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Porque é que estes adultos estão subitamente obcecados com um brinquedo infantil do final dos anos 90?

CNN , Chris Lau, Yoyo Chow
4 jul, 12:00
Campeonato Beyblade Hong Kong brinquedos (Chris Lau/CNN)
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'Beyblades' estão a ter um comeback na Ásia, a par dos jogos de Lego, dos Tamagotchi e das cartas Pokémon, e não são só crianças que estão a brincar com eles

Hong Kong —  O zumbido das agulhas e os suspiros de dor calam-se, substituídos pelo estalar e chocalhar do aço e do plástico que colidem.

Normalmente, os visitantes deste pequeno estúdio de tatuagens, escondido nas ruas secundárias do movimentado distrito da vida noturna de Hong Kong, surgem em busca de tatuagens de tigres e dragões, representando os dias de ouro da metrópole iluminada a néon. Mas o local atrai agora um público muito diferente.

Com as mesas de tatuagens empurradas para o lado, a sala transforma-se num coliseu para adultos que vão para a guerra com Beyblades, um brinquedo infantil que se popularizou há um quarto de século.

Os piões personalizáveis, lançados por uma tira de plástico, tiveram um estrondoso retorno à popularidade na Ásia – do Japão à Tailândia e de Taiwan a Hong Kong.

Tiff Tam, fã de Beyblade, exibe a sua coleção. foto Chris Lau/CNN
LegenOs brinquedos de pião são conhecidos como "Beys" entre os fãs, frequentemente batizados em honra de uma combinação de armas e personagens, como "Saber Samurai" e "Arrow Wizard". foto Chris Lau/CNNda

"Estou pronta para a batalha", diz Tiff Tam, de 28 anos, enquanto exibe o arsenal de "Beys" (como os fãs lhes chamam) no qual gastou quase 400 dólares.

Tam trabalha no estúdio The 59 Tattoo em Wan Chai, que passou a pôr fim ao horário de expediente mais cedo em algumas noites para acolher torneios comunitários, recebendo tatuadores de outros estúdios e moradores do bairro.

“No início, simplesmente não percebia qual era a piada”, diz ela. “Mas assim que comecei a jogar, consegui sentir essa tensão, excitação e competitividade.”

Inspirada no tradicional pião japonês beigoma (daí o nome BEY-blade), a linha de brinquedos tornou-se um sucesso quando foi lançada pela fabricante de brinquedos Takara no final dos anos 90 e início dos anos 2000.

Os jogadores montam os coloridos “Beys” – assim chamados em homenagem a armas e personagens como “Saber Samurai” e “Arrow Wizard” – e lançam-nos para um painel de plástico do tamanho de uma pizza, chamado “estádio”. As regras são simples: mantê-lo dentro do anel e continuar a girar para vencer.

As batalhas informais de Beyblade estão a surgir nos locais mais inusitados, com os jogadores a reunirem-se em parques, ginásios e centros comerciais. Quando um estádio não está prontamente disponível, os adeptos inovam. Alguns até fazem os seus Beyblades girar em woks chineses, como mostram vídeos nas redes sociais.

O aumento da procura pelo Beyblade fez com que os entusiastas formassem filas à porta das lojas de brinquedos em Taiwan e Hong Kong, com alguns a viajar até ao Japão para conseguir os modelos mais raros, que estão a ser revendidos por até 80 dólares online, 10 vezes mais do que o preço original.

Dar uma voltinha à nostalgia

“3, 2, 1, agora, dispara!”, ordena o árbitro, enquanto os desafiantes soltam os seus Beyblades na loja de tatuagens.

Os brinquedos tilintam, os jogadores sustêm a respiração e os espectadores sussurram estratégias à margem – até que um vencedor é coroado.

Jogadores enfrentam-se no estúdio The 59 Tattoo. foto Chris Lau/CNN
Todos sustêm a respiração até que um vencedor seja coroado. foto Chris Lau/CNN

Para Marcus Yuen, fundador do The 59 Tattoo, organizar os torneios é como reviver a sua infância. “As crianças da minha escola primária costumavam ficar no parque a brincar”, recorda. “Mas, à medida que crescemos, as pessoas foram deixando os brinquedos de lado.”

O homem de 36 anos, agora pai, diz que foi reintroduzido no jogo por um colega mais novo no início deste ano e voltou a apaixonar-se por ele. Quanto mais, melhor, pensou, por isso acabou por abrir o seu estúdio de tatuagens para receber fãs com a mesma mentalidade no seio da sua comunidade.

“É difícil hoje em dia encontrar um evento onde amigos e desconhecidos se possam reunir e jogar. É um tipo de felicidade muito pura”, partilha Yuen.

O estúdio explode em aplausos quando o vencedor é revelado. foto Chris Lau/CNN

O concorrente Tria John Bernard Benito diz que começou a reparar no ressurgimento do Beyblade através das redes sociais. Um amigo que vive no Japão também lhe falou sobre isso.

"Não pude brincar quando era criança porque [os beyblades] eram muito caros", conta o jovem de 30 anos. "Agora posso usar o meu próprio dinheiro para os comprar e divertir-me."

A 40 minutos de comboio dali, dezenas de jogadores reúnem-se num parque suburbano em Tseung Kwan O, um dos pontos de encontro mais populares entre os adeptos do jogo na cidade.

Estações de batalha improvisadas estão espalhadas por um canto do parque, com fãs alinhados em cada uma delas, à espera de desafiar o anfitrião. Há crianças a batalhar contra adultos da mesma idade que os seus pais. Quem ganha fica – como num jogo de basquetebol de rua.

Estas batalhas cinéticas estão a criar o tipo de interação humana real que não é tão comum numa sociedade moderna que gira em torno dos smartphones.

Um dos co-organizadores, que se identifica como Hui, diz ter reencontrado antigos amigos da escola, atraídos ao parque pela febre do desporto. "Agora brincamos juntos, mesmo que não fôssemos próximos naquela altura. É muito estranho”, confidencia.

A ascensão dos "adultos infantis"

O súbito ressurgimento do interesse pelo jogo é "bastante inédito", segundo Leo Tsoi, CEO da Toys "R" Us. Foi impulsionado pelas publicações virais nas redes sociais e pelo facto de permitir que jogadores de todas as idades voltassem a conectar-se.

"Ainda se pode ganhar como uma criança de 9 anos contra um adulto de 39, por isso cria muita emoção", diz Tsoi.

A procura disparou em Hong Kong, Malásia, Singapura, China continental, Taiwan e Tailândia – com Hong Kong a registar, por si só, um aumento de 14 vezes nas vendas em relação ao ano anterior, informa a cadeia de lojas de brinquedos.

Os jogadores usam uma tira de plástico e um lançador (que sai do bolso das calças de ganga) para lançar os seus Beyblades. foto Chris Lau/CNN

Esta explosão na procura faz parte de um crescente fenómeno "kidult" – adultos que partilham os interesses e passatempos das crianças – que tem estado a impulsionar as vendas de outros brinquedos nostálgicos, como os conjuntos Lego, o jogo retro de animais virtuais Tamagotchi e as cartas colecionáveis ​​Pokémon.

A indústria dos brinquedos tem-se voltado cada vez mais para o mercado kidult nos últimos anos. Nos EUA, os consumidores com 18 anos ou mais ultrapassaram as crianças em idade pré-escolar e tornaram-se os maiores compradores de brinquedos no início de 2024, de acordo com a empresa de estudos de mercado Circana.

Hui, que organiza encontros regulares para os adeptos num parque suburbano, disputa um jogo com um jogador infantil, contra quem acaba por perder. foto Chris Lau/CNN

A estratégia é particularmente necessária na Ásia, onde muitas economias – do Japão e Coreia do Sul a Singapura e Hong Kong – registam algumas das taxas de natalidade mais baixas do mundo, o que significa que o jogo das probabilidades está contra os fabricantes de brinquedos, que já enfrentam uma concorrência crescente dos jogos para telemóveis.

"É um facto”, assume Tsoi, “a intenção desta geração e a sua estratégia de planeamento familiar são diferentes da anterior".

E visar o mercado das crianças adultas faz sentido económico por outro motivo: elas têm dinheiro.

"Já não é preciso implorar à nossa mãe como quando éramos crianças", diz Yuen, o dono do estúdio de tatuagens. "Podemos comprar o que quisermos."

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