Quando todas as premissas de 2025 parecem ter falhado, há ainda algo que pode inverter o caminho da bitcoin e recolocá-la na direção de subida. Nota: este artigo não é uma recomendação de investimento, pretende sim melhorar o conhecimento e o debate sobre a bitcoin.
Não é fácil escrever sobre a bitcoin. Agora, tal como antes, o tema está bipolarizado entre os que a apoiam cegamente e os que a repudiam de olhos fechados. Não há autor que escreva sobre a bitcoin – e outras criptos – que não se transforme em Deus e no Diabo ao mesmo tempo, mas é minha convicção que o que não se pode mesmo é ignorar. Por isso, tento informar com o que sei e com o que acho saber, porque no que diz respeito à bitcoin, todos concordam que o conhecimento está demasiado fragmentado e talvez ninguém consiga, ainda, abraçar todo o espectro desta tecnologia.
Esta semana, escrevi sobre a bitcoin aqui. Não o referi então, mas esse artigo levaria inevitavelmente a este segundo texto. Aqui está ele.
Já em Outubro, falei no impacto que a IA pode ter na bitcoin, o que mantenho na íntegra. Partindo do princípio que a atual estagnação da cotação da bitcoin resulta de um desinteresse generalizado devido ao interesse americano exagerado, tal como referi no artigo desta semana, é talvez altura de expor aquelas que entendo como as únicas formas da bitcoin sair do marasmo e avançar estrondosamente na direção de Valhalla.
Re-democratizar a bitcoin
Não falei no artigo anterior, mas é também um dos fatores que defendo como impulsionador da estagnação da bitcoin em 2025: O espírito HODL — “Hold on for dear life”, o que poderia ser traduzido como "Agarre-se com todas as forças". HODL transformou-se na estratégia preferida dos bitcoiners maximalistas. A ideia é simples: compra-se um ativo que acreditamos que só tem por onde subir e espera-se que suba até ao infinito. As famosas empresas BTC treasuries, que levantam capital através de venda de ações próprias ou de dívida com o intuito de comprar bitcoins para guardar eternamente, têm acumulado moedas de uma forma quase permanente. Guardam as que já têm e compram mais para guardar.
O princípio de que um bem escasso acabará por subir pela via da procura e escassez de oferta aparece nas primeiras páginas de um livro de introdução à gestão. A estratégia de HODL parece, portanto, lógica. Bastante lógica até. Mas eu, talvez porque tenha estudado demasiada Física Quântica, não me costumo deixar adormecer pela lógica.
Se o ativo está trancado em "treasuries" (como as da MicroStrategy ou governos), ele deixa de ser um ecossistema vivo para passar a ser um objeto de museu. Só que neste caso nem isso funciona: 21 milhões de peças são demais para um museu e de menos para as oito mil milhões de almas que pisam a Terra neste momento.
A escassez da bitcoin já estava definida pelo próprio protocolo que a tornava finita, e nunca precisou de acumuladores a retirar a moeda do mercado para a tornar ainda mais finita. E foi aqui que os maximalistas erraram. Um bem que não circula não é visto, e se não é visto, não é lembrado, e se não é lembrado, não é comprado. Se a bitcoin é a revolução tecnológica do dinheiro, que sentido faz esse dinheiro ficar retido nas mãos de uns poucos, tornando-se uma miragem aos olhos de todos os outros?
A bitcoin teria ainda que se dispersar muito antes de se concentrar mais - na física chamamos-lhe movimentos harmónicos - mas tudo aconteceu ao contrário. Quem nunca comeu caviar não vai andar à procura dele nas prateleiras do supermercado - qualquer livro básico de marketing o explica numa página. É fundamental dispersar mais a bitcoin se a quiserem “salvar”, e isso vai doer porque significa os grandes possuidores venderem a pequenos investidores de forma quase maciça e isso implica o preço descer, para fomentar dispersão - e apetite.
Sem dispersão maciça, é difícil levar a bitcoin a ser o que foi desenhada para ser - a não ser que a Inteligência Artificial entre em jogo e que mude apenas as regras, mas não o jogo.
A Inteligência Artificial e a unidade de pensamento
Muitos leitores podem não saber, mas quando usam a Inteligência Artificial já estão a consumir o que se chama de tokens - sim, tal como se chamam tokens às criptos. Um token é uma unidade de medida digital e as ferramentas de IA já adotaram esse conceito quando calculam as unidades de processamento - ou de pensamento - que usamos cada vez que solicitamos algo. Pedir à IA um sinónimo de uma palavra custa x tokens ao passo que pedir à IA que calcule a tendência de uma ação com base na teoria de fractais custa muito mais tokens.
Parece demasiado óbvio, para mim, que a Inteligência Artificial esteja a construir agora a sua própria unidade de medida que um dia se transformará na sua unidade de faturação. Eu penso que as transações entre as diversas IAs serão feitas pela via de uma qualquer criptomoeda equivalente aos tais tokens. Também penso que a mais provável é mesmo a bitcoin, seja de forma indireta, seja de forma direta.
Se as gigantes de IA anunciarem a adoção da bitcoin como moeda de transação, ela transforma-se imediatamente naquilo que nunca foi: um produto que circula diariamente na economia. Se anunciarem outra qualquer criptomoeda que não a bitcoin, a bitcoin pode ainda assim vir a ser o "ouro" dessa nova economia: a reserva de valor ou a bitola de emissão de tokens. No fundo a bitcoin pode ser o ouro que o ouro já foi para o dólar e outras moedas.
Mas o grande risco para os investidores neste momento é esses gigantes deixarem a bitcoin de fora da equação. Se as Big Techs criarem o seu próprio padrão ou moeda, a bitcoin pode efetivamente morrer ou passar a ser um "zombie" .
O dilema final
Se a IA adotar a bitcoin, poderá criar "trilionários" instantâneos entre os atuais acumuladores. Isso parece uma opinião quase universal e a que tem alimentado o sonho de muitos. E aqui reside a discussão essencial: podendo as gigantes tecnológicas criar uma nova moeda com utilidade imediata, irão elas alimentar os que andaram estes anos todos a apoderar-se quase selvaticamente da bitcoin? Ajudarão a empurrar os acumuladores para cima ou acabarão por lhes retirar o chão?
Ou vão os gigantes deixar cair a bitcoin e tentar captar valor criando uma outra qualquer moeda semelhante que se possa reger mais facilmente pelo modelo de negócio associado à inteligência Artificial?
A bitcoin pode ser salva , mas talvez não pelos que a guardaram, mas pelos que a libertarem. Aconteça o que acontecer, lembre-se que o que transformou o Titanic em tragédia não foi colidir com um iceberg. A tragédia só o foi porque não havia botes salva-vidas para todos.
Leia mais artigos deste autor sobre a bitcoin aqui.
Foto no topo: o Titanic antes de partir para a sua viagem fatídica. Afundou-se na noite de 14 para 15 de abril de 1912 (Albert Harlingue/Roger Viollet/Getty Images)