'A Montanha que Devora Homens'. Esta cidade é o único lugar no mundo onde se pode comprar dinamite legalmente

CNN , Alex Rodway
26 abr, 15:00
Minas em Potosí

Seis turistas, com capacetes e fatos-macaco pesados, estão apertados dentro de um estreito túnel de mina, com um espaço pouco suficiente para se ajoelharem. O guia turístico local acende um isqueiro descartável, inflama um rastilho verde-brilhante e calmamente manda todos recuarem. “A qualquer momento”, diz.

Momentos depois, uma poderosa onda de choque atravessa o túnel, seguida de uma nuvem de pó.

Acabou de detonar um cartucho de dinamite comprado mais cedo, naquele mesmo dia, no mercado local, por um dos turistas - custou 13 bolivianos (pouco mais de 1,60 euros). A cidade mineira boliviana de Potosí é o único lugar do mundo onde qualquer pessoa pode comprar dinamite legalmente.

“Para os mineiros, o mais essencial é a dinamite”, afirma Jhonny Condori, guia de visitas às minas em Potosí. “Se não souberes manuseá-la, é perigosa”.

Mas para os mineiros experientes, essa mesma dinamite acelera imensamente o ritmo da extração de minerais.

Com séculos de história, a rede de minas de Potosí é vasta. Os mineiros correm por passagens longas e estreitas, empurrando carrinhos carregados de rocha fragmentada sobre trilhos gastos - um cenário que faz lembrar algo do filme ‘Indiana Jones e o Templo Perdido’ ou a mina de ouro do Wario em ‘Mario Kart’.

Potosí está situada a mais de 4.000 metros acima do nível do mar, o que a torna uma das cidades mais altas do mundo. As suas ruas estreitas, os telhados vermelhos e as paredes estucadas dos edifícios denunciam o passado colonial espanhol da cidade.

Grande parte da mineração ocorre no vizinho “Cerro Rico” (literalmente “Monte Rico”) - assim chamado pela vasta riqueza que outrora trouxe à cidade. Hoje em dia, “Potosí é considerada uma das regiões mais pobres de toda a Bolívia”, reconhece Julio Vera Ayarachi, outro guia local.

O lado 'prateado' do Cerro Rico

Reza a lenda que os ricos depósitos de prata do Cerro Rico foram descobertos por Diego Gualpa, um prospector indígena andino, que os encontrou por acaso em 1545. “O segredo espalhou-se. Não se pode esconder uma notícia dessas”, adianta Kris Lane, professor de artes liberais na Universidade Tulane, em Nova Orleães, nos Estados Unidos, e autor do livro ‘Potosí: A Cidade da Prata que Mudou o Mundo’.

Uma representação de Potosí em meados de 1585. Esta ilustração foi encontrada na Coleção da Sociedade Hispânica da América, Nova Iorque.
(Imagens do Património/Getty Images)

Pouco depois, os colonizadores espanhóis - que tinham chegado à região apenas alguns anos antes - souberam da descoberta e começaram a explorar intensamente a montanha rica em prata.

“Rapidamente transformou-se num local quase infernal”, afirma Lane. “Era um lugar sem lei, com trabalho forçado”. Os povos indígenas eram obrigados a trabalhar e a oferecer tributos materiais ao rei de Espanha, num sistema que era “muito próximo da escravatura”, acrescenta.

Uma vaga de comerciantes ricos começou a chegar de todo o mundo para construir infraestruturas e lucrar com as minas. À medida que as técnicas de mineração se tornaram mais eficazes, as condições de trabalho pioraram ainda mais, segundo Lane. Por exemplo, introduziu-se mercúrio tóxico no processo de refinação, o que contaminou o ambiente e provocou muitas mortes. O Cerro Rico ficou conhecido como ‘A Montanha que Devora Homens’ - um nome que ainda hoje é usado pelos mineiros.

Potosí cresceu rapidamente e tornou-se a quarta maior cidade do mundo cristão, com mais de 200.000 habitantes no final do século XVI. Calcula-se que, na época, fornecia 60% da prata mundial, financiando o império espanhol e outras dinastias globais.

“A prata atravessa fronteiras de um modo que uma moeda de bronze ou cobre não consegue”, continua Lane. A sua escassez relativa conferia-lhe valor intrínseco e “as pessoas passaram a confiar na prata de Potosí”.

Com o tempo, no entanto, as reservas outrora inesgotáveis de prata começaram a esgotar-se. Quando a Bolívia declarou a independência, em 1825, quase toda a prata já tinha sido extraída e Potosí tornou-se uma sombra do que fora.

Embora a mineração ainda continue, atualmente centra-se mais em minerais baratos como o estanho e o zinco. Centenas de quilómetros de túneis tornaram a montanha instável - e, por isso, este é “o período mais perigoso que as minas já conheceram”, diz Lane.

O culto ao diabo

Apesar disso, “em termos de mineração, pouco mudou”, afirma Oscar Torrez Villapuma, também guia local. Os mineiros de Potosí continuam a rezar aos mesmos deuses, a seguir os mesmos rituais e a morrer das mesmas doenças respiratórias que os seus antepassados, como aconteceu há séculos.

Cada entrada de mina em Potosí é marcada por uma efígie com chifres, semelhante a um diabo - conhecida localmente como “El Tío” (o tio). El Tío é geralmente vermelho, decorado com fitas coloridas ao pescoço e frequentemente retratado com um pénis ereto: símbolo de fertilidade.

“Somos muito politeístas, acreditamos em vários deuses”, diz Condori. Embora muitos indígenas andinos venerem o Deus cristão introduzido pelos colonizadores, também prestam culto à Pachamama - ou Mãe Terra - uma divindade feminina inca.

Naturalmente, “tem de haver uma figura masculina do submundo que proteja a Pachamama da sobre-exploração”, sugere Lane, como uma possível origem de El Tío. Villapuma propõe outra teoria: a de que a figura foi introduzida pelos patrões coloniais para intimidar os trabalhadores indígenas. “Mas hoje em dia, é ele quem nos dá fortuna”, atira.

A efígie retratada é El Tío, reverenciado como o senhor do submundo. Os mineiros oferecem cigarros, folhas de coca e álcool como presentes, cujos restos podem ser vistos por toda parte ao seu redor. ​​​​(Phil Clarke Hill/Corbis/Getty Images)

De qualquer forma, as estátuas de El Tío estão cobertas de folhas de coca, beatas, latas vazias de cerveja e garrafas de bebidas espirituosas: oferendas de mineiros e turistas, para que ele, o El Tio, conceda uma passagem segura e uma boa colheita de minerais. Também é comum o sacrifício de lamas, cujo sangue é espalhado nas entradas das minas para saciar a sede de El Tío.

O quotidiano

A esperança média de vida dos mineiros bolivianos é considerada tão baixa quanto 40 anos. Muitas das mortes prematuras devem-se a acidentes frequentes nas minas e à silicose - uma doença pulmonar crónica provocada pela inalação de sílica. “É basicamente vidro moído, no fundo”, explica Lane.

“Era sinal de força não usar máscara”, continua, explicando como isso agrava o problema - “e os mineiros bolivianos são vistos como os mais duros de todos”.

A idade mínima legal para trabalhar na Bolívia é de 14 anos, mas há brechas legais que permitem que crianças comecem muito mais cedo. Alguns relatos indicam que crianças com apenas seis anos ainda trabalham nas minas bolivianas. 

“Neste espaço de aparente horror, encontra-se companheirismo, criatividade... nasce música deste lugar, poesia interessante, muita efervescência cultural”, diz Lane.

Potosí celebra um vibrante “Carnaval Mineiro” entre fevereiro e março, que atrai multidões de visitantes. Segundo a tradição, os mineiros vestem as suas roupas de trabalho e desfilam pela cidade a dançar, a beber cerveja e a agitar bonecos do El Tío. As mulheres locais - conhecidas como Cholitas - usam vestidos elaborados e apresentam coreografias ao som de bandas marciais.

Depois das festividades, muitos turistas regressam à capital boliviana, La Paz, pela mesma estrada esburacada por onde vieram. Já os mineiros e as suas famílias permanecem, retomando as suas rotinas diárias - muitas vezes brutais e repetitivas - por mais um ano.

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