Cowboy Carter: Beyoncé agarrou a América pelos cornos

3 mai, 14:32
Capa do novo disco de Beyoncé (DR)

É difícil imaginar o dia em que me sento ao computador para escrever sobre política e o texto transforma-se numa reflexão sobre Beyoncé. Se uma coisa aparentemente nada tem que ver com a outra, então, poderemos estar surpreendentemente enganados. A cantora acaba de colocar na estrada a digressão do álbum Cowboy Carter e este talvez seja o ato mais político da sua carreira, mesmo depois de ter declarado publicamente apoio a Kamala Harris ou de ter cantado para Michelle e Barack Obama. Estes serão naturalmente dois momentos que lhe garantem um posicionamento político assumido, mas que pouco se aproximam da fúria desencadeada nos conservadores por ter ousado reclamar uma parte da cultura norte-americana: a música country. A entrada em palco acontece de fininho, sem fogo de artifício nem piruetas estonteantes.

“It’s a lot of talking going on, while I sing my song” é primeira frase com que se apresenta vestida de branco, num cenário igualmente branco. Perante a plateia extasiada, a artista vai repetindo perguntas.

“Can you hear me?”

A provocação não é evidente desde o primeiro momento. Beyoncé vai reiterando um interrogatório que, como haveremos de ver, não é retórico.

“Or do you fear me?”

A reação exasperada de uma parte dos críticos revelou-se enraizada em preconceitos raciais, uma resistência de certos setores em aceitar uma mulher negra no espaço tradicionalmente branco da música country. Cowboy Carter é a resposta a essa exclusão, através da evocação das raízes negras deste género-bandeira, recorrentemente ignoradas pela narrativa dominante da América profunda.

As estrelas mediáticas não pouparam fel. Desde logo, Megyn Kelly, antiga estrela da Fox News, referiu no seu programa que “a música country está aqui há muito tempo e os americanos nos Estados vermelhos adoram-na muito antes de a Queen Bey se meter no caminho”. As televisões tradicionais e os novos media conservadores foram repetindo ataques, cada um mais baixo do que o outro, como fez o ator John Schneider, ao sugerir que Beyoncé é como uma cadela: “eles têm de deixar a marca deles, como um cão num passeio no parque, sabes, um cão tem de marcar todas as árvores”.

Beyoncé compilou todas estas declarações e transmitiu-as nos ecrãs gigantes do seu palco. A resposta da artista chega em letras vermelhas muito

carregadas. “PROPAGANDA. CONFORMEM-SE. APESAR DE TODO O BARULHO, NÓS CANTAMOS”. De seguida, começa a música America Has a Problem. De facto, a América tem um problema.

A agressividade desta discussão em torno da música country só pode ser entender plenamente entendida se nos debruçarmos sobre a guerra cultural que segue menos silenciosa do que nunca nos Estados Unidos, uma faroeste tomadado por xerifes radicais de esquerda e de direita.

De um lado, os conservadores de direita, herdeiros da desilusão com a globalização, nostálgicos de uma América que interrompeu liberalismo, muitos deles eleitores de Donald Trump, enredados na promessa de um país “grande outra vez”. Para muitos, o country é uma banda sonora de um país e de uma identidade que sentem que perderam.

Do outro lado, uma esquerda radicalmente progressista que emergiu das universidades e se consolidou nas redes sociais. Um movimento que procura corrigir o passado com políticas identitárias, muitas vezes baseadas numa forma de segregação moderna que pretende ser reparadora, mas que, ao invés de unir, só atiça os piores demónios da história norte-americana.

Os dois lados desta guerra cultural reclamam exclusividade sobre a identidade americana. Ambos falam em nome de um “nós”, ignorando que esse “nós” é um sujeito múltiplo, partilhado e sobretudo contraditório. É nesse espaço que Beyoncé entra ao reclamar o country para uma parte dos americanos: os negros.

A fundação dos Estados Unidos foi feita com valores europeus, mas hoje este fluxo inverteu-se. Consumimos desenfreadamente tudo o que é norte-americano, confirmando o poderosíssimo softpower da maior potência mundial, seja ele bom ou mau. Para nosso infortúnio, não há tarifas que travem a importação dos problemas norte-americanos, ainda que desajustados na nossa realidade. Em Portugal, há partidos de esquerda que tentam encontrar chão para plantar a semente perigosa da agenda identitária, o tal wokismo, conceito odiado por todos. Procuram em casos como o de Odair Moniz a origem racial de um homicídio de um homem num bairro periférico, local de tantos problemas sociais que não começam na cor da pele. Catam à lupa as semelhanças a casos como o de George Floyd, ainda que esta discussão importada seja tão portuguesa como o Halloween.

À direita, outros partidos autoflagelam-se com bandeirolas pró-isolacionismo, acreditando que mais um prego no caixão fará cantar o galo na manhã seguinte. Batem no peito os slogans alheios, em adaptações tristes sobre quererem fazer Portugal grande outra vez, replicando a fórmula trumpista do Make America Great Again, mesmo que ela seja prejudicial sobretudo para países como

Portugal. A seguir visitam fábricas como a AutoEuropa, dizendo que estão do lado dos trabalhadores, numa campanha ignorante sobre o impacto brutal e multimilionário que as tarifas Trump têm nos grandes grupos do setor automóvel na Europa e, por arrasto, nas empresas portuguesas.

Se seguirmos o mesmo caminho do deserto sem ideias, correremos o risco de um dia andarmos na zaragata pública sobre uma mulher negra não poder cantar fado, ou uma mulher branca não poder dançar kizomba.

Numa conversa recente, no CNN Entrevista, a cantora Marisa Liz confessou-me que para ela a música “é uma arma, mas uma arma que não magoa, uma arma como foram os nossos cravos”. Se assim é, será que todos os artistas têm uma responsabilidade para combater, tal como soldado não pode evitar a conscrição? Marisa Liz responde-me que não, que não é uma responsabilidade, mas que a arte sempre teve uma representação dos tempos que se vivem. Eu, como ouvinte de todo o tipo de géneros músicais, sei que o famigerado mainstream não é assim, que quem usa a música como arma é, nos nossos dias, uma exceção. Marisa Liz suspira antes de me dizer que “tudo é mais fácil quando tu não trazes mais problemas para cima da mesa e, quando a música te faz pensar e te deixa desconfortável, é mais um problema para ti. E as pessoas estão fartas de problemas”.

É por isso que hoje escrevo sobre Beyoncé, uma artista que trouxe para o mainstream uma discussão profunda sobre a guerra cultural em que os norte-americanos se deixaram cair, seduzidos por narrativas que reclamam partes iguais da mesma identidade: um requiem americano. Cowboy Carter é uma mensagem importante sobre a importância de reconhecer e celebrar a diversidade cultural que moldou a música country e, sejamos sinceros, a América.

E.U.A.

Mais E.U.A.