O Bloco de Esquerda (BE) elegeu José Manuel Pureza para liderar o futuro do partido. Mas terá o partido futuro?
O BE nasce num contexto social e político onde uma esquerda urbana e progressista emergia e reclamava do Partido Socialista capacidade de se desempoeirar. O partido não percebeu a sociedade em que vivia e, sob a liderança de um António Guterres moralmente conservador, não foi capaz de cumprir desígnios da Constituição e, assim, de dar resposta a questões como a igualdade de género e os direitos das pessoas homossexuais.
Ancorado em teorias pós-modernistas, pós-coloniais e críticas, elaboradas nas universidades e nos centros de investigação, o BE ofereceu uma casa política a quem em 1990 já olhava para o novo milénio e não para o passado. As questões de costumes foram a sua bandeira, num país a tentar despir as vestes do machismo, homofobia e racismo institucionalizados.
À medida que os temas se foram esgotando, resolvidos pela ação legislativa de um Parlamento cada vez mais arejado, as causas do BE foram-se esvaziando, até que apareceu a crise de 2008 e a austeridade, oferecendo um balão de oxigénio para o populismo radical de esquerda antissistema. Nas legislativas de 2015 o BE consegue eleger 15 deputados, atingindo o seu máximo de representação parlamentar.
Mas esse sucesso foi uma onda internacional assente numa lógica de uma grande frente popular de ressentidos, o que levou o partido a acreditar que o radicalismo compensa. Mas com a estabilidade económica mais ou menos assegurada no pós-troika, o BE adotou a lógica internacional do wokismo político, trocando a grande frente de esquerda pelas lutas identitárias. Ao abandonar a classe branca trabalhadora, deitou fora uma parte do seu eleitorado de protesto, ao mesmo tempo que viu nascer o LIVRE, pela mão de um antigo dirigente bloquista. A nova esquerda urbana woke tinha uma nova casa, europeísta, ecologista e com caráter de novidade.
Mas o progressismo radical tem sofrido abalos, e o materialismo voltou, como mostrou Mamdani.
O que fazer então com um BE que achou que poderia viver do cruzamento entre ativismo e ódio à criação de riqueza na era do libertarianismo económico conservador?
Talvez a solução para a esquerda minguante seja “matar” o BE e o LIVRE e criar uma nova esquerda ampla, moderna, capaz de articular lutas contra as desigualdades sociais e económicas. Num plano ideal decorreria um destes cenários:
-
(a) Incluiria BE, LIVRE e CDU, numa frente popular de esquerda
-
(b) Não incluiria a CDU, pela sua rigidez doutrinária, mas seriam integrados numa nova reformulação do PS ao estilo Partido Democrata norte-americano ou a portuguesa AD
Obviamente que se trata de soluções tanto viáveis quanto improváveis, uma vez que os partidos de esquerda tendem a ser como naquele célebre sketch dos Monty Python em que a Frente do Povo da Judeia odeia mais a Frente Popular da Judeia do que os próprios Romanos.