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Depois de um ataque cardíaco, os betabloqueadores são, muitas vezes, um medicamento para o resto da vida. Talvez não devessem ser

CNN , Jacqueline Howard
26 abr, 15:00
Comprimidos (Getty Images)

Há mais de 40 anos que os betabloqueadores são prescritos de uma maneira geral como tratamento padrão para adultos que sofreram ataques cardíacos sem complicações. Novos estudos questionam esta abordagem

Durante décadas, sobreviver a um ataque cardíaco significou a toma de medicamentos chamados betabloqueadores para proteger o coração durante o resto da vida. Mas os médicos estão a analisar mais atentamente se o uso prolongado de betabloqueadores é realmente necessário, especialmente após o primeiro ano de recuperação.

Os betabloqueadores são uma classe de medicamentos sob prescrição que ajudam a baixar a pressão arterial e a diminuir a frequência cardíaca, sendo comummente utilizados para tratar uma vasta gama de problemas cardiovasculares. Embora sejam geralmente considerados seguros, podem apresentar alguns efeitos secundários, incluindo fadiga, tonturas, boca ou olhos secos e, em casos raros, disfunção sexual.

mais de 40 anos que os betabloqueadores são prescritos de uma maneira geral como tratamento padrão para adultos que sofreram ataques cardíacos sem complicações, de forma a reduzir o risco de outro evento cardiovascular, e muitas pessoas continuam a tomar estes medicamentos durante toda a vida. No entanto, um número crescente de investigações tem começado a questionar esta abordagem.

Embora cada doente seja diferente, alguns médicos defendem atualmente que a utilização de betabloqueadores, se necessários, apenas durante um ou dois anos, em vez de durante toda a vida, pode ajudar as pessoas a evitar efeitos secundários desnecessários e a poupar dinheiro.

“As evidências estão a mudar”

A Associação Americana do Coração e o Colégio Americano de Cardiologia publicam regularmente orientações conjuntas sobre o tratamento das doenças cardíacas. Em 2023, a orientação para o tratamento de doentes com doença coronária crónica foi atualizada , passando a não recomendar a terapêutica prolongada com betabloqueadores nestes doentes caso não tenham sofrido um ataque cardíaco no último ano.

As diretrizes mais recentes reconhecem que há dados em evolução sobre o uso a longo prazo de betabloqueadores após um ataque cardíaco, esclarece Manesh Patel, presidente eleito da American Heart Association e cardiologista e professor da Duke University School of Medicine.

"Os betabloqueadores foram originalmente utilizados em doentes que sofriam ataques cardíacos antes de termos muitos dos avanços tecnológicos mais recentes - como abrir rapidamente a artéria com uma angioplastia, salvar o músculo cardíaco e até alguns dos anticoagulantes e medicamentos para o colesterol que utilizamos. Esses avanços estavam a surgir quando os betabloqueadores foram estudados pela primeira vez e mostraram o seu benefício em pacientes que tiveram um ataque cardíaco", explica Patel.

A investigação emergente "pode permitir-nos, em tempo real, começar a reduzir algumas das terapias que temos", avança. "As evidências estão a mudar e parece que, para os doentes que estão estáveis depois de um ataque cardíaco, há mais dados sobre os riscos e os benefícios que parecem indicar que se pode suspender a terapêutica crónica com betabloqueadores".

A mudança do padrão de tratamento pode ter um impacto "significativo" na quantidade de dinheiro que os sobreviventes de ataques cardíacos podem gastar em betabloqueadores ao longo das suas vidas, diz Joseph Ravenell, professor associado de saúde e medicina populacional na NYU Langone Health em Nova Iorque.

"Se conseguirmos obter essencialmente o mesmo benefício em termos de mortalidade, mas evitarmos que os doentes tenham de tomar medicamentos durante toda a vida, não posso deixar de considerar isso positivo - tanto do ponto de vista da qualidade de vida como do ponto de vista da economia da saúde", explica Ravenell.

Muitos betabloqueadores são normalmente acessíveis, custando cerca de 20 dólares (cerca de 17 euros) ou menos por mês, mas este valor pode acumular-se ao longo da vida.

"Se pensarmos em quanto gastamos por mês e multiplicarmos esse valor por uma vida inteira, então este é um exemplo da potencial poupança de custos", conclui. "E quando analisamos a razão pela qual os doentes não cumprem frequentemente os regimes de medicação, é normalmente devido aos efeitos secundários ou aos custos, pelo que tudo o que pudermos fazer para reduzir o peso da farmacoterapia nos doentes com doenças crónicas é uma vitória".

Alguns médicos em todo o mundo já estão a mudar a sua abordagem à prescrição de betabloqueadores para sobreviventes de ataques cardíacos a longo prazo, afirma Valentin Fuster, presidente do Mount Sinai Fuster Heart Hospital e diretor-geral do Centro Nacional de Investigaciones Cardiovasculares de Espanha. "Nos últimos 10 a 15 anos, algumas pessoas - incluindo eu próprio - questionaram o papel dos betabloqueadores em doentes com bom coração ou boa função ventricular", revela Fuster.

Numa escala mais alargada, "penso que vai haver uma mudança na prática. Isso já está a acontecer com os artigos que publicámos recentemente", diz. "Penso que os médicos serão muito mais cautelosos na administração de betabloqueadores a doentes com boa função ventricular." 

Estudos recentes publicados no New England Journal of Medicine mostraram que iniciar o uso de betabloqueadores logo após um ataque cardíaco não melhorou os principais resultados em alguns doentes com função cardíaca normal. Apesar disso, muitos doentes que permanecem estáveis ​​​​anos após um ataque cardíaco continuam a tomar betabloqueadores. Uma questão fundamental que se mantém é se a suspensão dos betabloqueadores é segura para estes doentes estáveis.

Agora, um novo estudo acrescenta mais uma camada a esta reflexão.

Entre os adultos de baixo risco que se mantiveram em condições estáveis durante pelo menos um ano após um ataque cardíaco, os que deixaram de tomar betabloqueadores não enfrentaram um risco mais elevado de morte, ataque cardíaco ou hospitalização por insuficiência cardíaca, em comparação com os que continuaram a tomar a medicação, de acordo com um novo estudo publicado no New England Journal of Medicine. O estudo foi também apresentado na sessão científica anual do American College of Cardiology em Nova Orleães.

"Na prática do mundo real, muitos pacientes permanecem com betabloqueadores durante anos após um ataque cardíaco", explica, numa resposta por email, o autor principal do estudo, Joo-Yong Hahn, professor de cardiologia no Samsung Medical Center em Seul. "O nosso estudo analisa diretamente uma questão prática com que os médicos se deparam todos os dias: em doentes estáveis que se encontram bem há anos, é realmente necessário continuar a tomar beta-bloqueadores indefinidamente ou podemos considerar a sua interrupção com segurança?" 

“Pode não ser necessário” para todos

O novo estudo incluiu dados de mais de 2.500 adultos, em 25 centros de saúde na Coreia do Sul, que se encontravam em estado estável após um ataque cardíaco. Os adultos, com uma idade média de 63 anos, estavam a receber terapêutica com betabloqueadores há pelo menos um ano. Muitos deles tomavam carvedilol, bisoprolol ou nebivolol.

Os adultos foram identificados para se inscreverem no estudo entre 2021 e 2023, e muitos tinham tido ataques cardíacos há vários anos, explicou Hahn.

Cerca de metade dos adultos no estudo foram aleatoriamente designados para deixar de tomar betabloqueadores, enquanto os outros continuaram a tomar os seus medicamentos.

Os investigadores observaram atentamente cada adulto durante cerca de três anos e examinaram quantos tiveram um ataque cardíaco recorrente, foram hospitalizados por insuficiência cardíaca ou morreram por qualquer causa.

No geral, o enfarte recorrente, o internamento por insuficiência cardíaca ou a morte por qualquer causa ocorreram em 58 adultos (ou 7,2%) no grupo de descontinuação, em comparação com 74 adultos (ou 9%) no grupo de continuação.

“Em doentes estáveis ​​de baixo risco que tomam betabloqueadores há anos após um enfarte, interromper o uso de betabloqueadores foi tão seguro como continuar a tomá-los, no que toca ao risco de morte, outro enfarte ou hospitalização por insuficiência cardíaca”, revela  Joo-Yong Hahn.

Mais concretamente, as mortes por qualquer causa ocorreram em 2,4% do grupo de descontinuação versus 3,4% no grupo de continuação; foram registados enfartes recorrentes em 2,3% versus 2,6%, respetivamente; e os internamentos por insuficiência cardíaca ocorreram em cerca de 2% de cada grupo.

A pressão arterial e a frequência cardíaca pareceram aumentar entre os adultos que interromperam o uso de betabloqueadores, observaram os investigadores, mas a pressão arterial sistólica média do grupo manteve-se abaixo dos 130. A pressão arterial sistólica é o número superior numa leitura da pressão arterial, e a pressão arterial é considerada elevada quando é 130/80 ou superior.

Os investigadores observaram que, como o estudo foi realizado na Coreia do Sul, são necessárias mais pesquisas para determinar se resultados semelhantes seriam registados noutros países, incluindo os Estados Unidos.

O novo estudo também levanta a questão de quando seria exatamente o momento ideal para interromper o uso de betabloqueadores, e isto pode variar de paciente para paciente.

Embora o estudo não sugira que todos os sobreviventes de enfarte devam interromper o uso de betabloqueadores após um ano, "penso que pode mudar a prática de forma significativa: sustenta a ideia de que, para doentes estáveis ​​devidamente selecionados, sem insuficiência cardíaca ou disfunção sistólica do ventrículo esquerdo, o uso rotineiro de betabloqueadores durante toda a vida pode não ser necessário", afirma Hahn. “Na prática, a descontinuação pode ser considerada numa tomada de decisão partilhada e com monitorização - especialmente se o doente apresentar efeitos secundários relacionados com o betabloqueadores”.

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