Bilhetes do Gil Vicente - FC Porto estão a dar que falar. O clube da casa "limitou-se a cumprir" os regulamentos da Liga, a Liga "é apenas mediadora" e o FC Porto prefere não responder
A polémica levantou-se quando foram conhecidos os preços que o Gil Vicente ia cobrar ao FC Porto para o encontro que junta dragões e gilistas, a contar para a segunda jornada da Liga Portugal 2025/2026.
31 euros por bilhete foi o valor atribuído aos 5% de lotação mínima a que a equipa visitante tem direito. E certas reações nas redes sociais espelharam alguma insatisfação, como se pode ver nas publicações aqui partilhadas.
Pagar 62€ por 2 bilhetes no Gil Vicente - FC Porto a uma 2.ª feira à noite. Até ia com o meu filho mas assim já não vou.
Querem voltar ao tempo do Covid. Estádio vazio e tudo a ver nas TVs.
— Bai à Linha e Cruza (@BaiLinhaeCruza) August 9, 2025
Em relação ao preço dos bilhetes visitantes para o Gil serem de 31€, espero bem que em janeiro o @FCPorto leve os mesmos 31€ aos gilistas para virem ao Dragão. Amor com amor se paga.
— The Lusofrenchie (@sandragomes2000) August 10, 2025
O Gil é dos clubes com mais tradição recente na Liga e é o clube com melhor média de público fora top-5.
— Gil Vicente Info (@GilvicenteInfo) August 10, 2025
Para alguma gente, está a mais na Liga, devido ao preço dos bilhetes. Gente essa que depois lamenta a queda dos históricos...
AVSs e B SADs é que devem agregar algo à Liga.
A CNN Portugal sabe que, ainda de terem sido conhecidos os valores dos bilhetes aplicados aos adeptos visitantes, o FC Porto tentou comprar toda a bancada visitante do Estádio Cidade de Barcelos. O acordo proposto pelos azuis e brancos previa um pronto pagamento, desde que o Gil Vicente baixasse o preço por bilhete.
O clube da casa recusou, e foi já depois disso que estalou a polémica, com bilhetes iniciais a serem cobrados acima do valor máximo de 31 euros. O FC Porto alertou o Gil Vicente para essa mesma irregularidade, tendo o clube de Barcelos corrigido a situação: os bilhetes passaram para 31 euros, valor máximo para os adeptos que comprassem bilhete para a zona que ocupa os 5% da lotação obrigatoriamente destinada aos visitantes.
A equipa da CNN Portugal tentou, sem sucesso, obter uma resposta do Gil Vicente, depois de conhecer estas alegações. O clube de Barcelos deixou uma resposta breve quando questionado sobre se teria havido algum diálogo com o FC Porto antes de serem conhecidos os preços dos bilhetes e antes dessa informação chegar à CNN Portugal: "O Gil Vicente FC limitou-se a cumprir aquilo que se encontra estabelecido nos regulamentos da Liga Portugal”.
A CNN Portugal contactou a Liga, que disse que este cenário não é completa novidade para o FC Porto que, em Assembleia-Geral, onde a Liga é “apenas mediadora” e “dá a voz das decisões aos clubes”, viu aprovada com a maioria dos clubes a votar favoravelmente, a medida que permite o teto máximo de 31 euros para os bilhetes mais baratos nos estádios de nível 1 - como é a casa do Gil Vicente. Foi exatamente esse valor que os gilistas atribuíram aos bilhetes destinados aos dragões.
A CNN Portugal contactou ainda o FC Porto, que preferiu não prestar declarações.
De acordo com o comunicado oficial n.º1 da época 2025/2026, a Liga tem em conta três níveis de estádios: o nível 1 representa os estádios com melhor classificação da Liga, enquanto que o nível 3 representa os estádios com pior classificação. Todos os estádios que se inserem no nível 1 têm, no mínimo, três categorias de preço para jogos do campeonato: dos zero aos 31 euros, dos 31 euros aos 62 e dos 62 aos 93. As categorias dependem, por exemplo, do cariz do lugar (em pé ou sentado), da distância ao relvado ou das condições de visibilidade.
De acordo com a mais recente informação da Liga, apenas nove estádios tinham a classificação máxima, também chamada de Premium. O do Gil Vicente estava nesse patamar.
A título de exemplo, estádios como o do Moreirense receberam uma certificação de nível 2, enquanto Estoril ou Famalicão estavam no nível 3. Na prática, isso obriga a que estas equipas tenham de praticar preços máximos sempre mais baixos que os do Gil Vicente ou equipas que se incluam na categoria máxima.
Nenhum dos clubes revelou qual tinha sido o seu posicionamento na última vez que a matéria foi votada, mas há um documento da Liga que dá conta das deliberações tomadas numa Assembleia-Geral extraodinária, que data de 11 de junho de 2025. No que diz respeito ao Regulamento das Competições organizadas pela Liga Portugal - onde se insere a tabela e categorias de preços destinados aos jogos da Liga Portugal -, o documento diz que não houve oposição de nenhum clube aos preços e escalões de preços atuais, uma vez que "a proposta da Direção, votada na generalidade, foi aprovada com 46 votos a favor e uma abstenção" e quanto a propostas de alterações, nenhuma foi sobre artigos do mesmo regulamento que abordem a matéria, particularmente o artigo 105.º.
Além dos 5% de lotação mínima a dispensar em bilhetes aos clubes visitantes, também a Liga adianta que o Gil Vicente se disponibilizou a dispensar os restantes bilhetes ao FC Porto a 35 euros.
Quanto ao preço do bilhete de um único jogo ser superior ao preço mais baixo do bilhete de época para ver o Gil Vicente, a Liga lembra o preço relativamente baixo do bilhete de época em questão: 25 euros - cerca de 1,47 euros por jogo, em média. Para a Liga, este valor não representa mais do que um “incentivo” para que os sócios do Gil Vicente adquiram o bilhete de época, em oposição ao preço avulso mais alto dos bilhetes.
Pelo regulamento da Liga, o Gil Vicente poderia ter até cobrado mais: inseridos na segunda categoria de preços, os 35 euros cobrados pelo Gil Vicente para todos os bilhetes que excedessem os 5% de lotação mínima destinada aos adeptos visitantes poderiam ser 62 euros - o valor máximo da segunda categoria de preços. Para os sócios que não têm lugar anual, o Gil Vicente está a cobrar entre 40 e 50 euros por bilhete, enquanto que para adeptos não sócios ou público em geral pede entre 50 e 60 euros.
Contas "esmagadas"
“As contas dos chamados clubes médios estão ‘esmagadas’”, começa por explicar Nuno Farinha. O comentador da CNN Portugal acredita que o momento da temporada também é determinante para a receção dos 'clubes médios' aos 'clubes grandes'. “Há dois momentos específicos em que os clubes mais desejam receber os grandes: nas primeiras jornadas e nas últimas jornadas. Nas primeiras jornadas, os adeptos estão entusiasmados e acabam por encher os estádios." É o caso do FC Porto, que gerou entusiasmo nos jogos de pré-época e confirmou o bom arranque na primeira jornada, com o Vitória Sport Clube.
"Nas últimas [jornadas], estamos a falar de momentos em que o campeonato está a ser decidido, em que os adeptos vão atrás da equipa a qualquer lado e enchem também os estádios, se ainda conseguirem adquirir bilhete. O futebol é momento. E, agora, o momento é de entusiasmo, o que pode significar uma alta afluência de adeptos do FC Porto em Barcelos e, por isso, uma boa receita de bilheteira para o Gil Vicente”.
No caso concreto da bilhética do Gil Vicente - FC Porto, Nuno Farinha afirma que o mesmo poderá voltar a acontecer com Benfica e Sporting, neste e noutros estádios: “Esta é uma questão que já não é nova. Dificulta a vida aos adeptos? Claro que sim. Mas em muitos casos semelhantes, os bilhetes acabam por ‘voar’ e estes clubes veem nestes jogos uma oportunidade garantida de fazer dinheiro e tentar aliviar essas contas. Não digo que seja o mais correto, nem que seja o caso concreto do Gil Vicente - que até pode ser -, mas são receitas que fazem sempre diferença aos clubes que, por exemplo, não costumam frequentar competições europeias”.
A Associação Portuguesa de Defesa do Adepto (APDA) também confirma à CNN Portugal que este fenómeno é “bastante conhecido de há uns bons anos a esta parte”, mas lembra que a situação não tem sido “discutida com a amplitude que o desporto realmente merece”. “Os clubes tinham a possibilidade de criar protocolos para que os preços não sejam considerados um abuso, mas o pano de fundo económico-financeiro não abre portas para esse diálogo”, começa por explicar a APDA. A direção da associação afirma ainda que “cada vez menos” se veem “protocolos com todos os clubes para poderem disponibilizar bilhetes a 10 euros” com “reciprocidade”. Uma prática que era frequente no “passado”, assegura a APDA.
A APDA deixa ainda algumas críticas aos clubes que “optam por estas práticas mercantilistas” para com os adeptos que vão aos estádios, abordando casos como o do jogo entre o Gil Vicente e o FC Porto, com um “conjunto curto” de clubes que “enchem as bancadas regularmente nos jogos em que os visitantes são os ‘grandes’ e que aproveitam o verão com a “presença dos nossos emigrantes” nos estádios portugueses. “A lógica atual deu passos atrás e passou de ‘criar condições para os adeptos se deslocarem’ para um pensamento de ‘como encher os bolsos com a oportunidade de receber os clubes que trazem mais adeptos’”, acrescenta.
Gil Vicente e FC Porto jogam em Barcelos na próxima segunda-feira às 20:15, numa partida a contar para a segunda jornada da Liga Portugal 25/26.
