Em 2025 aconteceu tudo o que de bom poderia acontecer para a bitcoin - mas a moeda desvalorizou-se 15% nos últimos 12 meses. Como interpretar esta variação? Nota: este artigo não é uma recomendações de investimento, pretende sim melhorar o conhecimento e o debate sobre a bitcoin.
A bitcoin parece ter virado um activo fantasma. Se a bitcoin é a tal reserva de valor, activo digital, moeda do futuro, parece já ninguém saber, mas certo é que o ano foi fabuloso em quase todas as vertentes dos mercados, mas negativo para a bitcoin, que falhou redondamente neste ano atípico que foi 2025, deitando por terra muitas teorias.
A bitcoin cotava no dia 24 de janeiro de 2025 a 107.000 dólares. Uns dias antes, já eu tinha escrito neste artigo o seguinte: “Se o seu valor pode ir a zero? Já poucos acham que não, mas eu ainda acho que tudo vai depender muito da forma como as mesmas se dispersarem nas mãos de investidores. É verdade que a escassez gera apetite e motiva o valor, mas também é verdade que se a bitcoin acabar nas mãos de poucos (ETFs, Governos, Microstrategy e mais uns poucos), os outros acabam por perder o interesse na mesma e, sem procura, não há valor.”
Depois de um pico que fez a cotação ultrapassar os 125.000 dólares, a bitcoin tem vivido os últimos meses emparedada em torno dos 90.000 dólares, sem conseguir voltar aos valores máximos anteriores, mas também sem cair o suficiente para trazer a queda para as manchetes.
O filme Ghost ("O Espírito do Amor") começa com uma cena marcante: o banqueiro Sam (Patrick Swayze) é baleado e morto durante um assalto enquanto passeia com a namorada Molly (Demi Moore). Ele continua a agir como se estivesse vivo, fazendo o assaltante dispersar, até regressar junto de Molly e ver o próprio corpo caído no chão, nos braços dela. Sam estava morto, mas o seu espírito ainda não tinha dado conta disso. Toda a história gira em torno dessa tentativa desesperada de comunicar e alertar Molly sobre diversos perigos, através dos poucos sinais que a sua condição permita. Estávamos em 1990.
Em 2025 aconteceu tudo o que de bom poderia acontecer para a bitcoin
Claro que uma criptomoeda relativamente nova que se mantém nos 90.000 dólares não é um projeto falhado, longe disso, mas não podemos olhar para esta cotação sem a contextualizar com tudo o que se passou em 2025. E foi mesmo muita coisa. O ano que acabou recentemente foi completamente disruptivo no que diz respeito aos pressupostos que a maioria defende como causa e efeito da bitcoin. Nem o maior sonhador poderia contar com tantos dos acontecimentos, teoricamente bons, que beneficiariam a bitcoin, apesar da sua queda.
O ouro valorizou de forma espectacular durante 2025, como há muito não se via. A prata seguiu-lhe o rasto na reta final e abriu portas para a platina. Para quem posiciona a bitcoin como reserva de valor, ver estes dois ativos a subir de forma drástica sem que a Bitcoin acompanhasse sequer ao longe não foi um soco no estômago — foi uma viga de ferro a cair directa na cabeça.
Mas há mais:
A Administração Americana deu um grande empurrão à bitcoin logo no início do ano, não só a designando como reserva estratégica do país — a par com o ouro e outros —, como criando toda uma narrativa legislativa favorável. Os bitcoiners não poderiam estar mais entusiasmados no início de 2025 e muitos até gritavam por uma bitcoin a 200.000 dólares no final do ano. O regime favorável não só não a impulsionou como a atirou para uma quebra de perto de 15% em 2025, ou cerca de 30% do seu valor mais alto do ano.
Um ativo cair 15% num ano nos últimos 12 meses (desde 24 de janeiro de 2025 até 24 de janeiro de 2026) pode não significar nada - a menos que tal aconteça num ano absolutamente espetacular para as bolsas americanas, para os metais preciosos, para a conjuntura legislativa das criptos e para o contexto geopolítico.
As boas notícias para a bitcoin não se ficaram por aqui: as taxas de juro começaram finalmente a descer, a inflação - embora longe dos picos - ainda não é tão baixa quanto isso. Andámos anos a ouvir que a bitcoin beneficiaria enormemente de taxas de juro mais baixas e inflação persistente, mas mais este argumento caiu em 2025. Tudo o que em teoria deveria contribuir para uma bitcoin mais cara… não contribuiu.
Também ocorreu que, após a clarificação regulatória favorável, grandes bancos americanos começaram a sugerir investimentos em bitcoin, retirando a bitcoin da esfera do produto de investimento paralelo dos maximalistas, o que em certo momento levou a crer que viriam enormes fluxos de capital para a bitcoin. Também não foi suficiente para elevar a cotação acima do valor do início do ano.
A isto juntou-se a quebra do dólar. Com um dólar mais fraco, seria de supor maior refúgio na bitcoin - a jogada de investimento ideal num país com inflação ainda suficientemente alta. Ficou óbvio que nada disto chegou.
Será que a bitcoin morreu mas ainda não se deu conta?
A via mais técnica - inclusivamente usada por mim - para fazer disparar a cotação da bitcoin também não foi suficiente. A questão da escassez da bitcoin como ativo finito e que a cada ano eleva o nível de dificuldade de minerar ficou "arrumada" por uma "hash rate" - taxa de mineração- a níveis máximos sem que a cotação pestanejasse.
Já o argumento de que a bitcoin iria ser uma moeda tecnológica que cresceria a par da evolução digital que a Inteligência Artificial representa, cai por terra quando olhamos para o verdadeiro ano de arranque da IA que foi 2025. Chips, agentes, datacenters, e toda a tecnologia que saiu debaixo das pedras em 2025 e que transformou o sector no mais explosivo de 2025 parecem não ter valido de nada para a bitcoin.
Neste momento começam a faltar argumentos para sustentar um racional sólido para a bitcoin. Na minha opinião, só um fator explica este cenário paradoxal de um ano absolutamente favorável em toda a linha se ter transformado num ano desfavorável para a bitcoin. Esse fator? Os EUA terem-se anunciado com enorme pompa como líderes mundiais das criptos.
Quem leu os meus artigos - e tantas críticas recebi - sabe que sempre vaticinei que o maior e quase único risco da bitcoin pairava na concentração. Quando uma entidade (país, ETF, empresa) acumula mais do que o saudável, os outros perdem o interesse. Este caso parece não ser exceção.
Ainda é cedo para uma análise conclusiva, mas parece que, quando os EUA se assumiram como líderes, os restantes decidiram vender à mesma velocidade com que perdiam o interesse. Escrevi isto a 8 de janeiro de 2025: “Esse é, para mim, o grande risco atual: uma sede demasiado evidente e unilateral americana. Vamos ver se a ganância de ficarem com a maioria das bitcoins não vai motivar o desinteresse de todos os outros — e atirar o valor das bitcoins para zero!”. Voltaria a escrevê-lo hoje ainda com mais convicção. Quando a bitcoin ou qualquer outro activo estiver toda concentrada num país, mais ninguém o vai querer.
Com a cotação emparedada, vamos torcer para que a bitcoin não seja o Sam em Ghost. É que parece mesmo que o seu espírito nos está a querer enviar muitos sinais.