Dia catastrófico na bolsa mundial em resposta a um anúncio que deixa todas as marcas em suspenso. Curiosamente, Portugal foi uma das poucas boas notícias
Um trambolhão, queda livre, um desastre. Chamem-lhe o que quiserem, mas a reação ao anúncio do presidente dos Estados Unidos foi tudo menos boa. A confirmar o que já se esperava quando se viu a abertura da bolsa do Japão, cerca de três horas depois de Donald Trump revelar o seu agressivo plano de tarifas, Europa e Estados Unidos vieram por aí abaixo como há muito não se via.
DAX (Alemanha), CAC (França), FTSE (Reino Unido) ou IBEX (Espanha) foram o espelho de uma Europa assustada com os 20% aplicados a praticamente todos os produtos por cá produzidos. Num rol de bolsas no vermelho, só uma se destacou num ligeiro verde: o português PSI 20, talvez menos afetado por ter grande preponderância de empresas do setor energético - um dos poucos a escapar à fúria aduaneira - como a EDP ou a Greenvolt, acabou com uma subida de 0,30 pontos percentuais.
O resto foi o tal desastre: DAX e CAC, duas das principais bolsas europeias, caíram acima dos 3 pontos percentuais, numa altura em que ainda não se sabe ao certo como e quando vai a União Europeia reagir às tarifas. São números que colocam as bolsas europeias em valores de há mais de um mês, confirmando um mês no vermelho, mas um período de seis meses ainda no verde.
Pior, bem pior, estão as bolsas norte-americanas. Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq, por exemplo, deram autênticas quedas, com a última destas, onde estão as grandes tecnológicas como a Apple, a Amazon ou a Meta, a desvalorizar uns brutais 5,99 pontos percentuais, caindo de uma cotação de 17.601,5 para 16.550,60. O Nasdaq não caía tanto desde março de 2020 e o Dow Jones desde junho do mesmo ano, meses depois de a covid-19 ter paralisado o mundo.
De acordo com a agência Reuters, esta é a maior queda em percentagem num só dia em vários anos, o que os analistas dizem ser resultado do receio transmitido por empresas que podem ter de ver os seus impostos aumentar em vários dólares - a CNN Portugal publicou um artigo com o exemplo do iPhone que é bem ilustrativo da dimensão do problema.
De acordo com os dados de fecho, o índice S&P 500 perdeu 275,05 pontos, numa queda de 4,85 pontos percentuais, enquanto o Dow Jones caiu 1,682,61 pontos, uma quebra de 3,98 pontos percentuais. Do Nasdaq já se falou e o melhor é mesmo esquecer este dia se tiver investimentos neste índice - num dia as grandes tecnológicas perderam 800 mil milhões de dólares em capitalização bolsista.
Um desastre quase anunciado depois de os três índices mais fortes dos Estados Unidos terem atingido um pico histórico no início do ano. Os casos do S&P 500 e do Nasdaq representam quedas de 10 pontos percentuais no espaço de apenas um mês.
A cair a pique
Mas olhemos em concreto para as marcas. Na Europa foi a dinamarquesa Pandora quem mais sofreu na abertura, chegando a cair 12 pontos percentuais - acabou por fechar com uma queda de 10,68 pontos percentuais. Um descalabro em grande parte explicado pela forte presença da marca de joias na Tailândia, país onde tem três fábricas e que foi alvo de tarifas no valor de 36%. De resto, a Pandora está ainda a construir uma quarta fábrica no Vietname, que vai passar a ver os seus produtos taxados a 46%. A juntar a tudo isto, o facto de 4,7 mil milhões de dólares de lucro que a Pandora teve em 2024 terem vindo do mercado norte-americano.
Más notícias também para as marcas desportivas. Cá pela Europa, Adidas e Puma abriram com perdas de 11% e 9%. Acabaram ambas por cair perto dos 11 pontos percentuais, ficando ainda assim longe da campeã do desastre, a Nike. Tal como as concorrentes alemãs, a empresa norte-americana tem grande dependência das suas fábricas no Bangladesh, Camboja ou outros países asiáticos, o que motivou uma queda de 14,44 pontos percentuais. Ainda na indústria têxtil, as perdas foram exemplificadas por marcas como Gap (-20,38 pontos percentuais) ou Ralph Lauren (-16,27 pontos percentuais).
Mal, mas menos mal, esteve a Tesla, cujas ações têm caído a pique desde a tomada de posse de Donald Trump, mesmo que a empresa de Elon Musk tenha sido diretamente apoiada pelo presidente norte-americano. Foi uma queda de 5,47 pontos percentuais, ainda assim longe do pior de muitos dias maus nas últimas semanas para a fabricante de automóveis elétricos.
Por outro lado, e facilmente percetível, Apple ou Amazon derraparam gravemente. A primeira caiu 9,25 pontos percentuais - o que significou a perda de 300 mil milhões de dólares de capitalização bolsista -, até porque não há um único iPhone a ser produzido em solo norte-americano, mesmo que cerca de 65% dos norte-americanos tenham um. Já a empresa de Jeff Bezos caiu 8,98 pontos percentuais.
Numa pequena reação ao mercado, Donald Trump referiu apenas que esperava esta queda, mas voltou a defender uma medida "necessária para restaurar a economia", que o presidente norte-americano descreveu como um "paciente doente". Resta saber se esse paciente doente não se transforma num hospital de empresas à deriva. Como resta saber se os grandes CEO's que a 20 de janeiro fizeram questão de estar na fila da frente da tomada de posse do presidente norte-americano - estavam lá quatro dos cinco homens mais ricos do mundo - têm paciência suficiente para lidar com estes resultados.
O olhar coloca-se já nesta sexta-feira. Acabar a semana no verde será quase impossível, mas novo dia negativo, sobretudo com números como 5% ou acima, será um sério aviso a todos os mercados.
