A bitcoin, que chegou aos 126 mil dólares em 2025, está agora estacionada em torno dos 64 mil. Fica o sentimento de que os pequenos investidores em criptoativos estão a capitular face à atual e enervante performance do mercado e ao silêncio ensurdecedor que se instalou. E há uma outra "fonte" de grandes valorizações
Quando a bitcoin subiu até ultrapassar os 126.000 dólares em 2025, todos acorremos à escrita sobre a criptomoeda num misto de expectativa e de euforia. O ativo parecia ter encontrado o seu sentido de direção e parecia que nada o poderia parar. Mas parou.
Desde a eleição de Trump que a bitcoin saiu definitivamente da esfera dos investidores de retalho para entrar na alta finança. É uma estatística muito pessoal, mas, quando varremos as redes sociais, ficamos com o sentimento de que, de facto, os pequenos investidores em criptoativos estão a capitular face à atual e enervante performance do mercado e ao silêncio ensurdecedor que se instalou.
No primeiro dia de janeiro de 2026, a bitcoin cotava ligeiramente abaixo dos 89.000 dólares, depois de uma correção dos máximos ainda durante o ano anterior. Hoje, cota nos 64.000 dólares e, embora com grande volatilidade, há dois meses que não sai muito do que parece ser um ponto de equilíbrio instável em torno dos 60.000 dólares. Da euforia passou-se a um cenário marcadamente pessimista. Fala-se mais de até onde a bitcoin pode descer do que de quando poderá recuperar. O sentimento mudou, mas será que mudaram os pressupostos?
O risco da concentração
Sempre mantive a convicção de que o maior risco da bitcoin seria a concentração. A centralização de moedas, quer ao nível privado quer ao nível público, seria sempre uma força de repulsa para todos os outros. O Governo Americano apressou-se a anunciar que seria o líder mundial em criptoativos. Em paralelo, várias empresas adotaram estratégias de Bitcoin Treasury (acumulação nos balanços) ao ponto de concentrarem montantes significativos.
Os números já não deixam margem para intuições. Quase um quinto de toda a bitcoin que alguma vez existirá está hoje em mãos institucionais segundo dados da Bitcointreasuries.com. ETFs, empresas cotadas, governos, fundos privados. Uma única empresa, a Strategy, de Michael Saylor, detém sozinha quase 5% da oferta total. O que era uma suspeita tornou-se aritmética.
É factual que há um movimento para transformar a bitcoin num produto essencialmente americano. Mas todos sabemos o que acontece nestes cenários: há sempre aqueles que se querem juntar, mas também há os que se querem afastar. A Europa parece ter-se distanciado, focando-se mais no Euro Digital, e da China e a Coreia do Sul parece imperar o silêncio. A bitcoin parece cada vez mais fora das agendas noticiosas de países que já foram bem mais entusiastas do que são hoje.
A bitcoin apenas terá sucesso se circular o suficiente para gerar utilidade. Se estiver fechada no balanço de empresas ou de estados acumuladores, nunca vai alcançar a dimensão democrática que lhe deu origem, nem a adoção em escala que sustenta as valorizações de centenas de milhares de dólares que muitos vaticinaram.
Os bitcoiners e a ganância que foi expulsa
Não podemos dissociar a bitcoin do sentimento de "dinheiro fácil". Ela criou bilionários e ainda mais milionários; andou nos cêntimos e chegou aos valores que temos hoje. É inevitável que os investidores esperem grandes valorizações quando decidem comprá-la. Existe uma dose natural de ganância aqui. Ninguém compra um ativo relativamente novo, e com novos riscos e incertezas, para obter o mesmo rendimento de um depósito a prazo ou de um índice de ações.
Mas há uma ironia que poucos assumem. A mesma ganância que deu à bitcoin os seus primeiros milhões de crentes é hoje a que a abandona. Não é que o retalho tenha deixado de ser ganancioso. O retalho apenas descobriu que a bitcoin deixou de ser o sítio onde a ganância corre mais depressa. Quando um ativo se torna propriedade de tesourarias e de fundos cotados, a sua volatilidade amansa-se, e é precisamente a volatilidade que alimentava o sonho do life-changing money. Domesticámos a fera para a tornar apresentável às instituições, e as feras domesticadas já não fazem ninguém rico da noite para o dia.
É este o terceiro silêncio: depois do silêncio do retalho e do silêncio das manchetes, chega agora o silêncio da própria moeda, que deixou de gritar. Ou simplesmente algo muito mais ruidoso surgiu na esquina ao lado.
Semicondutores: a nova bitcoin
Durante anos, nada parecia conseguir bater as valorizações da bitcoin — até aparecer a febre dos semicondutores.
Os índices deste setor praticamente duplicaram só este ano. Há empresas ligadas ao ramo a subir 500% em menos de 12 meses. Companhias absolutamente históricas e robustas valorizaram 200% desde 1 de janeiro. O setor dos semicondutores parece ter roubado o papel de "íman de dinheiro rápido" que o retalho antes encontrava nas cripto. O próprio índice geral Sul Coreano Kospi subiu 135% nos últimos 12 meses. Os mercados têm sido, de facto, um enorme concorrente à bitcoin.
O dinheiro é finito no curto prazo. Os bitcoiners, que sempre argumentaram que uma bitcoin finita iria vencer a impressão de moeda infinita, podem estar agora a trocar estratégias de longo prazo por táticas de curto prazo para apanhar a boleia dos chips. Este setor apresenta hoje uma força que faz lembrar a bolha das dotcom do final dos anos 90, ou a própria bitcoin há meia dúzia de anos.
A somar a isto, existe uma ligação umbilical entre semicondutores (capacidade de computação) e criptomoedas. Sair da bitcoin para investir em chips não parece, por isso, uma traição ideológica, mas sim um movimento tático natural.
O lançar da moeda
A bitcoin não parece condenada a morrer, mas parece temporariamente condenada no seu crescimento. A bipolarização e a permanente presença no limbo entre o bem e o mal roubaram-lhe a força de outrora. A narrativa empurrou-a para uma luta entre o amor e o ódio, duas faces da mesma moeda. Neste momento, calhou a face do desinteresse e do pessimismo, mas o jogo não acabou. A moeda ainda vai ser atirada ao ar muitas vezes e, embora possa estar viciada por inerência e não cumprir a regra da curva Gaussiana, vai decerto cair várias vezes com a face do amor virada para cima.
O que ficará da bitcoin quando a barulheira dos semicondutores acabar é a grande questão que já muitos se colocam.
Afinal de contas, nenhum dos pressupostos tecnológicos que originou a bitcoin mudou. Mudaram, sim, as estratégias de quem lida com ela e as narrativas construídas em torno de um produto que continua a ser único. A bitcoin foi desenhada para um fim, mas o mercado acabou por lhe dar aplicações completamente diferentes da ideia original. Às vezes, isso eleva um ativo. Outras vezes, destrói-o.
