Alterações climáticas "não vão acabar com a humanidade" mas "vão contrariar os esforços" para erradicar a fome e a pobreza

11 nov, 11:26
Planeta Terra

A ZERO garante que lutar pelas necessidades básicas do ser humano pode não ser um esforço "efetivo" se as alterações do clima não fizerem parte da lista de prioridades. "Podemos conseguir retirar muitas pessoas da fome, melhorar a sua saúde e dar-lhes água canalizada, mas depois vem a grande tempestade e milhões de pessoas ficam sem lar”

A crise climática tem sido um tema central na agenda do filantropo americano Bill Gates, que acaba de rejeitar na sua última tese a ideia de que as alterações climáticas podem acabar com a humanidade.

O co-fundador da Microsoft não nega as “consequências graves” das alterações climáticas, “especialmente para as pessoas nos países mais pobres”, mas condena uma “visão apocalíptica” do tema.

“A crise climática não vai realmente acabar com a humanidade”, começa por explicar à CNN Portugal Francisco Ferreira, presidente da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável. “Mas aquilo que falha no discurso de Bill Gates é que se a humanidade não tratar as alterações climáticas como uma grande prioridade, a par de tentar ultrapassar outras desigualdades, as populações mais vulneráveis nos países menos desenvolvidos vão ver a sua situação muito agravada”, continua.

Francisco Ferreira defende acima de tudo uma posição de equilíbrio entre as necessidades fundamentais, que configuram objetivos de desenvolvimento sustentável, e a prioridade dada às alterações climáticas, porque “até podíamos conseguir retirar muitas pessoas da fome, melhorar a sua saúde e dar-lhes água canalizada, mas depois vem a grande tempestade e milhões de pessoas ficam sem lar, como aconteceu no Paquistão em 2022”, descreve, referindo-se às grandes inundações que fizeram mais de mil mortos e desalojaram cerca de 300 mil pessoas.

Para o responsável, a crise do clima configura um problema “grave e simples”: “Se não resolvermos as alterações climáticas, não vamos conseguir garantir que os investimentos que estamos a fazer nessas necessidades básicas venham a ser efetivos.” O engenheiro ambiental sublinha a importância de uma atitude preventiva em relação às alterações climáticas, dado que as suas consequências “vão contrariar os outros esforços”.

Vindo de um dos maiores defensores da redução das emissões de carbono - que se apresenta como ativista climático -, o ensaio de Bill Gates chocou a comunidade científica.

Para justificar a mais recente posição, o bilionário disse que “as alterações climáticas, as doenças e a pobreza são todos problemas graves”, mas “devemos lidar com eles de forma proporcional ao sofrimento que causam”. O argumento é corroborado pela presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, Isabel Jonet, que destaca a importância de “cuidar primeiro que tudo das pessoas”.

“Tudo o que sejam problemas que afetem o ser humano, têm de ser priorizados. Devemos ter em primeiro lugar atenção aos impactos sobre as pessoas, a fome, a pobreza, a falta de acesso à saúde e à água potável, por exemplo, que é algo fundamental para ter uma vida digna”, enfatiza.

Ao mesmo tempo que reforça o apelo ao cuidado da população, a responsável reconhece que os problemas do clima também vêm afetar a qualidade de vida, mesmo que com “efeitos de médio ou longo prazo”. Isabel Jonet sublinha que “não se deve descurar aquilo que são os impactos no clima, mas não podem ser aquilo que nos move apenas”.

Para Bill Gates o alarmismo que se prende com as alterações climáticas está a desviar a atenção daquilo que “deve contar ainda mais do que as emissões e as mudanças de temperatura”: melhorar a vida das pessoas.

“O nosso principal objetivo deve ser evitar o sofrimento, especialmente para aqueles que vivem nas condições mais difíceis, nos países mais pobres do mundo”, ratifica.

O presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, Vítor Veloso, faz questão de colocar o combate à doença e às alterações do clima em “pé de igualdade”. Admite que as catástrofes naturais potenciadas pela crise climática podem estar a afetar a saúde das pessoas. “Por exemplo, estes últimos furacões que destroem tudo aquilo que é básico, o saneamento, as habitações e os alimentos. Tudo isso é extremamente importante e vai influenciar direta ou indiretamente a saúde das pessoas”, reforça.

O responsável atribui às doenças infecciosas e ao cancro grande parte das mortes a nível mundial e sublinha que o que está a ser feito pelos governos a nível da prevenção de doenças é “completamente insuficiente”. Ainda assim, não põe em causa a atenção que tem sido dada às alterações climáticas, alertando para as consequências “arrasadoras” que podem ter para a vida humana.

Também para o presidente da associação ZERO as necessidades básicas da população devem ser vistas como uma prioridade. “Nos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável há uma certa ordem de prioridades: a questão da saúde, da fome e da pobreza são logo os primeiros e a ação climática é o 13.º objetivo”, insiste. “Mas não tenhamos dúvidas de que se eu não tiver uma fatia importante de investimento destinada à redução das emissões dos países desenvolvidos principalmente, eu vou ter catástrofes climáticas mais frequentes e mais dramáticas”, conclui Francisco.

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