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Estratega & Ex Cripto-céptico

Quem perdeu a barbaridade de dinheiro nas memecoins de Donald e Melania Trump?

3 fev 2025, 08:38
As contas X do presidente dos EUA, Donald Trump, e da primeira-dama dos EUA, Melania Trump, que promovem as moedas memecoins $TRUMP e $MELANIA, vistas num ecrã de telemóvel em frente ao logótipo da Bitcoin em Ancara, na Turquia, a 21 de janeiro de 2025. Foto de Hakan Nural/Anadolu via Getty Images

A $MELANIA e a $TRUMP foram lançadas pelo casal Trump há duas semanas. Dispararam num instante. E depois caíram mais de 70%. Quem ganhou naquela subida espetacular inicial? E quem depois perdeu o dinheiro?

Trump tomou posse, a 20 de Janeiro, um dia depois de Melania Trump ter lançado a sua memecoin $MELANIA, que por sua vez surgiu 48 horas depois do próprio Donal Trump ter lançado a sua memecoin oficial $TRUMP.

Tudo parecia brilhante... se não tivesse sido catastrófico para muitos. A $TRUMPo está a cair cerca de 72% desde os máximos quase imediatos que alcançou, e $MELANIA cai 78% dos máximos que alcançou num par de horas.

É difícil encontrar dados concretos sobre o número de memecoins por dia. A Yahoo Finance diz que são 60 mil loutros sites dizem que são 20 mil, mas pouco importa se são dez mil, cem mil ou mesmo um milhão. É em qualquer dos casos uma barbaridade.

"Um investimento em memecoins não tem nada a ver com um investimento em bitcoins". Bernardo Mota Veiga

Criar uma memecoin hoje é quase tão fácil como criar uma conta de email ou uma conta no TikTok e é por isso que quero aqui deixar esta analogia. A memecoin é um projecto de "engagement" social (ou envolvimento social) difícil de quantificar em termos de valor. A $TRUMP chegou aos milhares de milhões assim como a $MELANIA e muitas memecoisa não chegam a valer quase nada, o que ainda assim é sempre muito mais do que recebemos quando criamos uma conta TikTok…que é nada.

As memecoins têm proliferado de uma forma dramática e vão roubando, inevitavelmente, valor a todas as outras. Um investimento em memecoins não tem nada a ver com um investimento em bitcoins, se é que qualquer de ambos pode ser chamado de investimento - mas, quase sempre, quem investe em memecoins também investe, ou já investiu, em bitcoins.

Se pensarmos que as duas  memecoins do casal Trump desvalorizaram quase 15 mil milhões de dólares, então alguém ficou 15 mil milhões mais rico mas também alguém ficou 15 mil milhões mais pobre ao longo destes quase quinze dias. É um valor brutal! Pense que o banco BCP, inteiro, vale 7,5 mil milhões de euros: perdeu-se o equivalente a quase dois2 bancos BCP nestas duas memecoins.

Multiplique agora pelos milhares de memecoins diários e veja o que circula nesta economia meme.

Os degens* estão habituados a investir nestas memes, em que o objectivo parece o de ser o primeiro a encaixar o lucro e, de preferência, um lucro de 100x, que é uma espécie de sonho mínimo. Mas não estão habituados a que estas memes sejam criadas pelo presidente dos Estados Unidos...

Confundir memecoins com bitcoins é o mesmo que confundir areia com farofa e os verdadeiros investidores em bitcoin não gostaram nada da brincadeira do casal. Foram muitos a criticar a ação, que foi entendida quase como uma paródia a todas as criptos que têm feito um caminho difícil no sentido da sua credibilização.

Barbaridades

Já fui mais contra as memecoins, mas neste momento sou mais contra os valores que elas alcançam. Se as memecoins são um produto social e tão fáceis de criar como uma conta de TikTok, então talvez as memecoins sejam as futuras contas TikTok, ou as futuras contas de influencers, ou as futuras formas de monetizar o engagement online, que pode estar a ser construído sem que se dê conta.

Se eu criar a minha memecoin, posso com isso financiar o meu engagement e com isso assegurar a minha presença online. Se a presença online é financiada por publicidade, então até é sensato que os patrocinadores comprem essas memecoins que eu mais tarde deixarei trocar por espaços publicitários, criando uma espécie de "burning rate" associada a cada minuto que um anúncio está online, ou seja, uma memecoin deflacionária indexada à presença online.

Bem, se assim é, estou na realidade a emitir créditos de anúncios que alguém poderá futuramente utilizar, enquanto eu aumento o número de tokens com base no número de palavras que publico.

Posso, em alternativa, criar uma memecoin que serve para dar acesso aos leitores. Ou seja, quem não tem memecoins não me pode ler. Ou uma espécie de clube de quem tem a memecoin.

É verdade que estes exemplos roçam a cripto, mas não deixam de ser uma memecoin social e não passam de um cromo que eu transformei num cartão de milhas.

Agora imagine um jornal fazer o mesmo!

Confesso que não vejo nada de bom na proliferação das memecoins, e eu próprio nunca investi nelas, mas quando vejo algo a ser criado aos milhares por dia concluo sempre que existe um mercado para esse produto.

Tal como a bitcoin nasceu com um propósito e atualmente já tem outros propósitos que não haviam sido considerados, as memecoins podem estar ainda na fase de encontrar o seu real propósito.

Até lá, muita gente vai perder muito dinheiro, pois nas memecoins normalmente quem ganha é mesmo o emissor delas. Mas se existe esse dinheiro para perder, então também existe esse dinheiro para alguém ganhar num jogo de soma nula.

Por agora o que sei é que muita gente se sente enganado pelo Presidente. Como, antes, se sentiu enganado pela Hawk Tuah...

 

*Nota do editor: degens, palavra do jargão das criptomoedas, abreviação de degenerate/degenarados, refere-se a investidores em bitcoin de elevado risco e pouco conhecimento do mercado ou da moeda.

Leia mais artigos deste autor sobre a bitcoin aqui.

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