O investidor que entrou no Bessa com uma mala de dinheiro e saiu algemado pela polícia

31 out, 08:02

A Máquina do Tempo viaja hoje até 2008, quando um pintor da construção civil se apresentou no Boavista como sendo um empresário que fizera fortuna em França e que estava preparado para salvar o clube da ameaça de insolvência. Rapidamente, porém, se percebeu que era apenas um burlão.

Em abril de 2008 passou pelo futebol português um meteorito de nome Sérgio Silva. Não durou muito, é verdade, mas foi divertido. Sobretudo para quem olhou da parte de fora. Para os dirigentes do Boavista, e também para os adeptos, não teve piada nenhuma.

Mas vamos por partes.

Em 2008 o Boavista atravessava uma grave crise financeira. Os jogadores tinham feito um pré-aviso de greve, devido a ordenados em atraso, e o Beira Mar tinha apresentado queixa no Tribunal do Comércio por falta de pagamento na transferência de Fary.

Sobre o Boavista pesava, portanto, um pedido de insolvência que vencia no final dessa semana.

O clube axadrezado estava com a corda no pescoço e precisava urgentemente de um investidor que avançasse o dinheiro para liquidar as dívidas mais prementes.

Joaquim Teixeira tinha sido eleito, após a saída da família Loureiro, com a promessa de trazer os tais investidores. Mas eles nunca apareceram. Foi por isso que quando Sérgio Silva apareceu no Bessa, o presidente se agarrou a ele com todas as forças.

Sérgio Silva surgiu então no Bessa a garantir que era um empresário luso-americano, proprietário de uma empresa chamada CastleShore, que teria sede em França e se dedicava a fazer investimentos no setor financeiro. Tudo mentira, como está bom de ver.

Na verdade, Sérgio Silva, natural de Viana do Castelo, tinha sido pintor da construção civil, tinha aberto uma empresa de decoração que fechou rapidamente e tinha sido proprietário de um stand de automóveis, através do qual burlou também vários clientes.

Vários desses clientes garantiram até que tinham entrado em contacto com o Boavista para avisar da pessoa em causa. Mas o presidente Joaquim Teixeira não quis saber. Para ele, que por esses dias estava sob enorme pressão, as promessas eram mais do que suficientes.

Por isso numa sexta-feira, dia 11 de abril, convocou uma conferência de imprensa para apresentar o investidor que iria injetar 38,5 milhões de euros no Boavista: 14,5 milhões no imediato e o restante em duas garantias bancárias que o clube poderia descontar.

«Deste lado, não é a minha empresa que está aqui: é o Sérgio. Não vim para tirar dividendos nem para ocupar nenhum lugar, mas para colaborar num projeto», garantia o investidor.

«Os cheques estão aqui, mas não são para ninguém ver»

Os dias foram passando, porém, e nada de dinheiro. Na quarta-feira de manhã, Joaquim Teixeira lamenta que não consiga contactar Sérgio Silva e começa a desesperar.

«Não apresenta o dinheiro nem dá as garantias bancárias. Não posso ser vítima de cabalas. Houve irresponsabilidade da minha parte, acreditei nas pessoas erradas.»

No entanto durante a tarde dessa quarta-feira Sérgio Silva lembrou-se de dar notícias. Falou com Joaquim Teixeira e o presidente garantia à noite que estava tudo resolvido: o dinheiro iria entrar no dia seguinte, os salários iriam ser pagos e as dívidas todas liquidadas.

«O senhor Sérgio Silva garantiu-me que quer provar que é uma pessoa de bem. Estará aqui amanhã com as entidades bancárias e outros representantes da sua empresa para efetuar o pagamento da totalidade [38,5 milhões de euros] em cheques bancários», referiu.

E sim, no dia seguinte, já ao início da noite, Sérgio Silva apareceu. Sozinho, sem representantes da empresa, nem entidades bancárias, mas apareceu. Com uma frase histórica.

«Os cheques estão aqui, mas não são para ninguém ver», disse o então suposto investidor, mostrando uma pasta fechada.

No entanto havia ali coisas que não batiam certo. Havia ali muita coisa que não batia certo, é claro, mas havia sobretudo algumas incoerências mais óbvias do que outras.

«Se o dinheiro vai chegar a tempo de evitar o pedido de insolvência? Não estou preocupado com isso. Não estou preocupado se vai haver greve ou se o clube fecha, ou deixa de fechar. Não vim aqui salvar ninguém, vim investir», respondeu.

Logo a seguir, e quando questionado sobre as queixas apresentadas contra ele por burla:

«O que interessa estar a falar do Sérgio Silva se o Boavista pode acabar amanhã?»

Muito estranho, de facto.

A Polícia Judiciária também achou e foi por isso que no dia seguinte, sexta-feira, se dirigiu a meio da tarde ao Bessa para levar Sérgio Silva detido para interrogatório. O suposto investidor era procurado por falsificação de documentos e burla: tinha falsificado assinaturas em cheques roubados e numa garantia bancária para pagar os carros que comprava para o stand em Viana do Castelo. Antes disso, em 2005, já tinha sido arguido num caso de notas falsas.

Passou a noite detido, tendo sido presente a juiz no dia seguinte, acabando por ser libertado com termo de identidade e residência.

Perante a estranheza da juíza, garantiu que vivia como administrador de uma empresa chamada «Fast Answer», função pela qual recebia o ordenado mínimo, no valor de 650 euros. O Ministério Público, na acusação deduzida contra ele, considerou que se tratava de um «delinquente primário». Dois meses depois foi julgado no Tribunal de Viana do Castelo e condenado a dois anos de prisão, com pena suspensa.

Curiosamente foi Joaquim Teixeira quem denunciou o burlão à Polícia Judiciária. Diz que começou a sentir que alguma coisa não estava bem, sobretudo porque as (falsas) garantias bancárias vinham com erros ortográficos básicos. Por exemplo, «balor» em vez de «valor».

Certo é que também ele acabou por deixar o Boavista, apenas seis meses após ter chegado à presidência. Foi Álvaro Braga Júnior, então presidente da SAD, quem liderou o clube nas negociações com o Beira Mar para retirar o pedido de insolvência e com os jogadores para desconvocar a greve. Ambas com sucesso. Em junho é então eleito presidente e o Boavista é despromovido à II Liga, na sequência do processo Apito Final.

E Sérgio Silva?

Bem, houve alguma conversa de que estaria metido noutra empresa de decoração de interiores que também deixou credores, já em 2011, e depois disso mais nada.

Quem sabe se não estará em França a fazer fortuna com investimentos no setor financeiro?

«Máquina do tempo» é uma rubrica do Maisfutebol que viaja ao passado, através do arquivo da TVI, para recuperar histórias curiosas ou marcantes dos últimos 30 anos do futebol português.

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