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Psicóloga e membro da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

O Psicólogo Responde: bissexualidade e compromisso - como integrar a identidade sem comprometer a relação?

29 mar, 10:00
Bissexualidade. ChatGPT Image

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

Sentir atração por alguém fora da relação pode ser perturbador, mas torna-se especialmente complexo quando a experiência se cruza com a descoberta ou reafirmação de uma orientação bissexual.

A atração sexual ou emocional por terceiros é uma experiência comum, mesmo em relações estáveis. A ciência psicológica demonstra que sentir esse impulso não significa, necessariamente, uma intenção de agir contra os acordos estabelecidos. Muitas vezes, estas atrações são geridas internamente sem impacto no vínculo, noutras, podem tornar-se um catalisador para uma reflexão identitária mais profunda.

Bissexualidade: uma identidade permanente, não um dilema

É fundamental clarificar: a bissexualidade é uma orientação sexual plena e estável, não uma fase de indecisão ou um sinal de insatisfação relacional. Embora a sua descoberta possa ocorrer em diferentes fases do ciclo de vida, ela constitui uma característica intrínseca do indivíduo. Integrá-la é um processo de coerência interna e, naturalmente, a pessoa não deixa de ser bissexual por estar numa relação monogâmica.

A integração dessa identidade implica um processo interno de reconhecimento e coerência pessoal, não dependendo necessariamente de uma declaração pública ou de mudanças comportamentais imediatas.

O impacto na relação

Do ponto de vista relacional, o que determina o impacto no bem-estar e na relação não é tanto a atração em si, mas o que as pessoas fazem com ela - se optam por explorar esses sentimentos respeitando os compromissos assumidos ou se a necessidade de concretizar determinados desejos se revela um ato de honestidade pessoal. Aqui, a honestidade, primeiro connosco e depois com a outra pessoa, pode tornar-se uma ferramenta de proteção da relação.

A literatura científica aponta a comunicação aberta e o entendimento claro de limites como fatores centrais para gerir este processo. Para muitas pessoas em relações monogâmicas, aceitar a bissexualidade significa reconhecer que a capacidade de sentir atração por mais de um género é uma parte vital da sua biografia, que pode coexistir com o respeito pelos acordos de exclusividade.

O valor dos acordos e do apoio profissional

Em cada relacionamento são estabelecidos acordos implícitos ou explícitos sobre exclusividade, intimidade e limites. Atuar de forma dissimulada sobre sentimentos fora desses acordos pode comprometer a confiança, a intimidade e o bem-estar emocional de ambas as partes.

Se houver abertura para isso, conversar sobre o assunto pode ser parte de um processo responsável e não o anúncio de uma transgressão. Dialogar sobre necessidades, valores e possíveis ajustes na forma como vivem a relação, pode aprofundá-la e fortalece-la.

Quando existe ambivalência intensa entre o desejo de compreender a própria orientação e a preocupação com o compromisso, um espaço terapêutico seguro pode ajudar a:

  • Validar a bissexualidade como uma característica positiva e permanente;
  • Clarificar valores, distinguindo o "quem eu sou" do "que compromissos escolhi";
  • Mitigar o estigma e a culpa associados à invisibilidade bissexual;
  • Explorar formas de comunicação assertiva;
  • Desenvolver estratégias de autorregulação emocional diante de tensões.

A bissexualidade é uma orientação legítima e permanente, representando a capacidade de sentir atração por mais do que um género, e não um sinal de insatisfação relacional. Sentir atração é normal e compreender a própria orientação sexual é um pilar da saúde mental. A integração desta identidade num relacionamento monogâmico é compatível e pode constituir-se como um convite à integridade pessoal.

Quando surge ambivalência, tal como em muitas outras situações, é importante escutá-la e ativar recursos internos que permitam fazer escolhas que respeitem tanto a integridade de cada um, como os compromissos assumidos com os outros.

Honrar quem somos é o primeiro passo para honrar, de forma plena e consciente, os vínculos que escolhemos manter.

(Nota: este texto foi redigido seguindo princípios de linguagem inclusiva, em conformidade com as boas práticas de comunicação para a igualdade e diversidade.)

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