O bolsonarismo não difere em quase nada do trumpismo. Em rigor, é o reflexo do mimetismo brasileiro dos EUA, referência eterna para os mais variados setores sociais brasileiros desde a era do soft power americano para a região, durante a Guerra Fria, numa manobra de sedução da cultura americana. Os mais pobres tiram dos EUA os nomes como Washington, a classe média e alta viaja para os EUA como aquisição de estatuto social, a esquerda cultural foi bebendo de lá a teoria crítica e as formas de luta emancipatória das minorias, os setores cristãos importaram o neopentecostalismo carismático e a teologia da prosperidade, e a direita nacionalista foi copiando as diferentes inflexões norte-americanas.
Assim, bolsonarismo e trumpismo resultam de sociedades profundamente divididas, dispersas e assimétricas, em razão da sua dimensão territorial, da sua história de violência colonial, esclavagista, de transições democráticas incompletas, de disparidades económicas, de diferentes capitais culturais entre segmentos sociais urbanos e progressistas e setores ultraconservadores, com forte expressão rural, mas com rápida penetração urbana.
Numa só imagem: o Bolsonarismo e o Trumpismo são filhos da batalha espiritual evangélica pelo controlo moral da sociedade, no caso americano desde a era de ouro da rádio e dos grandes cultos públicos de cura, e no caso brasileiro desde o pós-ditadura militar e a tensão crescente entre o despertar cristão como rumo para o país e a modernidade laica, progressista e esquerdista que viria a ser chamada de “marxismo cultural”.
Eles são, portanto, a reação (cultural backlash) ao sucesso das lutas emancipatórias da esquerda, através do retorno a um ideal de pureza de família tradicional cristã como lar da ordem. No caso brasileiro, acresce a nostalgia da ditadura militar, associada à baixa criminalidade e ao caudilhismo militar.
Tudo isto ajuda a compreender a vigília à porta da residência de Bolsonaro depois da sua tentativa de fuga. É precisamente a forma destas vigílias – mais próxima de um culto carismático do que de um protesto cívico – que revela o bolsonarismo como promessa teológica aplicada à política. O bolsonarismo é tanto uma ideologia plástica quanto uma promessa teológica do reino de Deus na terra, cujo Messias é um militar de farda. Quando se está numa batalha espiritual, não há Estado, não há lei, não há razão.