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Diretor da CNN Portugal

A verdade de Bezos

30 out 2024, 07:30

Quando Jeff Bezos, o bilionário que criou e transformou a Amazon num eldorado da era moderna, comprou o centenário Washington Post muitos se interrogaram porque razão o teria feito. 

O Post é o mais relevante jornal americano e, mesmo sendo hoje um negócio deficitário, a sua história e o bom jornalismo que ainda hoje associamos à sua marca, continuam a ser inspiradores para os que acreditam na necessidade de os media serem parte (mesmo informal) do sistema de “checks and balances” em que se baseia a democracia nos Estados Unidos. 

Nos últimos dias, o Washington Post, por responsabilidade própria, entrou num turbilhão que diz mais sobre a realidade dos media tradicionais vs. (os chamados) new media, que sobre a situação do jornal em particular. 

Para o Post foi tudo mau. A decisão de não apoiar um dos candidatados presidenciais, quebrando uma tradição de décadas, foi mesmo péssima e pareceu ter o dedo do acionista; as justificações dadas foram espúrias; mais de 200.000 subscrições desapareceram em poucos dias, e, finamente, o artigo, mais de justificação, que de “opinião do próprio Jeff Bezos adensou seriamente o embaraço. 

Bezos não disse só asneiras. Enfatizou, num artigo a que chamou “A dura verdade”,  a importância de meios clássicos, como o Post, terem distanciamento em relação aos factos porque estudos recentes, aqui nos Estados Unidos, são claros: os cidadãos não confiam nos jornalistas e preferem aceder à informação através das redes sociais. Pode até ser pouco exata, ou falsa no limite, mas são os próprios a decidir se acreditam ou não. O que vem escrito na imprensa tradicional ou aparece na televisão vem, normalmente, enquistado. O velho sistema reagiu contra Bezos. Reagiria sempre, mas neste caso mesmo com bons argumentos, ele está longe de ser uma virgem inocente. 

A reflexão do filantropo Bezos - afinal porque terá ele comprado um dos jornais mais influentes do país ? - seria um contributo, mas noutro momento e noutro contexto. Feita agora torna legítima a dúvida que, estando a redação do jornal pronta para apoiar Kamala Harris, o empresário Bezos não quis problemas com Trump na possibilidade, de novo bastante real, deste ganhar a eleição do dia 5. Não por acaso, embora o bilionário escreva que foi mesmo um acaso e do destino, um dos seus executivos esteve no mesmo dia do anúncio numa reunião da alta finança com o candidato republicano. 

O texto que Bezos assina no Washington Post é, visto com atenção, a posição de quem quis preservar os seus interesses empresariais e não de quem quer defender o Jornalismo. 

Aqui na América como em Portugal, se não quisermos enfiar a cabeça na areia, é preciso assumir que há menos público à procura dos media clássicos. É certo que os portugueses confiam nos jornalistas e os americanos não, mas o que Bezos disse não ajuda em nada o Post. Sejamos francos, apesar do ruído, ele não deve estar preocupado. 

Com a Amazon a facturar 30 mil milhões de dólares, perdas de 70 milhões numa unidade de negócio, como o Washington Post, não chegam a ser uma borbulha, quanto mais um problema.

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