Além da falta de pagamento de impostos há cinco salas de jogo cujas concessões foram ganhas há três e seis anos por empresas ligadas a um grupo espanhol que nunca abriram
Antes da pandemia, o bingo em Portugal gerava mais de 56 milhões de euros por ano. Em 2019 havia 14 salas em funcionamento, mas hoje restam seis e quatro estão a operar com a concessão caducada desde o final do ano passado: Trindade (Porto), Panda e Amadora (Lisboa) e Amora (Setúbal). Apenas as salas de jogo da Nazaré e Belenenses têm concessões dentro do prazo. Apesar disso, o dinheiro continua a circular: em 2025, as seis salas somaram 27 milhões de euros e, só em janeiro de 2026, ultrapassaram os 2,4 milhões.
O Exclusivo teve acesso a um documento onde um representante do setor informa os restantes que, a 4 de fevereiro, houve uma reunião no Turismo de Portugal para análise das concessões de jogo do bingo. Estiveram presentes Teresa Monteiro, vice‑presidente do Turismo de Portugal e presidente da Comissão de Jogos, o diretor coordenador do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogo (SRIJ), Luís Filipe Coelho, e duas inspetoras. Foi comunicado que seria constituído um grupo de trabalho para apresentar uma proposta de alteração da legislação e que também seriam analisadas as medidas já apresentadas pela Associação Portuguesa de Bingos (APB).
Em abril de 2023, a APB propôs ao Governo uma reforma profunda do modelo, centrada na redução da carga fiscal e no aumento da percentagem destinada a prémios, para tornar o jogo mais competitivo e atrativo. Defendeu a eliminação da tributação direta sobre prémios, a redução de impostos sobre a receita bruta e a flexibilização da gestão, permitindo definir prémios especiais, promover publicidade e modernizar as salas. Propôs ainda a introdução e expansão do bingo eletrónico em rede, prémios líquidos mais elevados, criação de “corners” de máquinas recreativas e apostas desportivas e revisão de regulamentos considerados ultrapassados, seguindo modelos de Espanha e Itália. O objetivo é recuperar jogadores, aumentar receitas, evitar encerramentos e garantir a sustentabilidade do setor.
As quatro concessões caducadas foram mencionadas na reunião de 4 de fevereiro. O representante das concessionárias foi informado de que a Secretaria de Estado do Turismo, Comércio e Serviços não iria licenciar qualquer prolongamento temporal de funcionamento porque pretendia lançar concursos públicos ainda durante o mês de março. Quanto às notificações para pagamento de dívidas, Teresa Monteiro terá informado que as concessionárias teriam de pagar ou negociar com a Autoridade Tributária (AT) um regime de pagamento a prazo.
Em resposta ao Exclusivo, o gabinete do Ministro da Economia e da Coesão Territorial afirmou que “em finais de fevereiro, as atuais concessionárias de jogo do bingo deviam 4,9 milhões de euros”, a que se somam “603 mil euros” relativos a salas já encerradas, num total de 5,5 milhões. A falta de pagamento arrasta‑se há anos, assim como a atribuição de concessões a empresas ligadas entre si, apesar de terem dívidas ao Estado.
Ao que o Exclusivo apurou, essas empresas têm ligação ao grupo espanhol Valisa, cujo CEO é José Vall Royuela. A Mulroy Investments, de Royuela, controla a Vozdosnúmeros. A Vozdosnúmeros detém três empresas: a Grapixtel, a Venistiplet e a Belbingo. A Grapixtel tinha a concessão do Bingo de Odivelas (por abrir) e detinha a Zosteguir, concessionária do Bingo de Almada (por abrir). A Belbingo explora o Bingo do Belenenses, que está a funcionar. Já a Venistiplet reúne três concessões que nunca abriram, entre elas a do bingo da Boavista, Olhão e Benfica e apenas uma ativa, o Bingo da Nazaré. Porquê é que o Estado o tem permitido? Não há resposta. Na mesma resposta ao Exclusivo, o gabinete do ministro sublinhou apenas que “as concessões atribuídas para salas de bingo que nunca abriram ao público já foram objeto de rescisão em dezembro de 2024 e março de 2025”, tendo os valores seguido para cobrança coerciva. O Governo confirmou também que “tem vindo a reunir com a APB, visando encontrar soluções que permitam viabilizar a continuidade da exploração das salas de bingo que se encontram em funcionamento”.
Contactámos o representante do grupo espanhol que tem abertos os bingos da Nazaré e Belenenses. O advogado Pedro Valido recusou que o grupo esteja de má‑fé e reconheceu que “não é segredo que todas as concessionárias portuguesas têm dívidas ao Estado”. Explicou que estas dívidas resultam de anos de dificuldades no setor, agravadas pela Troika, pela quebra de consumo e, sobretudo, pela pandemia.
Sublinha que o bingo enfrenta concorrência que considera desigual, nomeadamente o jogo social e as raspadinhas, que “prejudicam todo o jogo concessionado, muito especialmente o jogo do bingo”.
O mesmo responsável acrescentou que o Estado nunca permitiu modalidades previstas na lei, como o bingo eletrónico, retirando competitividade às salas e recordou que os casinos tiveram um regime de perdão de dívidas relacionadas com a pandemia, enquanto “para os bingos não foi encontrada a mesma solução”, apesar de promessas do anterior Governo.
Sobre o facto de as salas não pagarem os impostos apesar de terem faturado 27 milhões de euros em 2025, afirmou que “praticamente não há nenhum bingo em Portugal que seja lucrativo”, apontando o peso fiscal e os custos de operação. Garante que as empresas que representa atuam de “boa-fé”, assegurando salários e mantendo postos de trabalho “à espera de que a atividade possa ser modernizada e tornada rentável”.
Questionado sobre as concessões que o grupo ganham e ficaram por abrir, nomeadamente Odivelas, Almada, Olhão e Benfica, descreveu situações diferentes: salas pertencentes a clubes que perderam os espaços para os bancos, obras atrasadas, mudanças de localização e decisões do Governo que, diz, impediram aberturas já preparadas. No caso do Benfica, afirma que a sala “estava pronta para funcionar e foi claramente uma decisão do Governo” impedir a abertura, motivo pelo qual ainda contestam a retirada da concessão apesar de ter passado mais de três anos do prazo para a abrir. Apesar das dificuldades, assegura que o grupo Valisa mantém interesse em continuar em Portugal.
Já um antigo funcionário do Bingo de Odivelas descreveu seis anos de promessas falhadas e silêncio administrativo: diz que a concessão foi atribuída sem sala apta a abrir, que “nunca houve obras”, que nem trabalhadores nem advogados conseguiram contactar responsáveis da concessionária. “Nem o próprio Estado os consegue contactar”, referiu, sublinhando que não houve sanções nem retirada célere da concessão apesar do incumprimento do prazo legal.
Com as concessões por abrir foram centenas os trabalhadores que foram para o desemprego.
Para o Sindicato de Hotelaria do Sul, a situação “continua a ser dramática”: existe faturação nas salas abertas, mas parte do que deveria reverter para o Estado não é paga, há salas a funcionar com concessões caducadas e um “regime de exceção” que contrasta com a rapidez habitual da Autoridade Tributária perante outros contribuintes. O sindicato admitiu como solução transitória a nomeação de comissões administrativas pelo Governo, tanto para recuperar impostos como para garantir direitos laborais e transparência.
Já o consultor de políticas anticorrupção João Paulo Batalha fala em “inércia” ou “captura do Estado” por interesses privados: concessões caducadas a operar, dívidas a acumular e um negócio “a dinheiro vivo, com riscos de lavagem”, em que o Estado “ignora as leis que faz” e não cobra o que é devido. Considera “o cúmulo” pedir perdões fiscais e “leis à medida” num setor em incumprimento, e defende que quem não cumpre deve sair do negócio.
No Bingo da Amadora, o gerente Diogo Fragoso descreveu um setor a tentar adaptar‑se: depois da pandemia, os clientes “mudaram de hábitos”, ficam menos tempo, gastam menos e a concorrência do jogo online “a um clique” desvia público, sobretudo jovem. Diz que as salas sobrevivem com animação constante, nomeadamente temas, prémios garantidos de 1.000€–1.500€, bar como complemento, mas que “a receita é menor e o imposto continua igual”, defendendo impostos mais baixos para subir os prémios e tornar o bingo competitivo, à semelhança de Espanha e Itália. Diogo Fragoso sublinhou que 65% da receita vai para pagar impostos.
Do lado dos clientes, Alice Viegas (70 anos) e Luís Viegas (73) disseram que o bingo é sobretudo convivência e rotina. “Um hobby para distrair”, sublinharam ao mesmo tempo que admitiram que “ficou mais caro e que há menos gente desde a pandemia”. Já Maria Luísa (70 anos) fez notar que os cartões e o custo de vida afastaram público, embora o bingo continue a ser um antídoto à solidão: “Venho, converso, passo a tarde; melhor do que estar no sofá”.
