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Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

Bitcoin e os ficheiros de Epstein: o ruído, o mito e a realidade dos números

9 fev, 16:40
Uma estátua do presidente Donald Trump segurando uma bitcoin em reconhecimento ao seu apoio à criptomoeda é exibida no National Mall, com o Monumento a Washington ao fundo, na quarta-feira, 17 de setembro de 2025, em Washington. (AP Photo/Alex Brandon)

Muitos farão do caso Epstein um tribunal moral para quem investe em bitcoin, como se a posse de um ativo fosse um atestado de cumplicidade. Mas o mercado é agnóstico à infâmia e acaba por responder a fundamentos, não a fantasmas. E a bitcoin já sobreviveu a governos, proibições, crashes, guerras internas, ataques mediáticos e ciclos de euforia e pânico

Este artigo não é sobre os crimes de Jeffrey Epstein, nem sobre processos judiciais. Os crimes são de uma gravidade extrema, devem ser julgados com todo o rigor e os responsáveis condenados com o peso que merecem. As vítimas merecem justiça plena e respeito absoluto.

O que me leva a escrever é precisamente o oposto: o ruído paralelo que se gerou esta semana em torno da bitcoin, criptomoedas e outros está a desviar o foco do que realmente importa, a banalizar a gravidade do caso e a roubar relevância às vítimas. As falsidades sobre temas paralelos pode abafar a verdade do tema principal. Este texto é sobre esse fenómeno colateral e não sobre o núcleo do horror.

 

Sim, a bitcoin apareceu nos ficheiros libertados pelo DOJ [Departamento de Justiça] acerca de Epstein. Fui ver e aparece mencionada 1509 vezes. A palavra Gold [ouro] aparece em 7376 resultados. Isto não significa que existam milhares de documentos sobre bitcoin ou ouro, apenas que essas palavras surgem esse número de vezes em milhões de ficheiros e páginas, muitas vezes em contextos marginais. Para percorrer os mais de três milhões de ficheiros, basta ir ao site do DOJ e fazer pesquisas por palavras‑chave. Depois é ler, ler e ler um número sem fim de documentos.

A ideia que dá hoje é que todas as palavras que constam nos ficheiros de Epstein não prestam, mas tiramisu aparece nos ficheiros e não é por isso que vamos todos deixar de comer tiramisu. Este artigo não é para comentar os atos de Epstein, mas para comentar a onda estranha que se levantou esta semana sobre o facto de Epstein ter sido um dos investidores que cedo se aproximaram do mundo cripto.

O mito “Epstein = Nakamoto”

Nakamoto - o pseudónimo do alegado criador da bitcoin - é de facto 25 vezes citado nos ficheiros, apenas como referência textual, sem qualquer evidência de ligação real entre ambos. Muitas menções são marginais, e circulam emails falsos ou manipulados nas redes que tentam forçar uma conexão, mas nada concreto sustenta isso nos ficheiros. Gerou-se uma enorme teoria da especulação disseminada nas redes sociais, a que se juntam os memes, que chega ao ponto de dizerem que Epstein é Nakamoto.

Na realidade, pelo que pude ver, os ficheiros são, neste tema, uma mão cheia de nada.

Não há dúvidas, depois de ler centenas de páginas, que Epstein andava em torno das criptomoedas e que foi um dos investidores mais precoces no setor (sempre referido como investidor e não como criador de tecnologia), além de que os ficheiros são todos posteriores a 2009, data em que a bitcoin foi lançada. Ele investiu em empresas, criou empresas, mas nada aponta muito mais do que um "olheiro" que andava à procura de uma oportunidade de investimento e um investidor endinheirado que foi procurado por alguns empreendedores do momento que fervilhava em projectos cripto.

Desses artigos de investigação a slides de apresentação de oportunidades de investimento, fica claro o interesse em blockchain mais do que na própria bitcoin e, portanto, nada aponta para o facto de a quebra da cotação da bitcoin dos últimos dias ter algo a ver com o que consta nos ficheiros por parte do DOJ. Não há de facto qualquer evidência de relação causal, apenas coincidência temporal explorada por especuladores. Afinal de contas, a bitcoin corrigiu dos máximos, invertendo o ciclo de grande subida, muito antes sequer da votação para a libertação dos ficheiros pelo que, com ou sem ficheiros, continuo a defender o que defendi aqui

A emoção e polarização em torno da bitcoin

A bitcoin prova o melhor e o pior do que as redes sociais podem dar porque é um dos temas que polariza enormemente a discussão. Quase ninguém é indiferente e existe uma enorme carga social em torno da "moeda", mas essa carga reflete, por debaixo dos panos, traços humanos menos nobres. A inveja nota-se com frequência quando se fala de ganhos que parecem “rápidos” ou “fáceis” associados à bitcoin.

Não é que toda crítica à bitcoin venha daí, e há argumentos legítimos e bem fundamentados, como o consumo energético, a volatilidade especulativa ou debates ideológicos sobre centralização/ descentralização. Mas nas redes, especialmente nestes dias de febre com os ficheiros, nota-se um padrão recorrente. Alguns ataques tornam-se pessoais e virulentos contra quem investiu e está a ganhar (ou ganhou), como se o sucesso de outrem fosse uma ofensa pessoal. Muitos que não entraram no espaço - ou que entraram e saíram a perder - parecem mais incomodados com a possibilidade de outros lucrarem do que propriamente com a tecnologia ou os seus riscos. É um fenómeno humano clássico: o ressentimento disfarçado de análise profunda.

Enquanto isso, os neutros (os que observam sem fanatismo de um lado ou do outro) ficam muitas vezes em silêncio, vendo o circo passar. E os maximalistas de ambos os lados alimentam o fogo, porque extremismo gera audiência e apetite.

Narrativas de ódio e teorias da conspiração

As teorias da conspiração nascem de duas formas: de criativos parodiantes ou de fanáticos negacionistas. A polarização das redes sociais nunca foi tão grande e nunca se sentiu tanto - pelo menos eu - que há tanta gente carregada de certezas sobre tudo o que se passa no mundo, só porque pertence a uns grupos que se juntam a martelar temas e a atacar todos quase sempre sem qualquer fundamento objectivo.

Está mais do que provado que dizer mal e atacar dá mais audiência do que ser equilibrado, analisar e ser honesto nas publicações. O extremismo político levantou a ponta do véu e contaminou todo o discurso social de uma forma tal que muitos já não se preocupam com argumentos mas sim com a opinião da facção a que pertence. O mundo está a ser dominado por raiva de uma forma tão extensa que tudo serve para atacar os outros, nem que seja porque compraram umas quantas bitcoins.

O papel do jornalismo e o risco da desinformação

O que é que tem a ver com este tema o facto de o Washington Post ter despedido centenas de jornalistas? Tudo. Quando perdermos os jornalistas perdemos o fio à meada. Perdemos o norte e perdemos a democracia porque perdemos a liberdade da verdade por troca com a liberdade de opinião.

Até aceito que se diga que por vezes os jornais se desviam na forma como selecionam as notícias e podem colocar melhores notícias sobre o tema B do que sobre o tema A, mas há algo que os jornais de referência entregam e que são o nosso garante. O escrutínio fundamentado. 

Eu sou dos que acha que vale mais o escrutínio imperfeito do jornalismo de referência do que a certeza absoluta da desinformação arquitetada.

No fim, o mercado decide

Muitos farão do caso Epstein um tribunal moral para quem investe em bitcoin, como se a posse de um ativo fosse um atestado de cumplicidade. É um erro de categoria mas no final do dia, o mercado é agnóstico à infâmia e acaba por responder a fundamentos, não a fantasmas.

Será o mercado, e só o mercado, a determinar o destino da bitcoin. Não serão os ficheiros do DOJ, nem os rumores fabricados, nem a raiva das redes sociais. Será a utilidade, a adoção, a tecnologia, o capital e o tempo. A bitcoin já sobreviveu a governos, proibições, crashes, guerras internas, ataques mediáticos e ciclos de euforia e pânico. Se a utilidade se confirmar, sobreviverá também a Epstein.

 

Foto de topo: estátua do presidente Donald Trump a segurar uma bitcoin, em reconhecimento ao seu apoio à criptomoeda, exibida no National Mall, com o Monumento a Washington ao fundo, na quarta-feira, a 17 de setembro de 2025, em Washington. (AP Photo/Alex Brandon)

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