Bielorrussos à espera do sucesso da Ucrânia para enfrentarem Lukashenko: "A Bielorrússia é um enorme gulag e as pessoas vivem como na época de Estaline"

13 mai, 18:52
Svetlana Tikhanovskaia

Chama-se Svetlana Tsikhanouskaya e é a líder exilada da oposição na Bielorússia. Viu o seu marido ser preso em 2020 e, neste momento, não sabe se está vivo ou morto. A última vez que teve notícias suas foi em 2023. Para não ter o mesmo destino do marido foi obrigada a fugir. Esta ex-professora de inglês tornou-se o rosto na luta contra o regime de Lukashenko, aliado de Putin. Numa entrevista ao jornal espanhol El Mundo pede ao Ocidente para não esquecer Minsk

A entrevista do El Mundo começa de forma direta: quem é Svetlana Tsikhanouskaya? “Sou mãe, sou mulher de um preso político, sou uma vítima de opressão. E, de repente, tornei-me líder de um movimento democrático e tive de me exilar. Agora a minha vida é falar de Direitos Humanos. Faço eco da repressão que se vive no nosso país – Bielorússia – e como é possível comunicar com quem está nas prisões. Sou a representante de um povo, que me escolheu para ter voz, e por isso não posso ficar calada.”

Da conversa fica claro que a escolha inicial do caminho não foi sua, mas aceitou a missão. Vai longe a vida normal da ex-professora de inglês, reconhece a própria. “Tem sido um caminho muito difícil. Talvez seja interessante ser político num país democrático, onde o Estado de direito prevalece. Mas quando se está sobre constante ameaça, quando sentes uma dor constante, torna-se muito difícil.”

Svetlana Tsikhanouskaya admite mesmo que houve momentos de maior desespero em que quis desistir: “Queria voltar à minha vida normal (…), ser professora, ser mãe a cuidar de um filho doente, ser mulher de um marido livre.” Mas a missão fala mais alto: “Quando levarmos a democracia à Bielorrússia e organizarmos eleições, vou precisar de descansar para estar com a minha família. Mas agora não posso simplesmente desaparecer. Sinto que não estou sozinha, por isso, lá estarei enquanto o meu país e o meu povo precisarem de mim.”

E porque precisa o povo da Bielorrússia de um nome, de um rosto de uma voz? “A Bielorrússia é um enorme gulag [campo de concentração na antiga União Soviética] e as pessoas vivem como viviam no tempo de Estaline. Os cidadãos dos países democráticos não sabem o que é o medo permanente. O que significa viver cada minuto à espera que o KGB apareça e te detenha à frente dos teus filhos, te ponha um saco na cabeça e desapareças”. E ser detido pode ser por muitos motivos como “ler notícias”, “apoiar a família de um preso político”, “apoiar a Ucrânia ou ser contra a guerra”. Na verdade, podem ser inimigos “por falar outra língua ou usar certas cores”.

Por tudo isto e muito mais, desistir não é uma opção para Svetlana Tsikhanouskaya. “Lukashenko não conseguiu subjugar-nos, nem mudar a forma de pensar dos bielorrussos. É evidente que conseguiu, através da repressão, tirar-nos visibilidade, e meio milhão de compatriotas foram para o exílio.” No entanto, “a oposição permanece nas sombras e os bielorrussos não esqueceram, nem perdoaram". "As pessoas estão agora na clandestinidade e preparam-se para a próxima oportunidade. Quando chegar a hora saberemos o que fazer.”

Questionada pelo jornalista do El Mundo se esse cenário é possível a curto prazo ou médio prazo, a líder da oposição não tem uma resposta certa. “Existem muitos fatores que podem influenciar a situação. Depende do apoio do mundo democrático, de o povo bielorrusso manter a unidade e não ceder à frustração. E depende muito da Ucrânia. Porque se conseguirem prevalecer, isso proporcionará uma janela de oportunidade imediata para a Bielorrússia.”

Todavia, não podem ficar sentados à espera. “Temos de explicar ao mundo porque é que a nossa causa é importante e porque não pode ser ignorada. Temos medo que a Bielorrússia seja entregue a Putin como prémio de consolação. É por isso que lutamos para que a nossa causa esteja em cima da mesa durante as negociações sobre a Ucrânia.”

Poderá Lukashenko cair sem que Putin caia primeiro? “É possível, claro. Estava perto não faz muito tempo. A influência de Putin sobre Lukashenko é enorme. Eles têm uma amizade simbiótica, usam-se, precisam um do outro, ambos são interdependentes. E, claro, a Rússia não vê a Bielorrússia e a Ucrânia como Estados independentes que podem escolher o seu futuro por si próprios. No futuro, haverá apenas duas opções para a Bielorrússia: forças democráticas ou pró-Rússia”, responde Svetlana Tsikhanouskaya.

A defensora dos Direitos Humanos vai mais longe e acredita que o país pode ser livre: “Penso que as mudanças na Bielorrússia poderão ocorrer mais cedo do que na Rússia porque no meu país a oposição está mais consolidada, há um consenso contra Lukashenko, contra a guerra, contra a subjugação russa.”

As questões da Ucrânia e de Gaza têm tirado visibilidade à Bielorrússia, mas isso é normal. “Existem outras prioridades”, reconhece. “Sabemos disso e é nossa tarefa ser persistentes, lembrar ao mundo o que está a acontecer, bater a todas as portas possíveis. Temos de procurar novos caminhos, novos aliados.” E deixa um alerta: “As ditaduras são contagiosas. Há muitos na UE que acreditam que o que está a acontecer agora é apenas uma questão da Ucrânia ou da Bielorrússia, mas eu digo-lhes que não, que se não detiverem os ditadores, a ditadura acabará por bater à sua porta.”

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