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O festival de arte mais importante do mundo está a desmoronar-se - e Rússia e Israel estão no centro da crise

CNN , Barbie Latza Nadeau e Jacqui Palumbo
9 mai, 18:00
Pavilhão Rússia Bienal de Veneza (Vincenzo Pinto/AFP/Getty Images)
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Tensão é tanta que até o ministro da Cultura de Itália está furioso, tendo recusado discursar na abertura do evento

Quando a exposição de arte internacional mais prestigiada do mundo, a Bienal de Veneza, abrir as suas portas na próxima semana, fá-lo-á mergulhada numa série de crises.

Não receberá a habitual bênção do ministro italiano da Cultura, Alessandro Giuili, que, juntamente com um número crescente de pessoas e organizações, está furioso com o regresso da Rússia ao evento perante o decorrer da sua guerra com a Ucrânia. Mais de 200 artistas, curadores e trabalhadores participantes assinaram uma carta aberta no mês passado a exigir que a Bienal de Veneza exclua o pavilhão de Israel devido às violações dos direitos humanos em Gaza. Seguiu-se outra carta, que incluía a nomeação dos Estados Unidos devido à sua guerra no Irão. Mais recentemente, após a demissão abrupta do júri de cinco membros no final de abril, o ilustre programa de prémios da Bienal será substituído por dois Prémios dos Visitantes, com votação aberta ao público que assistir às exposições oficiais.

Agora na sua 61.ª edição, a Bienal é uma apresentação global em larga escala de arte contemporânea de 99 nações, exibida principalmente em pavilhões nacionais permanentes espalhados pelos Giardini della Biennale, em Veneza. A Bienal oferece normalmente uma série de Leões de Ouro e de Prata, atribuídos por um júri, tanto para pavilhões vencedores como para artistas participantes individuais. Já houve casos de demissão de jurados anteriormente, como em 1968, quando membros do júri abandonaram os seus cargos em solidariedade com os protestos estudantis generalizados.

No entanto, a ausência do ministro italiano da Cultura na cerimónia oficial de abertura constituirá uma novidade notável na história da Bienal, que este ano tem início a 9 de maio. Em vez de presidir à cerimónia inaugural, Giuli anunciou que iria enviar inspetores ao recinto principal para “recolher informações sobre a reabertura do Pavilhão Russo”, revelou um porta-voz à CNN.

Embora a Bienal tenha frequentemente visto a política mundial a desenrolar-se entre os seus pavilhões, a exposição deste ano foi explicitamente posicionada para refletir o atual panorama geopolítico. Koyo Kouoh, que tinha sido escolhida como curadora-chefe — a primeira mulher africana a ocupar o cargo —, tinha elaborado as linhas gerais da exposição «In Minor Keys», antes de ser diagnosticada com um cancro agressivo, do qual faleceu no ano passado aos 57 anos.

A falecida Koyo Kouoh, que morreu após ter sido nomeada curadora-chefe da Bienal de Veneza de 2026, tinha apelado aos artistas participantes para que rejeitassem "o espetáculo do horror" no mundo. foto Marco Longari/AFP/Getty Images

“Ao recusar o espetáculo do horror, chegou o momento de ouvir as tonalidades menores, de sintonizar-nos sotto voce com os sussurros, com as frequências mais baixas; de encontrar os oásis, as ilhas, onde a dignidade de todos os seres vivos é salvaguardada”, lê-se na sua declaração curatorial original para «In Minor Keys».

Em vez disso, a Fundação da Bienal, que organiza o evento, gerou controvérsia ao aprovar a participação da Rússia na Bienal deste ano, afirmando num comunicado que “nenhuma regulamentação foi violada e as sanções contra a Federação Russa foram integralmente cumpridas, como é nosso dever”.

Para além de boicotar a Bienal, Giuli exigiu também a demissão de Tamara Gregoretti, a única representante do Ministério da Cultura no conselho de administração da fundação, por não ter vetado a decisão, alegando que ela não tinha alertado os responsáveis do governo italiano sobre o regresso planeado da Rússia e tinha “manifestado apoio à sua participação, apesar de estar plenamente ciente da sensibilidade internacional em torno da questão”.

Gregoretti disse à CNN que não tinha intenção de se demitir, mas que não faria mais comentários.

Revolta interna

O conflito em torno da Rússia e de Israel deixou a descoberto uma divisão entre a direção da Bienal e os membros do júri internacional, um grupo rotativo de figuras do mundo das artes responsável pela atribuição dos principais prémios da feira. Não é claro por que razão os membros do júri — a presidente Solange Farkas, Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi — se demitiram e, na sequência do anúncio da Bienal, um porta-voz recusou-se a fazer mais comentários.

Antes de se demitirem definitivamente, os membros do painel tinham emitido um comunicado fora do vulgar no final de abril, afirmando que não iriam premiar artistas de países “cujos líderes estão atualmente acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional”. Isto teria desqualificado quer a Rússia quer Israel de receberem prémios, uma vez que tanto o presidente russo, Vladimir Putin, como o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, enfrentam mandados de detenção do tribunal.

Os pavilhões de Israel e dos EUA fotografados durante a 60.ª Bienal de Veneza, em 2024. foto Luc Castel/Getty Images

“Como membros do júri, temos também uma responsabilidade para com o papel histórico da Bienal como plataforma que liga a arte às urgências do seu tempo”, lê-se nessa mesma declaração. “Nesta edição da Bienal, desejamos manifestar a nossa intenção — expressar o nosso compromisso com a defesa dos direitos humanos e com o espírito do projeto curatorial de Koyo Kouoh.”

A Rússia expôs pela última vez na Bienal de Veneza de 2020, num pavilhão no coração dos Giardini, de que é proprietária desde 1914. Na sequência da invasão em grande escala da Ucrânia em 2022, o curador e os artistas escolhidos para representar a Rússia nesse ano retiraram-se em protesto contra as ações do seu governo. Na Bienal seguinte, em 2024, a Rússia não participou e, em vez disso, cedeu o seu pavilhão à Bolívia.

Quando a Rússia se candidatou à participação em 2026, com uma exposição intitulada «A Árvore Está Enraizada no Céu», foi aceite pelo presidente da Fundação, Pietrangelo Buttafuoco, apesar de a guerra continuar sem tréguas e das sanções internacionais em vigor contra a Rússia.

A Ucrânia protestou veementemente contra a inclusão da Rússia na Bienal. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, apelou aos organizadores para que reconsiderassem a decisão. “A Bienal não deve tornar-se um palco para branquear os crimes de guerra que a Rússia comete diariamente contra o povo ucraniano e o nosso património cultural”, afirmou Sybiha.

A Comissão Europeia também condenou a inclusão da Rússia e ameaçou retirar uma subvenção de 2 milhões de dólares destinada à Bienal no seu conjunto, caso a decisão não fosse revertida até 11 de maio. “A cultura promove e salvaguarda os valores democráticos, fomenta o diálogo aberto, a diversidade e a liberdade de expressão, e nunca deve ser utilizada como plataforma de propaganda”, afirmou a Comissão Europeia em comunicado, considerando a decisão da fundação “incompatível com a resposta coletiva da UE à agressão brutal da Rússia”.

No meio da crescente controvérsia, a Rússia anunciou no final de março que o seu pavilhão não estaria aberto ao público, embora a imprensa viesse a ter a oportunidade de visitá-lo entre 6 e 8 de maio. O pavilhão tornou-se um local de protesto contra a brutal guerra conduzida pela Rússia na Ucrânia.

Durante a última Bienal de Arte, a artista israelita participante, Ruth Patir, recusou-se a inaugurar a exposição no Pavilhão Nacional, afirmando que as portas permaneceriam fechadas até que fosse alcançado um acordo sobre os reféns e um cessar-fogo em Gaza. Este ano, a exposição não será apresentada no Pavilhão de Israel, no Giardiani, mas num espaço mais pequeno nas redondezas, no bairro do Arsenale, em Veneza.

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