Bestiário | Pedro Nuno, o que fará ele com esta espada

1 mai 2025, 07:45
Bestiário Pedro Nuno Santos. Imagem criada com recurso a tecnologia de inteligência artificial
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Depois do debate com o líder da AD, o secretário-geral do PS é o protagonista da jornada. Faltam 17 dias para as eleições

Se o poder de um homem também se mede pelos inimigos que tem, Pedro Nuno Santos desejaria outro opositor. Para ele, Luís Montenegro não tem a dimensão – na nobreza ou na perfídia – imaginada para cumprir a sua autoimagem. Pedro Nuno é um tempestuoso que se vê como um intrépido: um Aquiles que se sonha Ulisses. A perder, terá a grandeza de Heitor; a vencer, será tombando gigantes. Montenegro não é nada disto, falta-lhe cavalaria e estado de alma, Montenegro é só um homem meão, não faz endurecer a espada de Pedro Nuno para o sangue da batalha.

Este ligeiro desdém ligeiramente recíproco sentiu-se durante o debate entre os chefes das duas aldeias vizinhas do centro. O verdadeiro Moriarty de PNS não estava ali, estaria a vê-lo de longe: a sua baleia branca é António Costa, foi ele que o marcou e humilhou ao revogar-lhe o despacho do novo aeroporto de Lisboa. Essa amputação de uma perna política persegui-lo-á sempre, juntamente com a banda sonora das pernas dos banqueiros alemães e a governação amnésica da TAP por Whatsapp. Sempre que alguém não tem argumentos contra a torrencialidade de PNS, saca destas armas pouco secretas. No debate, Montenegro fez o mesmo: quebrou o vidro em caso de emergência e apoucou PNS com a combinação tripla.

A questão não é se isto é leal, mas se é eficaz. Para mal de PNS, que notoriamente trabalhou (e foi trabalhado) para estes debates mais do que qualquer outro líder partidário, a combinação tripla é eficaz porque nela reconhecemos a máscara que lhe ficou colada à cara: a impulsividade e o verdor.

Pedro Nuno não vê em Montenegro a sua sombra, vê antes o seu negativo, aquele que teve e manteve uma empresa de avenças de influência, a vida de videirinho que ele podia ter mas de que foge, talvez nem sequer por seriedade mas por ensejo de ser maior numa roda política despojada de grandeza por um pragmatismo minimal repetitivo. PNS quer parecer um homem comum, não um homem vulgar; quer ter o amplexo do herói que defende os fracos e corrige as injustiças do mundo com os calcanhares à mostra.

O grande antagonista de D. Quixote é ele próprio, porque não consente viver numa verdade desidealizada e por isso inventa o real, onde acaba martirizado por causas nobres – mas afinal pobres. A correspondência está por exemplo no noticiado assalto ao carro de Joana Mortágua no Martim Moniz, Lisboa, onde antes a dirigente do Bloco de Esquerda se filmara como se numa ilha de homens absolutamente bons: o caso é fortuito e desprovido de representatividade, mas contém a ironia do episódio de Cervantes em que D. Quixote vê em prisioneiros condenados às galés vítimas injustiçadas e os liberta à força. Uma vez libertados, eles assaltam-no e fogem. A comparação não é entre os cidadãos do Martim Moniz e os galeotes, mas entre D. Quixote e Joana Mortágua – ou Pedro Nuno.

O navio do ocidente ainda não percebeu porque tombou para a direita, mas há nesse movimento uma revolta violenta contra uma promessa de viagem falhada.

Nas mil análises e psicanálises diárias ao crescimento do Chega há sempre um exercício assombrado de culpa – a culpa da esquerda que falhou, a culpa do centro que roubou, a culpa do polícia que não prendeu e do juiz que não julgou e do governante que se governou, a culpa que para as redes sociais é dos jornalistas e para os jornalistas é das redes sociais, a culpa do imigrante, do refugiado e do esfomeado, a culpa do gay e do bi e do trans, a culpa do homem por ser homem e da mulher por querer ser mulher, a culpa do capitalismo e do comunismo, de Trump, Xi e Putin, a culpa de tudo o que mexe e viraliza e acende o sonho-pesadelo de ganhar-perder uma vida entre insultar ou ser insultado.

A esquerda vê o mundo não como ele é, mas como queria que ele fosse; a direita vê o mundo não como ele é, mas como queria que ele não fosse. Entre a doçura da ilusão e a cólera da deceção, o mundo está a preferir a violência das palavras, das explosões e das expulsões. O cartão de crédito do sonho que reinterpreta o real para proteger a visão heróica esgotou o plafond. Com pedras na mão, a direita da direita não propõe amar, propõe armar.

A tragédia de Pedro Nuno é já não ser enfant terrible e continuar a ser visto como enfant sem ao menos a graça de ser terrible. A tragédia é este destempo da esquerda e esta pressa para a crise política por uma geleia ética por enquanto mais Spinumorta que Spinumviva. É esta a tragédia que ele tem de dobrar: se Montenegro precisa de ganhar estas eleições para se lavar dos seus pecados; Pedro Nuno precisa de ganhar umas eleições para ser livrar dos seus passados –  ser levado a sério e não como um revolucionário que não se identifica com o corpo de burguês com que nasceu, e investe na intensidade ideológica para suprir uma falta de consistência política.

O Luís não quer só trabalhar, o Luís quer governar. O Pedro Nuno não quer só governar, quer escrever o seu destino mudando o destino de outros. Mas ou PNS ganha e cumpre a brasa ou será o político que se vê grande mas é esmagado pelo vulgar. Como “O Albatroz”, de Baudelaire, a ave majestosa que se arrasta na lama, o herói “semelhante ao príncipe das nuvens” que habita a tempestade mas, “exilado no chão, no meio das vaias”, tem asas de gigante que, afinal, o impedem de andar.

 

 

Referências e citações usadas neste artigo:

- “Que Farei Eu com Esta Espada?”, longa-metragem de João César Monteiro (1975)
- “As Flores do Mal”, poesia de Charles Baudelaire (1875)
- “D. Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes (1605 e 1615)
- “Moby Dick”, de Herman Melville (1851)
- Imagem no topo criada com recurso a tecnologia de Inteligência Artificial

 

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