opinião
Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

Bitcoin: a queda do arranha-céus que ninguém quer explicar

5 fev, 21:05

A bitcoin está a viver o seu momento Die Hard - Assalto ao Arranha‑Céus. No topo do edifício, dentro do Nakatomi Plaza dos mercados, toda a gente finge que está tudo normal, que a queda é “mais uma correção”, que nada de grave se passa lá dentro. Mas há uma cena no filme que descreve melhor o que estamos a ver: Bruce Willis, encurralado, sem forma de convencer o polícia cá em baixo de que há um assalto em curso, amarra um dos bandidos a uma cadeira, escreve-lhe uma mensagem no peito e atira-o pela janela do arranha‑céus. O corpo atravessa o vidro, cai muitos andares e só então o polícia percebe que aquilo não é um alarme falso - é uma guerra real dentro do prédio.

A queda da bitcoin nestes dias parece exatamente isso: um bandido amarrado a uma cadeira a atravessar o vidro do 30.º andar. Não é uma vela vermelha isolada, não é um soluço técnico, não é um erro de leitura. É um sinal tão violento e tão explícito que só não o vê quem não quer olhar para cima. E, tal como no filme, o silêncio que se segue é ainda mais revelador do que o estrondo.

No dia 25 de janeiro de 2026 escrevi este artigo. Foi há quase 30% atrás. A bitcoin estava num estável intervalo entre os 89.000 e os 90.000 dólares e tombou hoje para os 65.000. Quando comparamos em valor absoluto, a bitcoin caiu cerca de 25.000 dólares em poucos dias — uma das maiores quebras de sempre.

Por vezes, quedas violentas num ativo estão sobretudo ligadas ao volume transacionado. Quando o preço oscila muito mas o volume é baixo, podemos estar perante uma correção pouco representativa do sentimento real do mercado. Mas a queda desta última semana está muito longe disso. Os volumes estão três a quatro vezes acima do normal. Isso diz tudo: esta correção pode não ser um incidente mas sim um acidente.

Quando dei ao artigo da semana passada o título “A bitcoin morreu e ninguém a avisou”, não foi por ter uma bola de cristal ou um candeeiro mágico que projeta cotações no teto do quarto. Aliás, preferia não ter razão em nada do que escrevi sobre o possível obsoletismo da bitcoin, mas o facto é que a bitcoin parece ter sido largada do trigésimo andar e, até ao momento em que escrevo, ainda não parou de cair sem que alguém consiga explicar razoavelmente o que está a acontecer.

Falar do ajuste que está a ocorrer nas bolsas americanas em geral é lógico mas não é plausível. A bitcoin há muito se des-correlacionou com o Nasdaq.

Fala‑se de liquidações de posições alavancadas. É algo que acontece e até pode ser saudável para criar novo momentum de subida, mas quando isso acontece, vemos “velas” vermelhas tão compridas quanto um eucalipto. Aqui não vemos velas: vemos degraus. Como se o mercado quisesse passar despercebido, mesmo quando a bitcoin cai mais de 10% desde ontem.

Nas redes sociais, a serenidade dos bitcoiners quase surpreende. Mas basta olhar com atenção para perceber o nervosismo: publicações de aparente calma mas em sequência ritmada, tentativas de aspirar a nuvem negativa que paira no ar. A ansiedade está lá, só não está a gritar.

O peso da BlackRock e da Strategy

Há dois nomes que ninguém que transaciona bitcoin pode ignorar: BlackRock e Strategy (a antiga MicroStrategy). São os maiores detentores de bitcoin conhecidos. A BlackRock porque criou um ETF onde cada investidor compra unidades de participação e o fundo compra os BTC correspondentes. Não é uma aposta da BlackRock, como muitos maximalistas gostam de dizer. É apenas um veículo em que quem decide é o investidor, não o gestor.

No caso da Strategy, toda a estratégia é bitcoin. Os acionistas compram ações porque acreditam no modelo de negócio, e o modelo de negócio é comprar, e nunca vender  bitcoins. Os acionistas não decidem comprar nem vender. É a gestão da empresa que o faz. Entre as duas, somam cerca de 700.000 BTC.

Seria ingénuo pensar que o preço atual é independente do que estas duas entidades fazem.

A bitcoin é um projeto tecnológico-financeiro. Já lhe chamaram muita coisa, mas no essencial é isso: tecnologia. E como qualquer projeto -novo ou velho - está sujeita ao entusiasmo, ao medo, à comunicação e ao inesperado. Mantenho o que escrevi: se não surgirem rapidamente notícias positivas, a bitcoin pode entrar numa espiral de insignificância que a transforme mais num cromo do que num ativo.

Seja uma notícia da Reserva Federal, seja um movimento dos grandes sete da Inteligência Artificial como referi no artigo anterior, só um catalisador externo parece capaz de travar este caminho. Quando um ativo cai por uma razão específica, sabemos para onde olhar. Quando cai sem razão evidente, não sabemos para onde olhar mas  a casca de banana pode já estar colada à sola do sapato.

O teste decisivo: a earnings call da Strategy

Coincidência ou não, a Strategy - a maior impulsionadora da bitcoin nos EUA - apresenta resultados hoje após o fecho dos mercados, às 21h. A empresa tem 713.502 bitcoins avaliadas hoje em mais de 45 mil milhões de dólares. Parece muito, mas já valeu o dobro. E custaram‑lhe, em média, 76.052 dólares cada.

De ontem para hoje aconteceu algo inédito: a cotação da bitcoin caiu abaixo do preço médio da reserva da Strategy. Pode ser acaso, mas esta quebra no mesmo dia em que o maior investidor se prepara para apresentar resultados não parece nada casual.

A bitcoin precisa de gasolina. E, na falta de outro catalisador, o que for dito hoje na earnings call da Strategy pode muito bem moldar o futuro da bitcoin — pelo menos no curto prazo.

Colunistas

Mais Colunistas