Coreia do Norte (que se retirou do tratado), a Índia, o Paquistão e Israel (que nunca aderiu).
Estabilidade estratégica
Estabilidade estratégica” refere-se à situação em que os países não têm qualquer incentivo para iniciar a utilização de armas nucleares durante uma crise ou conflito. Requer tanto a estabilidade da crise (sem pressão para usar armas nucleares primeiro) como a estabilidade da corrida ao armamento (sem pressão para aumentar as forças nucleares). Os factores que contribuem para a estabilidade estratégica incluem:
- Capacidades mútuas de segundo ataque (custo elevado de uma retaliação).
- Sistemas de comando eficazes e canais de comunicação claros.
- Ausência de sistemas de armas altamente intimidatórias.
- Compreensão partilhada das linhas vermelhas e dos riscos de escalada por todas as partes.
A estabilidade estratégica pode ser prejudicada por desenvolvimentos tecnológicos como defesas anti-míssil capazes de intercepções superiores, capacidades de ataque de precisão convencional e a guerra anti-submarina que podem ameaçar as capacidades de segundo ataque. Uma capacidade superior de defesa de primeiro ataque com uma probabilidade elevada de segundo ataque bem sucedido é um dos factores actuais de maior desestabilização.
Escalada ("Escalation ladders" - escadas de escalada)
As escadas de escalada descrevem os modos como os conflitos aumentam gradualmente, desde escaramuças convencionais locais, até à guerra nuclear em grande escala. Cada “degrau da escada” representa um aumento da intensidade, do âmbito ou do tipo de acção militar. Compreender a dinâmica da escalada é crucial para gerir crises e evitar as condições que justificam a utilização de armas nucleares por parte da doutrina de um país. As escaladas podem ocorrer:
- Deliberadamente, para assinalar uma decisão ou criar pressão.
- Inadvertidamente através de mal-entendidos ou erros de cálculo.
- Acidentalmente, por falha técnica ou ação não autorizada.
Muitos peritos dedicam muito do seu tempo à identificação de potenciais vias de escalada e ao desenvolvimento de mecanismos para controlar a escalada durante as crises.
Inverno Nuclear
A hipótese do inverno nuclear representa uma das consequências potenciais mais graves de uma guerra nuclear, para além dos efeitos imediatos das detonações, da radiação e da precipitação radioactiva. Na sequência de uma guerra nuclear em grande escala, múltiplas detonações nucleares injectariam enormes quantidades de fumo e poeiras na atmosfera, bloqueando o sol completa ou quase completamente. Os impactos globais que se fariam sentir seriam a queda abrupta de temperaturas por todo o globo, colapso da agricultura, e fome generalizada.
Controlo de Armas e Desarmamento
O controlo de armas refere-se a acordos entre Estados para limitar ou reduzir certas categorias de armas ou operações militares, enquanto o desarmamento visa a eliminação de classes inteiras de armas. Os acordos de controlo de armas nucleares incluem
- Conversações sobre a limitação de armas estratégicas (SALT)
- Tratados de Redução de Armas Estratégicas (START e New START)
- Tratado sobre as Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF)
- Tratado de Proibição Total de Ensaios Nucleares (CTBT)
Estes acordos incluem normalmente mecanismos de verificação, como monitorização por satélite, inspecções locais por parte da Agência Internacional de Energia Atómica e partilha de dados. O controlo de armas não elimina totalmente alguns riscos nucleares, mas pode aumentar a previsibilidade das decisões políticas.
Ataque nuclear: o que fazer
Na eventualidade de um conflito nuclear, as medidas de proteção, como os abrigos anti-bombas e as pílulas de iodo, desempenham um papel fundamental. É crucial limitar a e posição da população a radiações. Os abrigos anti-bomba são estruturas concebidas para proteger a população da explosão, do calor e das precipitações radioactivas associadas às explosões nucleares. Idealmente, estes abrigos devem ser subterrâneos e construídos com paredes grossas de betão para maximizar a proteção.
Os comprimidos de iodeto de potássio (KI) são outra medida de proteção fundamental. Tomado pouco antes ou imediatamente após a exposição ao iodo radioativo (libertado na cadeia de reações nucleares), o KI satura a glândula tiroide com iodo estável, reduzindo a absorção do iodo radioativo. Isto diminui o risco de cancro da tiroide e de outras doenças. De acordo com a IAEA, “a profilaxia com iodo é uma contramedida eficaz para proteger a tiroide contra a absorção de iodo radioativo em caso de acidente nuclear ou emergência radiológica”.
A preparação e a educação do público são componentes essenciais das estratégias de proteção nuclear. Os governos são encorajados pela IAEA a manter planos de emergência, a armazenar pastilhas de Iodo e a garantir a disponibilidade de abrigos acessíveis em regiões de risco.
Alguma considerações finais: alguns conceitos ficaram de fora. Outros foram muito simplificados. Citando o politólogo Diogo Noivo, a “paz é um conceito exigente, muito mais ambicioso do que a mera ausência de guerra”. Alguns consideram que a existência de armas nucleares pode ter salvado vidas devido à sua mera existência. Mas é também uma Espada de Damócles, e há sempre a tentação de serem utilizadas. No seu histórico discurso “Atoms for Peace” em 1953, perante o plenário das Nações Unidas, o então presidente Dwight D. Eisenhower diz “A gravidade do momento é tal que todas as novas vias de paz, por mais ténues que sejam, devem ser exploradas.”. É por isto que devemos lutar. Mas sem a ingenuidade que nos trouxe até aqui.